sábado, 1 de julho de 2017

João Dória, ilusionista


O pau que bate em Chico não vai ser o mesmo que bate em Francisco, porque achincalhar certos políticos em certos contextos é como, perdão ao veganismo, chutar cachorro morto. Vejam, só valeria a pena escrever alguma coisa maior que um parágrafo sobre o Bolsonaro se a tal “juventude nordestina e centro-oestina do pá, pá, pá” e adoradores de videogame lessem meu blog. Não é o caso. Não sendo o caso, Bolsonaro é um alvo muito fácil aqui (mas se você fala às multidões não convertidas, mire nele). Só valeria a pena escrever alguma coisa maior que dois parágrafos sobre Temer – esse multifacetado, esse camaleão, esse brasileiro renitente que não renuncia de jeito nenhum por coisas que em países de maior bom senso gerariam um rápido e histórico “se é da vontade do povo e para o bem geral da nação, eu desisto” – se ele fosse louvado pelos movimentos, pelas massas, pelos que se pensam esclarecidos. Não é o caso. Aqueles que gostam de Temer e o defendem são contáveis: Marcela por associação marital, Gilmar Mendes por associação de compadrio e algumas moscas do cenário político. “Esse governo provisório é o governo provisório de um grande líder que promoverá progresso” é algo que só imagino – e talvez tenha mesmo lido algo similar – na seção de cartas da Veja, escrito por algum perdido órfão que ainda não percebeu que a revista mudou sua linha há anos. 

“E por que reclama tanto de Lula, e reclama tanto de Dilma?” Porque são tidos como heróis, como “corações valentes”, como anjos, como amantes do povo e vítimas de tramoias, como pombos solitários na ilha dos gatos, como figuras “incapazes” de fazer mal ao pobre, ao povo, ao Brasil, de colocar interesses pessoalíssimos acima do interesse coletivo. Há quem creia neles. Um amigo fanático – que considera delações como prova quando falam de Aécio, mas quando falam de Dilma são para descarte (quando a delação de uma mesma pessoa tenta incriminar os dois, esse amigo busca uma pinça e faz o minucioso trabalho de catar somente o que quer) – reitera sobre Dilma: “mesmo os delatores diziam que ela era uma santa”. Que delatores? Os delatores que meu amigo escolhe como fonte de verdade quando dizem o que ele quer ouvir. Esse amigo é ateu, mas crê em Dilma, a “santa”. Portanto, não é tão ateu. Apenas substituiu Deus por políticos. Antes crer em Deus, que pelo menos envolve um misticismo folclórico agradável a quem gosta de contos. 

Eu estava focada em desgraçar esses ídolos da esquerda pouco exigente por causa de um ímpeto iconoclasta; e por adotar um objetivo de maculação tão definido em somente uma parte da corrente acabei sendo confundida com quem não devia. Não que me importasse com a confusão, feita pelos simplistas. Mas esperei – no sentido de ter esperança, ainda que macabra – pela new face de uma direita não muito sagaz. Esse rosto viria, tinha que vir. Trajetórias nos ensinaram que não é somente a esquerda que é carente de um grande pai protetor para chamar de seu. 

Então apareceu Dória. 

Ele tinha 5% das intenções de voto. São Paulo tem problemas que são as batatas quentes que cada gestão cita, mas não resolve, e Dória se sai com essa chamada para sua campanha: “vamos aumentar a velocidade nas marginais”. Sempre estranhei os ciclos políticos paulistanos, mas decretei em casa, amadoramente: “ninguém vai votar num sujeito com esse carro-chefe”. Mal sabia eu a plata que seria despejada na campanha desse autoproclamado empresário exemplar. Fortuna para publicidade eleitoral é o cão sorvendo suco de manga na taça, pois é por causa do pedido “queremos mais dinheiro para mais publicidade, você me financia que eu te favoreço medidas provisórias e contatos?” que mais de uma centena de políticos são investigados nesse momento enquanto nós estamos aqui nesse ponto de encontro. No Brasil, vence pleito quem tem maior condição de realizar produções de cinema para o horário televisivo. Podemos entoar algum cântico de glória porque uma microrreforma impediu que permanecêssemos como os Estados Unidos, divulgando candidatos por meio de dispendiosos boné, moletom e broche, mas não somos muito melhores enquanto gastamos quase um bilhão de fundo partidário para todo esse teatro (Dilma, a santa, sancionou o aumento do valor do fundo) e ainda vemos nossos candidatos pedindo dinheiro extra a empresas. Dória, eu não percebi tão cedo, tinha tudo: um padrinho, dinheiro do partido, seu dinheiro e charlatanismo. 

