domingo, 2 de abril de 2017

Mente vazia, oficina do diabo; ou Por que o tédio cria pautas delirantes


Se tivesse que descrever este século em uma palavra, ela seria: delírio. Foquemos no Ocidente: é no Ocidente que eu vivo, é do Ocidente que eu sei e são os problemas ocidentais que costumam me preocupar mais amiúde. Não vou me manter o ano inteiro calada sobre a África para somente falar dela e das questões tenebrosas que muitos de seus países vivem – problemas que a Acadêmicos do Tatuapé e o movimento de mentalidade coletiva “África Linda” parecem desconhecer – quando algum colega manifestar seu horror por atentados que afetam “gente branca do Ocidente”. Estou explicando tudo isso para que não se levantem para expressar que “isso que você está falando não se aplica ao Oriente Médio”, como se meus pontos tivessem que ser como o imperativo categórico e ter abrangência universal. Defini, mal e humanamente, um determinado espaço sobre o qual expressar uma opinião. Já espanto por um momentinho quem merecia ter osso na língua. 

Machismo existe. Mas o Ocidente nunca foi tão pouco machista quanto hoje. Os esforços feministas não se voltam somente ao que resta de machismo, mas a uma fantasia de mentes desocupadas que passam à doença da paranoia: tudo é machismo. Se tudo é machismo, nada é machismo, e a existência deveria seguir como se navegássemos numa fluida maionese relativista – isso aí que aconteceu com você pode ser machismo, pode não ser, siga. Não é a experiência que vivemos, todavia. Impedida de seguir porque cada microagressão merece celeuma, a feminista padrão fará, diariamente, inúmeras paradas em sua jornada para apontar vestígios de violência masculina. É caso clínico: o paranoico não consegue ser feliz. Livre como é e filha da geração menos machista que já existiu, a feminista da terceira onda, que criou um efeito – sua fúria – e agora precisa encontrar as causas para seu novo entretenimento “político”, manterá uma cartilha. A cartilha da mulher revoltada entediada do século XXI: 

1. Nada melhor para afastar o tédio do que uma adversidade, que pode ser um câncer ou uma revolta. Na falta de um câncer por enquanto, revolte-se. O primeiro passo para um bom processo de revolta é buscar um inimigo específico. O problema é ele. Seu problema é ele. Se as coisas dão errado, é por causa dele. Esse inimigo é o homem. Aprenda com as grandes figuras que arrastaram multidões: muitas delas tinham um inimigo específico a combater. O povo quer objetividade, quer o nome dos bois, sejam os bois os judeus, os burgueses, os kulaks, os brancos, os negros, os norte-americanos ou os homens. A partir disso, você arranjou uma ocupação. Sua vida vai passar a fazer mais sentido com esse engajamento. Isso sem esquecer de mencionar que é sempre reconfortante para a carência participar de um grupinho. 

2. Se o inimigo fizer contra você ou contra outra mulher qualquer coisa desagradável, exponha-o em sua condição de inimigo. Não proceda ao pensamento lógico do “e alguém do meu lado poderia fazer o mesmo?” ou do “isso é mesmo machista ou apenas humano?” quando o inimigo te interrompe numa reunião, diz que você fica melhor de cabelo comprido ou pede seu telefone e não liga. Empatia é poupar a mulher e massacrar o inimigo quando eles procedem da mesmíssima forma. Um movimento não é nada sem corporativismo. 

3. Mulheres que falham ao expor condutas típicas do inimigo devem ser vítimas de pena, não de ódio, porque não é culpa delas que suas ações tenham sido moldadas por uma sociedade patriarcal. Se uma mulher errar, a culpa é do inimigo também, porque a mulher que erra teve seu arbítrio sequestrado pelo espírito social machista. 

4. Não junte energia para destruir somente o monstro real, como a violência doméstica e o clitóris mutilado. Afinal, você não apanha do seu namorado e seus pais nunca cogitaram arrancar seu clitóris. Se você se ativer somente a esses tópicos, a pauta do movimento ficará enxuta, sem graça e não haverá motivação. Veja, as pessoas gostam de lutar por causas que as atinjam diretamente. Que interesse a universitária classe média terá no feminismo se ele só disser respeito a coisas que não a atingem? Crie demônios. Fale para essa universitária que aquele rapaz que a seduziu numa festa e diante de uma negativa provocou com “então vou ali no banheiro bater uma pensando em você” é machista e precisa ser contestado. Forje estatísticas, como aquela que assegura que mulheres ganham 30% menos que homens, e extrapole pesquisas, colocando “agressão verbal” no grande balaio da “agressão” e insinuando que esse é um problema feminista em vez de ser um problema comportamental sobre agressores verbais de modo geral. 

