sábado, 30 de dezembro de 2017

A fogueira das vaidades da terceira onda feminista



Existe um teste que as feministas da terceira onda usam para tentar cooptar mais membros para o Clube das Mulheres Oprimidas, um espaço social onde a música ambiente é o falatório incessante, o traje a rigor é a irracionalidade (venha pelada, mas não venha sem o manto simbólico da falta de bom senso), o ponche de achismo é servido aos baldes e o cenário é algo que um antropólogo de Marte apontaria como “a vontade de rebanho da espécie humana manifestada da forma mais desesperada”. O teste é de apenas uma pergunta: “você é a favor da igualdade entre homens e mulheres?”. Se você responde que sim, dizem “está vendo?, você é feminista”. Claro. Só que ninguém faz a advertência para que tipo de feminismo as avaliadoras defendem. 

A terceira onda do feminismo é uma maré doentia, e os ingredientes da sopa primordial são carência, complexo de inferioridade e ignorância voluntária. O que se manifesta desse caldo é um desejo de aplauso (“lacração”, busca de apoio feminil, “deixa que eu desconstruo as coisas”), um narcisismo expressado aos berros de “Extra! Extra!” e uma repulsa ao conhecimento sóbrio e ao contraponto. 

Desejo de aplauso constante é carência: sem público, a feminista se deprime, e é na perseguição da aceitação que se adotam posições radicais, extremas, e a “problematização” do todo. A moderação dificilmente atrai seguidores, então é preciso inovar, e a glória de se sentir amada pelo coletivo virá quando uma bobagem for descamada como uma cebola e alguém, com fome de gurus e discursos, disser: “você sabe que eu nunca tinha visto isso dessa forma? Obrigada, deusa”. 

Narcisismo expressado aos berros é complexo de inferioridade. O genuíno narciso, raríssimo, se basta: ele sabe que é melhor, que é bonito, que impera, e não dá a mínima para a opinião alheia. Ele não diz aos ventos a cada instante “eu não dou a mínima para a opinião alheia”, entenda-se. Ele simplesmente não dá a mínima. Já o narciso fajuto precisa se vender justamente porque é muito inseguro, ele necessita que os outros o amem para que ele se ame. Seu encontro consigo mesmo não se dá na solidão da olhada no espelho ou no reflexo do rio, mas na fotografia viralizada dele se olhando no espelho ou no reflexo do rio: não é “eu me amo” seu lema, mas “vejam como eu me amo” – completamente diferente, pois depende de público. O narciso fajuto quer que os olhos dos outros sejam rios onde ele vai ler que é bonito, que tem valor. Este ano uma feminista negra, “filósofa”, disse pela centésima vez que era linda e sábia. Uma feminista morena, “socialista”, disse que a achava feia. A “filósofa” tentou se blindar do choque de o rio ter cuspido em sua cara aquilo que a perturba lá no fundinho, aquilo que a faz choramingar quando os espelhos nos olhos dos outros dormitam: usou ironia, convocou o bloco monolítico (veio trotando em sincronia), jogou a carta da angústia travestida de superioridade e afirmou, num surto de megalomania e despreparo com números, que 180 milhões de brasileiros a amam. Era de sentir pena tanta demonstração de desespero. Quando alguém faz dessas no pronto-socorro de um hospital, logo o enfermeiro aparece para acalmar o surtado e tirá-lo de cena colocando um casaquinho nos ombros dele. Numa reunião de família, vão enrolá-lo num cobertor e recomendar “venha, vamos dormir, já passou da hora de tomar seus remédios”. Na internet o surtado provoca uma epidemia em vez de a plateia entender que precisava de ajuda. A diferença entre o narciso real e o falseado é a diferença entre o tomate e o Nescau no supermercado: o tomate, boníssimo, está nu e despreocupado, porque não precisa se afirmar com nada, não precisa de um pacote de autoelogios; lá no outro corredor o Nescau, que é ruim, trabalha uma ilusão em seu exterior e sente a urgência de se atestar como vitaminado, gostoso, nutritivo, mágico. 

