terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O pecado mais cruel e nada divertido - "Inveja", de Joseph Epstein

Costuma-se dizer que o único pecado que ninguém confessa é a inveja. Muita gente nega sentir, o que é mentira. Muita gente finge não estar sentindo, o que talvez seja pior do que entregar a fraqueza de forma franca. E eu não me lembro de ter conhecido qualquer pessoa que admitisse sentir inveja do próximo. Inveja dos ricos e famosos, inveja da blogueira que brinca de Amélie Poulain morando na Bélgica, inveja do estranho que acabou de ganhar na loteria, inveja da modelo holandesa que faz ensaios na Harper's – isso é fácil aceitar, trabalhar e até externar. Mas a inveja daquela pessoa que está logo ali e parece se amar mais do que eu me amo, que parece ter um casamento melhor que o meu, filhos mais educados, vida sexual ativa, que recebeu uma promoção, que recebe o dobro do meu salário, que é mais bonita do que eu, que faz coisas que eu nunca consegui fazer por medo, que tem uma personalidade incrível, que é segura de si e não me dá muita importância – essa inveja ninguém admite. E precisaríamos admitir? Não, porque não existe nenhuma norma social que determine que devamos ser livros escancarados. Já negar a inveja em vez de consertá-la na medida do possível – sendo um tanto biológica e com sentido evolucionário, torna-se mais dificultoso extirpá-la de vez – parece coisa de quem erra duas vezes: erra ao sentir inveja por expor o próprio fracasso para si mesmo e erra ao teatralizar sentimentos. A falsidade é bela e necessária no palco. Na vida cotidiana costuma trazer um tipo de ranço que se denuncia em gargalhadas forçadas, olhares furtivos, falas cheias de meandros competitivos, ironia fora de hora e gestos feios. O invejoso é rico em atos falhos facilmente reconhecíveis por qualquer um que tenha aplicado a psicanálise ao exame dos outros. Que propósito existe nesse tipo de conduta analítica dos subtextos e dos símbolos que nossos pares deitam sobre nós sem perceber? Poupamos tempo, energia e impedimos intimidade com quem não agrega nada. Os únicos que reconhecem invejosos e gostam de tê-los sob louvor são os que vivem à procura de causar inveja. Os dois sujeitos tristes se merecem e dependem um do outro para esse projeto de vida vazia. 

A Oxford University Press estava para lançar uma coleção sobre os sete pecados capitais, sendo cada pecado abordado por um autor diferente. Ao escritor Joseph Epstein restaram ira, preguiça, luxúria e inveja para escolher. Ele escolheu a inveja, que é um dos pecados mais delicados, e, segundo ele, o único que não tem lado engraçado. Descobri esse livrinho por meio de uma coluna do João Pereira Coutinho na Folha – se suas opiniões fossem tão sérias quanto suas recomendações de leitura, seria um colunista perfeito; a coluna de 14/02, por exemplo, me parece apenas mais uma de suas vontades de barbarizar – e logo o comprei. Encanta-me entender todos os pecados e a inveja é, como é para todo mundo, o pecado que mais me causa mal-estar. Obviamente não gosto de sentir inveja. Ao mesmo tempo, não sinto inveja pelos objetos tradicionalmente fonte de inveja para outras pessoas. Mas nos campos em que sinto, sinto. E de fato não há nada de divertido nisso.