5. Critique a sexualização exagerada da mulher. Critique a exposição de nudez sedutora na Playboy. Critique as posições que heroínas padronizadas fazem em quadrinhos e filmes, numa clara analogia sexual e vontade de ser desejada. Depois disso, publique suas próprias fotos seminua, com bumbum empinado, seios à mostra abaixo de um batom vermelhíssimo borrado. Se alguém perguntar se isso que você faz também não é um tipo de esperança de aprovação sexual, diga que está “empoderando sexualmente belezas diferentes”. Não tenha medo da contradição. Não tenha medo de parecer que você só criticava a exposição de outras mulheres porque esse doutrinamento sexual impedia que você fosse o tipo de mulher desejada. Não tenha medo de parecer invejosa. 

6. Muitas de nós, feministas da terceira onda, entramos para o movimento após problemas pequenos com homens: eles não compareciam, não se interessavam por nós, deixaram-nos por outra, faziam-nos de trouxa. O feminismo foi nosso divã terapêutico, foi a almofada que amorteceu nossa queda. Aproveite para aliciar outras mulheres com esse perfil.

7. Por outro lado, não podemos montar um movimento que seja conhecido como clube das fracassadas ou das feias. Por isso, atente: a bonita, a padrão, a que está feliz no casamento precisam descobrir que vivem num mundo muito machista. O inimigo vai ficar louco quando souber que as belas que ele explorava até pouco tempo agora estão politizadas e indisponíveis. Toda mulher precisa de feminismo porque toda mulher é vítima de machismo. 

8. Você tem a liberdade de continuar se torturando para ficar bonita. Caso questionem seu ritual e seu salto altíssimo, responda: “eu me produzo para mim mesma”. Se o engraçadinho retrucar com um “então você deve ficar assim dentro de casa também”, aponte o machismo da fala e diga “eu é que não vou bater palma para homem dançar”.

9. Não há espaço para a desocupação quando você adentra esse movimento, porque na falta de buracos para tapar nós mesmas cavamos a terra e depois repomos o que for necessário. Os publicitários não falam tanto sobre “criar a demanda por um produto”? Nós criamos demandas por problemas. É por isso que em países tidos como “os mais igualitários do mundo”, como a Noruega e a Suécia, há feminismo combatendo o patriarcado local todos os dias. Um problema conhecido que o feminismo de lá criou para combater? Homens que urinam em pé. Ora, se mulheres não podem urinar em pé, por que homens fazem isso? É um tipo de humilhação. Outro: homens sem camisa. Enquanto mulheres não puderem andar sem camisa, #freethenipple, homens não devem poder. Se alguém disser que “mulheres de busto pelado não são a mesma coisa que homens de busto pelado assim como tocar no busto de um homem não gera nada mas tocar no busto de uma mulher é assédio”, aponte o machismo da fala. Não somos obrigadas a ter respostas coerentes para tudo. Se não souber desclassificar o argumento do adversário, desclassifique o adversário. A menos que seja uma mulher. Só desclassifique uma mulher se você for negra e ela for branca.

10. É uma pena que nem metade das mulheres é engajada. Como falar e lutar por elas se somos poucas no movimento? Fazendo muito barulho, um barulho tão grande que faça meia dúzia parecer oitenta. Obrigando, pelo aviltamento, colunistas, jornalistas e artistas a pedirem perdão quando disserem coisas que não se aplicam a nossa visão de mundo. Vamos gritar, vamos nos reunir para depreciar uma figura pública ou página por micromotivos. Há machismo em tudo. Quem não vê precisa de uma troca de lentes.

11. E lembre-se: quem não dramatiza não coopta. É preciso fazer com que as mulheres se sintam numa Idade Média no que diz respeito a direitos. 

