sexta-feira, 26 de maio de 2017

Deixar de comprar é um ato político


Eu defendo isso há anos, mas não custa repetir, já que o mundo parece tomado por surdos voluntários: no capitalismo quem manda é o consumidor, e o consumidor consciente das suas convicções deve usar o boicote comercial como ato político. Sim, há esquerdistas fanfarrões que criticam "as grandes empresas", mas estão esperando, estatólatras, por um decreto para sair da tagarelice e partir para a ação. Enquanto isso, seguem financiando McDonald's, Coca Cola e tantas outras gigantes que eles só criticam em abstrato. Seus discursos e postagens no Facebook são uma farsa comodista. É sempre fácil ser ativista quando não é necessário mudar o conforto do cotidiano para tentar coerência.

Fernando Henrique Cardoso comprou a possibilidade de reeleição no Congresso. Mas quem o reelegeu? O voto popular. O PT foi fundo na estratégia de financiar empresários com dinheiro público para criar "campeões nacionais". Mas quem foi muitas vezes responsável pela perpetuação desses escolhidos no mercado? O consumidor. Nem na pequena responsabilidade que tem o populacho é capaz de fazer diferente. Culpa governos e conchavos pelos males que o aflige, mas não consegue ir ali na urna e votar em alguém que não trate a própria campanha como produção cinematográfica (se geralmente vence o pleito quem faz os melhores filmes, já sabemos que o que vale não é o projeto de governo: basta olhar para o Dória para entender o valor da publicidade acima de qualquer realidade), e não consegue deixar de comprar produtos da Unilever em prol de pequenos empreendedores que não pretendem dominar o mundo. É muita cara de pau alguém criticar oligarquias e oligopólios enquanto paga pela permanência deles.

Nem sempre foi agradável boicotar os braços da JBS que estavam ao meu alcance. Eu não me incomodava por não comprar Friboi, Seara, Vigor, Danúbio porque todas essas marcas estavam riscadas da minha lista de "quem merece o meu dinheiro" há muito tempo. Mas então a JBS comprou as Havaianas. E tive que parar de comprar Havaianas. A JBS comprou a Mizuno. Tive que parar de comprar Mizuno. A JBS comprou a Melissa. E eu tive que deixar para lá a ideia de comprar uma sandália que tinha em vista. A JBS estava comprando tudo que eu gostava, mas eu precisava ter coerência no que me era permitido fazer. Não posso controlar o que um governo que não recebeu meu voto faz com meus impostos, mas posso deixar de comprar produtos que enriquecerão ainda mais seus proclamados vencedores. E, bem, eu não tenho interesse nenhum em, sem necessidade, ajudar na impulsão de quem explora animais e se hospeda em hotéis em NY com diárias de 52 mil reais. Também nunca me faria bem à consciência apoiar produtos de uma empresa que descaradamente comprava políticos. No âmbito da corrupção que mancha o meu país como traço cultural, se não sou parte da solução sou parte do problema. Não admito para mim um comportamento de Pôncio Pilatos. 

É revoltante o manso acordo de delação que a PGR assinou com Joesley Batista. Faz Marcelo Odebrecht parecer um injustiçado. Cria, também, um novo parâmetro: muitos que decidirem delatar daqui para frente quererão um acordo nos mesmos moldes ou em moldes parecidos com o do criminoso que não irá preso, "só delato se meu acordo for como o dos irmãos JBS". Mas a única coisa que me é possível fazer além de criticar com força a palhaçada política, jurídica, educacional que é esse país onde há terreno para um acordo desses é deixar de comprar. Não é com o meu dinheiro que Joesley, safadão porque se safa, vai manter seu império e as mordomias de sua chatíssima esposa. 

Convido o leitor, hoje, a ser congruente em suas palavras e atos. Convido o leitor a deixar de "lavar suas mãos". Torna-te responsável por aquilo que compras

NOTA: escrevo pouco porque estou de férias, viajando. Volto em junho.