Dória se reuniu no Oriente Médio com o príncipe Hamed Bin Zayed Al Nahyan (copiei e colei), que disse tê-lo recebido porque não era um político, era um gestor. Numa das vezes em que estive em Blumenau nos últimos meses, fui levar minha meia-irmã à rodoviária, de ônibus. A empresa de ônibus que agora lá está é a ficção científica dos Flintstones e o artigo de museu dos Jetsons, então comentei com minha parenta: “isso aqui está fazendo muita gente ter saudade da Glória [empresa de ônibus anterior, que caiu por incompetência e casos mal explicados]”. A senhora que estava no banco da frente se virou, vibrou com meu comentário e começou a desabonar muitos políticos, na sequência: Napoleão Bernardes (prefeito de Blumenau), Raimundo Colombo (governador de SC), Ideli Salvatti, Lula, Dilma, Temer. Concordei com tudo. Até ela vir com: “sabe quem daria um bom presidente para esse país? Aquele de São Paulo, o Dória, porque ele não é político, ele é gestor, é empresário”. Liberais alienígenas insistem em chamar a Folha de “a Foice de São Paulo”, mas a julgar pelo impeachment – que um editorial pediu –, pela vontade de reformas trabalhistas e previdenciárias – que alguns editoriais trabalharam – e pelos leitores que se mostram na seção de comentários online, o jornal não é assim tão reduto de esquerdistas. Quantos comentaristas de nomes variados promoveram louvor a Dória e a seu perfil “empreendedor”? Diversos. O que me pergunto a cada duas postagens: desde quando alguém é o que diz ser e não aquilo que é? Ninguém diz sobre si que é um invejoso, um hipócrita, um canalha, um frustrado, um folgado ou um inhenho. Como pode a palavra de Dória valer mais do que aquilo que ele de fato é? Dória ter dito que a Cracolândia tinha acabado não acabou com a Cracolândia – por que Dória dizer que ele não é político faz, para muitos, com que ele não seja um político?

A Folha criou uma plataforma para catalogar e acompanhar os “118 compromissos assumidos pelo novo prefeito de São Paulo”. Até hoje, com Dória tendo cumprido um oitavo de seu pretenso governo, só duas ações foram concluídas: 1. aumento da velocidade nas marginais, 2. liberação de carros no viaduto da Nove de Julho. O primeiro compromisso cumprido, recentemente soubemos, se deve ao fato de Dória ter pressa. Sua carteira estava suspensa por extrapolar o limite de pontos, alguns deles marcados por excesso de velocidade. Dória também se une ao falatório indigno sobre esse vento chamado “indústria da multa”. 

Não tem a ver com os pontos principais (quando me atenho só aos pontos principais?), mas gostaria de determinar: não existe uma indústria da multa instaurada da forma como Dória e seus acólitos creem. Se a regra é clara, se você sabe da regra e mesmo assim a desrespeita, e tem como corolário inevitável uma cobrança chegando à sua casa, isso não é indício da indústria da multa, mas indício da sua falta de atenção, ou da sua falta de respeito, ou da sua vontade de ser esperto. Você está cometendo uma infração de trânsito e durante ela, enquanto você acha que está se dando bem, um “marronzinho” surge abruptamente de trás de um poste – isso não é indústria da multa, isso é você sendo pego por fazer algo errado quando achou que ninguém de importância estava olhando. O que caracterizaria uma real indústria da multa? Regras que mudam o tempo todo, por exemplo. Mês retrasado não valia estacionar ali, mês passado valia e esse mês voltou a não valer – e você não sabia porque a regra é flutuante e não teve tempo honesto de acompanhá-la, e estacionou. Foi multado por isso. Teria o direito de falar de uma tal indústria da multa. Outro exemplo: você está numa estrada sem placas de limite de velocidade por um longo trecho, passa por ela a 83 e depois é multado porque o limite era 70… sendo que a última placa que havia na estrada era com limite 90. Você recorre e seu pedido é indeferido. Também nesse caso você poderia falar de uma tal indústria da multa. Recentemente, uma senhora de Santos foi indevidamente multada: na hora da ocorrência, ela estava a 620km do local onde ocorrera uma ultrapassagem ilegal. Ou seu carro foi clonado, ou o agente do DER anotou a placa errada. Anotação errada de placa é algo que pode acontecer – quem é que nunca confundiu números? –, mas o que não pode acontecer é essa senhora provar sua inocência, por vídeos do seu prédio mostrando seus horários de entrada e saída naquele dia e atestado do dentista confirmando que ela estava em consulta no momento da ocorrência, e mesmo assim ter seus recursos indeferidos porque o DER considerou as provas inconsistentes. Essa senhora será compreendida se, apesar de seu caso isolado, achar que é vítima de uma conspiração para arrecadar dinheiro a qualquer custo. Já dizia muito sobre Dória ele ser adepto do discurso da indústria da multa e ter o apoio de quem acredita em indústria da multa. 