Falando sobre a inveja no terreno das ideias mais altas, Epstein cita Kierkegaard, Kant, Nietzsche e, é claro, Schopenhauer. Diz o último que “sentindo-se infelizes, os homens não conseguem suportar a visão de alguém que julguem estar feliz” e “o ódio sempre acompanha a inveja”. Nos cadernos bobos de colegas ginasiais sempre se escreviam frases de tom moralista ao estilo “para meninas”. Uma das mais comuns ressaltava que o verdadeiro amigo não é aquele que está com você para celebrar seus momentos felizes, mas aquele que está lá para enxugar suas lágrimas. Pura abobrinha. A prova maior de uma grande amizade ocorre quando seu amigo vê que você está bem, está melhor que ele, que está alcançando coisas que ele mesmo não alcançou – e está feliz por isso. Não é fácil admirar com honestidade alguém que está ao nosso lado obtendo privilégios que nós não obtemos. As celebridades que são inundadas todos os dias com juras de amor de “eu te admiro e quero ser como você” devem sempre pensar que estão a salvo somente porque estão longe. Se estivessem perto de seus fãs, continuariam causando inveja, mas misturada com ódio. A vizinhança não é ruim apenas porque invade sua privacidade, mas porque torna você “um dos nossos, mas que não é família”, ou seja, alvo do que o Oxford English Dictionary define como “o sentimento de mortificação e má vontade provocado pela contemplação de vantagens superiores possuídas por outrem”. Se seu próximo for invejoso e você estiver melhor que ele, você será tácita e amargamente cozido em uma panelinha de rancor. Se seu próximo for esnobe, idem. E se seu próximo for esnobe e você estiver pior que ele, você será considerado um coitado, um reles. Competições sociais podem atingir níveis muito doentios, e isso não vale só para quem toma medicação, vai ao psiquiatra e é um espalhafato de problemas. As águas paradas que aparecem podem ser profundas. Exceções sobre essa rivalidade são abertas para nossos pais, cônjuges e filhos: quando eles progridem, sentimos que progredimos junto, e a explicação mais coerente para esse fato deve estar associada à biologia. Isso é tão notório que qualquer um que demonstre invejar o próprio filho porque ele conseguiu ir para uma universidade melhor que a sua será visto com estranhamento.

Quando confrontados com um sério revés ou uma desgraça irreversível na vida, sentimo-nos inclinados a fazer uma pergunta óbvia: Por que eu? Mas para a pessoa invejosa, a pergunta, ao ver alguém que teve mais sorte, é: Por que não eu? Por que esta mulher deve ser mais bonita do que eu? Por que este homem é mais rico e mais poderoso? Por que estas pessoas têm talentos e dons naturais que me faltam? Lord Chesterfield declarou que 'as pessoas odeiam aqueles que as fazem sentir a própria inferioridade'. Sem dúvida, isto nos faz perguntar: 'Por que fui deixado de fora? Por que não eu?'

Após esse trecho, Epstein sugere que algumas profissões são mais propensas à inveja do que outras e que o ramo da literatura deve ser o pior. Ele próprio, no pensamento seguinte, diz que isso pode ser um julgamento errado de sua parte, já que é apenas o círculo literário e acadêmico que ele conhece bem. Já trabalhei em lugares variados, conheço pessoas que trabalharam em lugares variados e posso dizer com alguma segurança: mesmo entre as faxineiras do seu prédio pode haver um grau elevado de inveja contaminando relações. Há inveja nos lugares mais estúpidos e entre as pessoas mais estudadas: nenhuma classe ou profissão está imune a ela. Há inveja entre freiras e entre membros de ONGs. Entre pessoas que fazem trabalho voluntário. Entre feministas ativistas. Entre amigos de infância. Há inveja entre amigas que saem juntas para comprar toalhas – “olha a Lúcia esbanjando dinheiro só para ter toalhas de maior qualidade que as minhas; também, com esse emprego fácil de salário imerecido...” –, entre viajantes, entre bebedores de vinho, e no grande roteiro de restaurantes de São Paulo há até competição para ver quem vai aos melhores lugares, resultando num grupo de almas sujas e verruguentas tomadas pelo esnobismo, pela inveja ou, horror dos horrores, por ambos. Atribuem a Sócrates uma bela fala proferida após ver inúmeros itens num mercado: “tantas são as coisas de que não preciso para ser feliz!” Podemos trocar a palavra “coisas” por “companhias” quando frequentamos um desses ambientes.

Na distinção que Epstein faz entre ciúme e inveja no capítulo primeiro, uma frase sua basta: “sente-se ciúme do que se tem e inveja do que as outras pessoas têm”.