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Nunca consegui respeitar os entediados. Considero o tédio uma forma de desrespeito com a vida. Se eu pudesse, compraria o tempo das pessoas – há tantos entediados acumuladores de dinheiro sob o colchão que o preço por hora seria, suspeito, barato – porque não há vida que chegue para que eu possa conhecer tudo o que me excita. Acho que é pelo mesmo motivo que nunca tive paciência para depressivos, já que em muitos casos a depressão é apenas uma extensão ou fase avançada do tédio, um “aprimoramento” de quem não conseguiu se interessar por muitos assuntos num universo com milhões de possibilidades. Mas fico em dúvida se desprezo mais os entediados perenes ou os entediados que criaram sarna para se coçar visando à fuga de uma vida vazia. Esse é o caso do movimento feminista moderno. Parte da gritaria começou nos EUA. Mesmo os autoproclamados maiores esquerdistas acabam, sem perceber, importando pautas americanas a cada temporada. O feminismo ocidental deixou de ser sobre direitos reprodutivos, violência doméstica e imposição comportamental de gênero para passar a versar sobre o euzinho de cada mulher que gostaria de mais visibilidade. Práticas que podiam ser erradas no âmbito comum – você de qualquer sexo impedir seu interlocutor de terminar uma sentença porque acha que o que tem para falar é melhor e mais importante – se tornaram erradas na guerra contra o machismo. O que era problema de todos se tornou um problema feminista, piorado e amesquinhado. No clube onde meninos não entram, as reuniões são sobre detalhes, minúcias, tons de fala e interpretação de entrelinhas. Poderia ser o clube do bordado psicanalítico, mas não é assim gracioso porque gera mal-estar e ódio despropositado. Na geração mais calma que o lado de cá deste planeta já viu, pautas revoltosas apareceram para espantar o tédio de não se ter mais que fugir de predadores, escapar de assassinos, procurar o que comer e remoer guerras entre nações. Nunca as mulheres tiveram tanta liberdade e nunca as mulheres reivindicaram tanta liberdade e denunciaram tanta opressão sobre si. O feminismo não é sobre mulheres sofredoras, mas sobre todas as mulheres, mesmo as mais privilegiadas, que se consideram vítimas de machismo. A importância da causa se dilui quando ela deixa de ser sobre quem necessita para atender a todas, já que todas se pensam necessitadas. O entediado é desrespeitoso com a vida. O entediado que procura sarna para se coçar é desrespeitoso com quem de fato sofre de sarna. 

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Mas os movimentos delirantes brotados do tédio não se encerram no feminismo. Quem acompanha as barbaridades que o movimento negro anda dizendo e defendendo sabe quão longe pode ir a vontade de arranjar um bode expiatório para encher de culpa e combater. 

Racismo existe. E é claro que não aparece só pela autodeclaração “sou racista”. Há, inclusive, o racismo bem-intencionado, que na minha opinião não deixa de ser racismo só porque está no inconsciente, mas não merece linchamento como a Ku Klux Klan, pois tudo na vida precisa de avaliação graduada. Gisele Bündchen publicou uma foto meditativa com a cabeça encostada na cabeça de uma modelo negra (desconheço o nome). A legenda: “é hora de acabar com todas as formas de discriminação”. Nessa hora me lembrei de uma cena excelente do filme Jackie Brown (1997), do Tarantino, em que Ordell (Samuel L. Jackson), negro, vai ao escritório de Max (Robert Forster), branco, vê uma foto na parede em que Max está abraçado simpaticamente a um negão e pergunta, sardonicamente: “aposto que foi você que sugeriu que tirassem essa foto, huh?”. Porque é lindo mostrar que não se é racista, é lindo o fetiche de aparecer numa foto abraçado a um negro. Negro é o novo Mickey: todo mundo quer abraçar e tirar foto com ele para mostrar aos outros. Estamos no meio de uma campanha abolicionista para Gisele fazer uma foto com uma legenda dessas? Não estamos. Então a legenda é patética e é o que qualquer negro pode chamar de “branquice”. Não sei muito bem, ao mesmo tempo, qual é a nobreza real de você pedir para tirar uma foto com uma pessoa de que goste e na legenda ressaltar a vulnerabilidade dela diante da sociedade. Você chamaria para uma foto seu colega de trabalho que usa cadeira de rodas por causa de uma deficiência nas pernas e depois colocaria na legenda “vamos respeitar pessoas com deficiência”? Que situação tola para você e que situação vexatória para seu colega. Se peço para minha mãe, negra, uma foto dessas e depois escrevo na legenda o mesmo que Gisele, só vejo dois cenários de reação: bronca ou desapontamento. Não porque minha mãe seja uma ativista (nunca participou de movimento nenhum, aliás), mas porque ela entende como soa uma frase afetada dessas. Soa como “eu sendo bacana com esse coitado aqui, ó”, soa como propaganda política. Nossa relação é natural; passei a infância vendo minha mãe defender a expressão “preta”, comprar bonecas pretas para mim e corrigir qualquer um que chamasse um preto de “moreno”. Não tenho que usá-la para posar de defensora dos negros ou plural à United Colors of Benetton. 