Voltemos ao escopo: é esse homem, sobre o qual FHC declara que “não fez nada por São Paulo e só faz sucesso no celular”, esse homem que em 1/8 de seu governo concluiu apenas duas promessas fajutas, esse homem que fala coisas erradas que a gente não escreve em linhas retas, esse homem que ao ser colocado contra a parede em assuntos críticos responde com jogo de palavras e tergiversação, esse homem que disse que concluiria sua gestão em São Paulo mas já deu algumas nítidas flertadas com a ideia de ser candidato a presidente – é esse o homem louvado como “o novo”, “o presidenciável”. Já vejo uma capa da Exame com Dória: “qual é o segredo do responsável pela maior cidade do país?” Oratória e publicidade, ou seja, ilusões. 

O controverso Thoreau disse que nossas invenções são apenas brinquedos bonitos que nos distraem das coisas realmente sérias. Quando observamos um século com tanto avanço tecnológico em que as pessoas ainda se deixam hipnotizar pela propaganda – talvez eu deva substituir o “ainda se deixam” por “se deixam mais do que nunca” –, temos que concordar com ele. De nada adiantam os óculos virtuais do Google para o aprimoramento do mundo se nós possuímos cegueira política. Dória é atento ao Facebook porque sabe que a rede alicia. Dória responde a pergunta “quais seus nomes preferidos?” do Questionário Proust com “Deus e Jesus Cristo”, fazendo-se de si mesmo sem braço para o que a indagação estava de fato querendo (bastava dizer os nomes dos seus filhos, como fez Haddad), porque sabe que pode encantar religiosos com isso. Dória coloca o trabalho até a morte (diz que quer “morrer trabalhando aos cem anos”), o acordar cedo e a religiosidade como valores porque sabe que isso passa uma imagem de competência e caráter. Nenhuma dessas coisas são valores – são opções que alguns fazem –, mas Dória sabe que mesmo o sujeito preguiçoso, que dorme até tarde e é relapso com o Deus no qual acredita como amuleto de espelhinho retrovisor é seu potencial eleitor por causa dessas “virtudes” que ele afirma possuir.

Tendo implementado políticas pró-livre mercado, Reagan, o político ator, declarou: “O governo existe para nos proteger uns dos outros. O ponto em que o governo foi além dos seus limites foi quando decidiu nos proteger de nós mesmos.” É uma frase altamente laissez-faire, e eu discordo dela – e dos liberais – porque acho que as pessoas precisam ser protegidas delas mesmas, principalmente quando as decisões deixadas livres a uma maioria idiota vão influenciar a minha existência. Por que devo querer ser governada por alguém que se elegeu graças à eficiência da propaganda? Despido de enfeites, mídias sociais e clichês, o empresário que os paulistanos elegeram não é nada. 

São Paulo não é uma empresa para ser administrada como uma. Há alguns anos trabalhei, como funcionária pública, num lugar onde as chefes tomavam decisões conforme seus caprichos e não conforme os princípios da administração pública e do interesse coletivo. Estavam erradas, porque a instituição onde trabalhavam não era a “empresa” delas para que comandassem conforme seus humores e de acordo com seus gostos inconstantes, e sim um local que elas representavam temporariamente. Algo que está sob seu cuidado não é necessariamente seu. Dória parece tratar São Paulo da mesma forma. A cidade “é dele”, e ele, caprichosamente, toma medidas alopradas porque acha que está administrando uma nova empresa. É ótimo quando em um local público são adotados alguns valores da esfera privada – os melhores funcionários públicos são os que adotam a eficiência que adotariam caso suas repartições lhes pertencessem particularmente –, mas isso não justifica que um local público se transforme numa empresa privada. Não estou reclamando das possíveis privatizações de Dória. Estou reclamando de certas parcerias, bem à empresa privada, que farão com que locais públicos, que deveriam ser conservados com nossos altos tributos, se tornem a vitrine de grandes empresas – que pelo populacho talvez sejam vistas como boas quando na verdade estão sendo apenas interesseiras. Estou reclamando da “solução”, bem à empresa privada, que Dória arranjou para fazer mais gastando menos e enganando o cliente sobre a qualidade do serviço: fechou salas temáticas e bibliotecas em centros de educação infantil para que houvesse mais espaço para matricular novas crianças – e assim, quem sabe, zerar à força a fila de espera e divulgar o feito como uma promessa cumprida de sua gestão.