A inveja possui uma espécie de amor à justiça, mas de forma macabra. Uma de suas maiores vontades é a de nivelar, mas não pelo alto para que todos sejamos felizes, e sim para que todos sejamos medíocres. Quem se atreve a fugir da felicidade medíocre é visado, e não é à toa que Epstein compara certos anseios comunistas e socialistas a uma vontade invejosa. Nesse ponto, discordo um pouco dele. Sei que muitos esquerdistas só são esquerdistas por inveja – tivemos várias provas disso quando esquerdistas pobres, ao alcançar o poder, passaram a tratar seus iguais como súditos, realizando o que Bakunin previa para a até agora fracassada ditadura do proletariado – e que no fundo eles gostariam de ter o poder e a pompa que seus alvos têm – lembremo-nos das vidas absurdamente luxuosas de Mao, Fidel, Stálin e da dinastia Kim –, mas reduzir toda vontade de justiça a motivação invejosa é perverso. Se o dono de uma indústria enriquece rapidamente enquanto seus funcionários trabalham por salários de miséria, reivindicar melhores condições de pagamento não é “invejoso”. É apenas justo. Claro, nem sempre é fácil distinguir a justiça da pura inveja. Quando uma mulher feia pleiteia “a quebra dos padrões de beleza” para que seus traços possam ser considerados bonitos, às vezes tenho minhas dúvidas se estou diante de uma advogada de uma causa interessante ou de uma invejosa que anseia nivelar todos os modelos para que ela não fique por baixo. Essa hesitação de minha parte surge principalmente quando aquele que requer pede coisas que o beneficiem, como é o caso da vertente narcisista do feminismo. E é por isso que considero o veganismo como uma das causas mais nobres: quando se pleiteia algo para o outro, como poderá a inveja sequestrar essa preocupação? A relação entre veganos uns com os outros é outra história muito diferente. No que concerne a veganos e animais, a inveja some. Para fechar esse ponto sobre sistemas sociais falsamente igualitários, um trechinho muito bom do capítulo oitavo:

E é claro que nenhuma sociedade foi mais cheia de inveja do que a falecida (e nem um pouco lamentada) União Soviética, onde dedurar seus vizinhos devido às suas vantagens fez da inveja um meio de vida e uma forma da ascensão.

No primeiro parágrafo escrevi que o invejoso dá sinais. Não cabe a mim palestrar sobre esses sinais: observem, estudem e aprendam. Confesso que me acho bastante “leitora das mensagens ocultas alheias”, mas só falo a sério sobre isso (a sério = coisas não exatamente inofensivas) com pessoas realmente íntimas. Essas pessoas íntimas não são leitoras de mensagens ocultas. Graça das graças, costumo não gostar de outros arrogados leitores dessas psicopatologias da vida cotidiana (um texto bom de Freud, apesar de considerá-lo exagerado porque ninguém mais pregará os olhos à noite ao tentar se debruçar sobre a questão: “por que José escolheu o número 34 quando pedi que escolhesse aleatoriamente qualquer número até 100?”), pois sempre acho que eles estão lendo errado. Ou entregando seu próprio modus operandi em vez de arreganhar o do outro. Por exemplo, sempre desconfiei das meninas/moças/mulheres/senhoras que chegaram para mim apontando suas análises minuciosas sobre uma outra “que dá em cima dos meninos/moços/homens/senhores”. Essa acusação não costuma vir com um tom encantado como se uma senhorinha de cabelo branco preso num coque tivesse acabado de sair de um campo florido com uma cestinha de palha, olhasse para a prostituta simpática que é sua vizinha e dissesse, com as bochechas rosadas pelo sol e pelo rubor: “dando em cima de todos os homens da vila, hein, Dafne?” A delação costuma ser venenosa. É uma leitura, e é uma leitura que costuma ser venenosa. O que penso? Geralmente penso que quem está acusando é que “dá em cima” – seja rindo mais alto para homens ou se abaixando para pegar um lápis, não sei, mulheres têm formas bem bizarras de seduzir às vezes – e está quase se incriminando como o bom caso da raposa e das uvas. Nessas leituras erradas, uma pessoa má se entrega (a que se finge de dama mas que é a vagabunda para a qual aponta o narizinho) ou põe em maus lençóis uma pessoa boa (quem não conhece uma mulher que era agradável com todos e foi chamada de vagabunda porque o “todos” incluía “homens que estão sendo vigiados por intrometidas que não sossegam o facho"?). Ressalto que isso não é regra: às vezes a analista é mesmo uma dama e está certa em sua leitura sobre as outras, e aí a única questão que fica é se a animação das outras é da conta dela e por que diabos ela se importa tanto. Assim, minhas leituras são um lazer muito pessoal: passá-las por completo pode levar ao equívoco (cadê o juiz para escolher qual é a leitura correta?) e à exposição desnecessária. Nenhum detetive fica revelando seus métodos. Mas Epstein, que é centenas de vezes mais cuidadoso e razoável do que eu, tenta mostrar um tipo de ajuda para o reconhecimento do invejoso:

Um manual para identificar os invejosos seria de grande utilidade. O invejoso muitas vezes lança mão da ironia, a arte de dizer uma coisa, mas querendo dizer outra. Cuidado, também, com o desdém excessivo, mesmo quando usado por si próprio, porque, nas palavras de Paul Valéry, 'a um exame mais cuidadoso descobrimos que o desdém inclui uma pitada de inveja'. A tendência da maioria das pessoas é desdenhar do que não consegue fazer ou ter. O invejoso também tende a elogiar excessivamente. […] Moral da história: observe os olhos de quem se curva mais.

Conselhos simples e práticos para viver num terreno tão pantanoso. Quem não conhece gente que se mascara sob desdém e ironia? Aqui, dou minha opinião mais uma vez. Ironia, aquela ironia que vivo criticando (aquela que digo ser tão comum na fala de professores de história, que no meio de História Contemporânea III devem ter recebido muitas aulas subliminares de ironia para terem saído da faculdade com aquela imensa expressão de pato sabido), não deve se confundir com graça. O debochado, o “palhaço da turma”, não tira sarro da sua cara para te fazer mal. Ele quer ser engraçado, seja falando que suas orelhas são grandes (você achar isso engraçado ou não é outro assunto) ou que você tem um bordão pegajoso. Sua intenção é: ser engraçado. É o Chandler Bing da vida real. Já o irônico não quer ser engraçado, tanto é que ele ri sozinho ou muitas vezes ri acompanhado de sorrisos amarelos constrangidos. O irônico quer provocar, ofender, menosprezar, diminuir. Muitas vezes ele precisa disso para fingir que é superior aos outros (se se achasse mesmo superior, não precisaria fazer esse papel patético de mascarar complexo de inferioridade com ironias que desequilibram o emocional alheio), portanto é digno de pena. A ironia que você deve aceitar como recurso justo é a ironia de um inimigo, porque faz parte do inimigo querer te provocar e diminuir. Se um pretenso amigo ou colega faz isso, algo está muito errado. Afaste-se e limpe os pés antes de entrar em casa.

Que outros conselhos Epstein compila para que reconheçamos um invejoso de meter medo? Não há quase nada mais. Por a inveja ter um grande “talento para o disfarce”, na expressão de Leslie Farber, poucos estudos são feitos sobre o tema. Um desses poucos mostrou que muitas pessoas estão dispostas a ganhar menos dinheiro desde que ganhem mais do que seus colegas: para elas, é preferível ganhar 85 mil por ano se ninguém mais ganhasse acima de 75 mil a ganhar 100 mil num contexto onde todos os outros ganham 125 mil. Se acha que isso parece absurdo, pense bem. É comum que se avalie a própria vida tomando como parâmetro a vida dos outros, e é por isso que muitas vezes o faxineiro com o salário mais alto da equipe pode estar mais feliz que o procurador com o salário mais baixo da classe. Epstein cita uma máxima de Josh Billings: “a melhor situação na vida é não ser tão rico a ponto de ser invejado, nem tão pobre a ponto de ser execrado”.

No capítulo sexto, Malditos jovens, fala-se sobre a inveja da juventude. Vocês devem saber do que se trata, mas vou declarar que considero esta uma das invejas mais injustas e sem sentido. Por quê? Porque o quarentão, cinquentão, sessentão que inveja a juventude de seu colega ou subordinado já teve a sua vez como jovem. E precisa pensar que a tendência é que esse jovem à sua frente terá a oportunidade de ficar velho como ele mesmo ficou. É um ciclo, e não faz sentido invejá-lo: você já esteve no lugar dele, ele um dia estará no seu (não precisa esfregar as mãos maleficamente e sussurrar entredentes “hehe, um dia ele estará no meu lugar”, não é de revanche que estou falando). Quanto ao jovem que com 20 anos já conseguiu o que você só alcançou aos 40, candura. Cada um tem um estilo de vida para conseguir as coisas e essas comparações não vão levar ninguém a lugar algum. Se levarem, será com uma dose muito ruim de hormônios prejudiciais perambulando pelo organismo. Epstein conta uma história engraçada (com a qual me identifico):