Existe racismo quando negros são pagos para fazer papéis costumeiramente atribuídos a negros. É fácil um negro ser chamado para fazer papel de escravo num dos inúmeros filmes sobre escravidão feitos nos EUA ou ser escalado para uma película sobre pobreza. Novidade seria um negro no papel principal de um filme do Nolan, do Scorsese ou interpretando um herói – um personagem que não esteja obrigatoriamente vinculado à cor de sua pele. Novidade foi quando Will Smith começou a protagonizar filmes em que sua cor, naturalizada, não foi mencionada na trama. Com isso não estou defendendo o apelo “Oscar's so white”, que gerou dúvida sobre os premiados deste ano: foram premiados porque os avaliadores consideraram que mereceram de fato a estatueta ou porque tiveram medo de uma nova onda de boicote ao Oscar depois da reivindicação do ano anterior? Não é uma baita coincidência que no ano seguinte ao apelo metade dos atores vencedores fossem negros e que o filme premiado seja uma história cheia de personagens negros? É o tipo de pulga que ficará atrás da orelha de quem solicitou cotas em premiações cinematográficas. 

Também é prova de racismo, mesmo que inconsciente, quando alguém que dirige uma publicidade com pessoas pede para que arranjem um negro em nome da pluralidade da propaganda. Se a negritude estivesse naturalizada, você poderia encontrar comerciais com cinco pessoas brancas escolhidas aleatoriamente e outro comercial somente com pessoas negras, ou com três pessoas negras e duas brancas. Não, o padrão dos comerciais é: muita gente branca, algum negro, se der algum oriental. Ou família negra, como é comum em comerciais vinculados ao governo, empresas públicas, etc. Em suma: enquanto você tiver que se esforçar para colocar um negro na sua produção, enquanto você tiver que teorizar a frase “precisamos de negros aqui para pluralizar”, estamos diante de um sintoma de uma sociedade racista que ainda não naturalizou essa cor de pele. 

Naturalizemos, eu digo. A voz delirante do movimento negro diz “segreguemos”. Anos de miscigenação nas principais regiões do país, anos de ouvido de penico nas regiões afastadas com imigração branca preconceituosa e agora o movimento negro quer ser como esses colonos: “segreguem, criemos nossa cultura particular bem delimitada, separemo-nos dos brancos, miscigenação uma ova”. Não basta que esses teóricos do absurdo, que devem execrar Mandela e o demasiadamente bonzinho Martin Luther King Jr., queiram determinar com quem negros devem casar, o que devem comer, livros de quem devem ler, que tipo de tratamento reservar a um branco: agora é necessário criar uma cultura negra arrogante que decide quem entra e quem não entra no círculo dos ornamentos. O caso “turbante na cabeça de uma branca com câncer” foi o ápice da presunção. As culturas são intercambiáveis desde sempre – religiões se copiam, alimentos daqui permutam com os de lá, indumentárias evoluem baseadas no que se viu nas vestes do vizinho, idiomas se cruzam, pessoas de diferentes culturas se cruzam –, mas o movimento negro decidiu que o turbante é dos negros. Há povos negros na África que não usam turbante: se sua ascendência for desse povo e você usar turbante, está praticando apropriação cultural? Há povos não-negros que usam turbante. O turbante é adereço de inúmeras culturas não-negras há séculos. Que birra é essa que faz com que negros no Brasil pensem que têm o direito de apontar alguém na rua e dizer que essa pessoa não pode usar um pano na cabeça por causa da cor de pele dela? Esse revanchismo que imita estratégias passadas de brancos que discriminavam negros – apropriação de uma cultura discriminatória? – só pode ser chamado de retrocesso. “Mas teve o texto da Eliane Brum...” Sim, um texto que não apela à lógica, mas ao sentimentalismo, com ar de professora querida que explica à criança raivosa por que ela está errada e precisa se acalmar e entender que os negros foram explorados e agora têm adereços que representam sua identidade. Um texto de quem se sente culpada por ser branca e admite que tudo que pode fazer para se redimir pelos crimes que não cometeu – pior do que negros culparem brancos de hoje pela escravidão é brancos de hoje se sentirem responsáveis pela escravidão – é “ouvir o que as negras têm a dizer”. Estamos ouvindo. Temos que acatar? Por que eu deveria tratar esse item em particular como sagrado enquanto quase todos os outros adereços das outras culturas permanecem intercambiáveis? Atitudes comigo-ninguém-pode não são razoáveis. Apelo ao sentimento puro e simples não é razoável. Machado de Assis escreveu: “lágrimas não são argumentos”. 