A história se repete. Collor foi a tragédia e Dória é a farsa. E talvez Collor tenha sido a tragédia, palavra que remete à catástrofe, porque teve alcance nacional. Enquanto Dória permanecer na prefeitura de São Paulo e não deslizar seus tentáculos para maiores poderes, podemos chamá-lo apenas de farsa, até para que a má graduação dos políticos seja justa e não use sempre um nome ou adjetivo só para todos. Mas quem impedirá que o político empreendedor se torne uma tragédia? Dória vende ilusões. Há quem compre.

***

NOTAS

1. Quase só cito a Folha porque é o jornal que assino e leio geralmente. Se precisar acompanhar com frequência outros jornais, não terei tempo de ler livros. Um jornal principal e outros pontuais bastam e já fazem minha programação de leituras atrasar. Quando estou imersa e nadando em um livro instigante, estabeleço uma temporada sem jornais para não haver desvios. Sugiro que façam o mesmo com internet, séries e companhias ruins para que terminem os livros que começam. 

2. Um dia depois de meu namorado ter me contado a história da senhora de Santos que foi indevidamente multada, recebemos uma notificação em casa: num horário em que nosso carro estava estacionado no aeroporto de Guarulhos e sobrevoávamos o Atlântico de volta ao Brasil após um mês na Europa, o departamento de trânsito municipal afirma que estávamos fazendo uma “conversão proibida” próximo ao Capão Redondo. A menos que a física quântica explique como estávamos em dois lugares ao mesmo tempo, vamos recorrer. 

3. Dória, que tem pavor do Lula – qualquer menção ao seu nome em entrevista faz Dória surtar em impropérios, procurem e verifiquem –, às vezes parece ressaltar tanto sua abstemia justamente para se contrapor ao outro, que era bom de copo. Sempre considerei injusta a “acusação” de Lula ser um beberrão. Ora, bebia em serviço? Fazia fiasco? Diante das negativas, que mal há em um presidente admitir que gosta de beber e, raios, beber? De cada dez odiadores do Lula, oito o xingam, nos três primeiros insultos, de cachaceiro. É “ladrão, canalha e cachaceiro!” ou “cachaceiro, pilantra e analfabeto!”. Abstemia não é um valor. Abstemia só é um valor para quem tem problemas com o álcool. E gostar de beber nas horas livres e não incomodar ninguém não é ter problemas com o álcool. 

4. Dória e Collor têm mais coisas em comum do que terem se apresentado como “o novo” e serem bons falantes. Os dois também gostam de Romero Britto. Na famosa entrevista concedida a Sonia Bridi – o ex-presidente é um rebatedor interessantíssimo que já entrou para minha lista de “reprováveis que vale a pena acompanhar o que dizem, porque a forma como dizem é curiosa”, junto a Gilmar Mendes e Frank Underwood –, Collor tem um artesanato de Romero atrás de si. Isso prova que dinheiro não traz consigo bom gosto. 

5. Bolsonaro, que aniversaria comigo e com Ayrton Senna – essa tríade de temperamentais faz com que uma nanopulga permaneça atrás da minha orelha a respeito da astrologia –, é desvairado, mas tem uma qualidade: todos sabem quem ele é. Para que se saiba mais sobre o que ele pensa a respeito de coisas e pessoas, talvez só colocando suas vísceras para fora. Não há surpresa, não há encenação, não há joguinhos. Nem eu nem você votaremos nele justamente porque sua autenticidade nos permite conhecer o que opina sobre a ditadura militar, os direitos humanos, o ensino público. Não corremos risco de votar errado ao não votar nele. Com tantos outros farsantes, o mesmo não acontece. Eu, por exemplo, já votei no Serra no segundo turno.