Minha inveja só ganhou particularidade quando decidi que queria ser escritor. Isto me pôs imediatamente na situação de invejar outros escritores da minha geração que, da maneira como o mundo media essas coisas, haviam avançado mais rápido do que eu. Com vinte e poucos anos, lembro-me de ter lido, nas notas sobre os colaboradores da Poetry Magazine, que uma mulher com três poemas naquela edição havia nascido dois anos depois de mim, o que foi suficiente para me estragar o dia – e eu nem tinha intenção de escrever poesia. Saber que pessoas da minha idade ou ainda mais jovens já haviam escrito livros, alguns até bons, era mais do que perturbador. Eu não queria exatamente que morressem, mas, diante da falta de cortesia por não terem esperado que minhas realizações fossem reconhecidas primeiro, eu queria que, de algum modo, fossem impedidas de escrever. A moral desta historieta, acredito, é que é difícil ser ambicioso sem também sentir inveja.

Essa confissão me lembra algo que aconteceu comigo há muitos anos (leia-se há mais de sete anos). Um amigo e eu pensamos em escrever romances para participar de um concurso literário. Éramos totalmente pretensiosos para achar que de primeira e em dois meses poderíamos escrever algo que prestasse e merecesse prêmios, mas juventude é isso: você acha que sabe tudo e que é um Rimbaud escondido. Começamos a escrever. Quando eu não estava nem com uma trama engatada, esse amigo me envia várias páginas da sua história. Fiquei preocupada. “Eu é que escrevo, eu é que leio Sartre desde os 15, e ele me passa na frente?” Desgostosa e com cara de grumpy cat, fui ler o que ele tinha escrito. Li. Terminei e pensei: “Graças a deus é ruim”. Fiquei feliz por ver que meu amigo não me deixaria para trás num ramo que eu acreditava ser o meu. Para que ele não se sinta humilhado sozinho nessa confissão, o que eu escrevi depois também era bastante ruim. Na época achei que era uma nova Pirandello transportando o conflito entre personagens e autor do palco para a prosa, mas hoje sei que aquilo era apenas o fruto de uma presunção. Ademais, no estilo dei uma de Clarice Lispector e escrevi o que vinha na telha. Não tinha como ser bom, como prova o resultado lá-lá-lá-escrevo-o-que-penso-e-não-retoco do trabalho dela, cujos livros não consigo ler por mais de vinte páginas.

Inveja, de Joseph Epstein, trata ainda do feminismo, do asco aos judeus, das diferentes coisas que homens e mulheres invejam e do famoso Schadenfreude, que é o sentimento de prazer que se sente com o fracasso ou a derrota de outras pessoas. Com 137 páginas de texto num formato pequeno, é um bom livrinho para ler numa tarde calma. Já encomendei, aliás, os livros equivalentes aos outros seis pecados. Finalizo minha seleção com um trecho bonito que está na última página. Gosto muito quando Epstein cita a palavra “auto-análise”, porque isso nos remete à responsabilidade que deveríamos ter conosco e se perdeu num tempo de psicólogos, psiquiatras e médicos para qualquer “desvio” absolutamente humano. Deve ser culpa da era da terceirização, onde até a resolução de emoções simples e trabalháveis são tarefa para outros fazerem por nós. Eis o trecho:

Seja lá o que for, a inveja é, acima de tudo, um grande desperdício de energia mental. Embora não se possa provar que a inveja faça ou não parte da natureza humana, o que se pode provar, acredito, é que quando desencadeada, ela tende a degradar a pessoa de quem se apossa. Sempre que a inveja entra em cena, o julgamento torna-se mais grosseiro e vulgar. Como quer que a mente funcione, a inveja, sabemos, é um de seus excessos, e como tal é preciso identificá-la e combatê-la pelo único meio à nossa disposição: a honestidade consigo mesmo, a auto-análise e um julgamento equilibrado.
 
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Inveja (Coleção sete pecados capitais) – Joseph Epstein, Editora ARX. A coleção está disponível na loja virtual da Saraiva, exceto o exemplar dedicado à preguiça, que só pode ser encontrado na Estante Virtual.