Enquanto isso, no mundo onde “às minorias tudo é permitido e elas criam as regras”, quando negros se “apropriam” de elementos culturais e até biológicos da “cultura branca” há passe livre. Se uma mulher negra alisa e pinta de loiro o próprio cabelo, isso é o quê? Por que a regra de não intercambiar com outros clubinhos não se aplica aqui? “O que é nosso é nosso, mas o que é de vocês também é nosso”? Sejam pelo menos coerentes; ou vocês protegem essa pretensa cultura pura negra de qualquer mácula de opressores ou entram no jogo com todo mundo, sem usar a conversa sobre escravidão como moeda de troca para tudo, como um persistente trauma, como uma insistente apelação. Nem que me esforçasse num banana exercício de alteridade eu conseguiria me emocionar com o texto da Eliane Brum, justamente porque sei que quem teve a audácia de abordar a moça branca de turbante não fez isso por “amor à África”, mas por arrogância, mesquinhez e vaidade. É claro que no mundo dos ornamentos há disputas e risadinhas pelas costas de quem está usando um item “do jeito errado” ou “sem poder”, mas essa postura se restringia à fútil esfera dos cochichos e das lamentáveis rodas de mulher. Agora a coisa é institucionalizada, vira artigo de jornal em defesa e logo vai ser tema de doutorado em uma das dezenas de especializações sobre minorias disponíveis em universidades públicas. Na era do tédio, qualquer firula vira caso. E delírios paranoides de movimentos desenvolvidos para espantar o marasmo são vistos como “convicção de ideias sobre microassuntos”. 

*



Eu me pergunto: se vivêssemos numa época com mais o que fazer, utilizaríamos nosso pouco tempo somente para o essencial? Nessa hipótese, talvez o feminismo se ocupasse em resgatar mulheres que sofrem em vez de almofadar a sala de terapia para mimadas egocêntricas, e talvez o movimento negro tentasse enriquecer seus irmãos na periferia em vez de se preocupar em problematizar o pedaço de pano que Simone de Beauvoir usava em sua cabeça branca. Há sutilezas no mundo, e há disfunções sutis, mas essa sociedade não está sabendo diferenciar sutileza de delírio, problema real de paranoia. Como será viver sob a constante pressão imaginária de um entorno opressor? Como será se sentir num completo desânimo em meio a facilidades e ansiar criar uma realidade paralela onde há centenas de questões que me atingem e precisam ser resolvidas? Rosa Luxemburgo dizia que quem não se mexe não percebe os grilhões que o prendem, mas há pessoas que caminham maratonas para tentar provar que em algum momento seus pés ficarão presos pelos grilhões que acreditam possuir. Perde-se tempo e vigor com questões abstratas sobre si enquanto questões reais sobre os outros oprimem e matam. Culpa de três dos quatro pecados principais deste século: tédio, carência e vaidade (o quarto é a inveja). Pecados que, não é megalomania dizer, explicam quase tudo. É uma pena. Tínhamos tudo para dar certo, mas parece que a tranquilidade enjoa. O diabo faz a festa.