Repulsa ao conhecimento sóbrio e ao contraponto é ignorância voluntária: as professoras de feminismo “se doutoraram na vida” e não estão dispostas a aprender. Mas fingem absorção humilde quando ouvem alguém defender aquilo que elas já pensavam ou quando vão a oficinas como “Radicalize-se: (des)dobre o origami da opressão e descubra o cerne das relações de micropoder”. (Parênteses no meio das palavras costumam ser péssimo sinal; mas sinal dos tempos de fato será quando usarem colchetes e chaves.) Não são refutados argumentos, mas pessoas, e é em nome do ódio ao contraponto que se apela para a guerra das vaidades. A ciência é negada: bom mesmo é estatística feita com método errado – eu ia escrever “duvidoso”, mas não gosto de eufemismos –, astrologia (quando uma feminista é ateia e fã da determinação dos astros, já se sabe: não é ateia por motivo racional e científico, mas porque Deus e a religião representam poder, patriarcado, etc.) e “vivência”. Vivência: mas quem vive o mesmo e conclui o oposto só pode estar fazendo uma leitura errada de mundo. 

“O feminismo é importante para nós porque é necessário para mim” deveria ser a síntese do que esse movimento representa hoje. Não é prioritariamente sobre mulheres que sofrem, é sobre a vaidade das mulheres que alegam sofrer. E nisso se assemelha tanto a toda futilidade que diz combater nos homens. Padrão de beleza, por exemplo. Há feministas que “querem porque querem” ser consideradas bonitas em casca, mesmo que sejam desproporcionais, assimétricas e paquidérmicas. Pensam, com isso, que estão dando um banho de “desconstrução”, só que na verdade estão dançando a mesma música que os homens adoradores de padrões de beleza colocam para tocar. Por que em vez de “todas são bonitas” não se batalha pelo “beleza física nem sempre é importante”? Vaidade, simplesmente. Eu me nego a chamar de bonitas pessoas que considero feias de maneira acachapante. Nem por isso estou desmerecendo quem quer que seja, porque, na minha concepção, beleza não é fundamental – se pudesse escolher, teria ao meu redor gente inteligente, higiênica e aberta ao humor, não gente bonita que não sabe fazer nada. Agora vejamos sobre esse tema a alienação feminista em passos: 

1. O dito patriarcado determina que beleza é fundamental.

2. O feminismo da terceira onda compra essa ideia e corrobora: beleza é fundamental. (Não me lembro de as outras ondas terem reivindicado “somos todas lindas”; acho que aquelas ondas eram mais envolvidas com a questão política do que com a questão trivial e coitadinha da bruxa moderna que não aguenta ver o espelho dizendo que a Branca de Neve tem traços mais harmoniosos.)

3. Patriarcado e feminismo estabelecem uma parceria, um consenso: beleza é fundamental.

4. Se a beleza é fundamental e precisamos combater a sociedade de classes (porque a luta se manifesta mesmo no quesito estético, e a estética é parte do motor da história), nada mais justo do que estimular essa grande osmose que vai diluir as belezas, balanceá-las e permitir que todas as mulheres sejam bonitas.

5. Que conversa é essa de mérito? Não há mais bela e menos bela, todas as mulheres são belas.

É até contraditório que se busque tanto uma aprovação de beleza enquanto se condenam figuras de beleza. “Não chamo minha filha de princesa”, diz uma para logo depois declarar que o adjetivo “linda” é moeda corrente na educação da criança – como se isso fosse essencial, virtuoso. Não adianta berrar, não adianta tatuar, não adianta pregar para as convertidas que vocês são lindas se vocês não são. O esquerdismo tem dessas: não aguenta ver que alguém se destaca, é preciso mediocrizar, nivelar tudo. 

Uma cantora feia (de maneira indubitável) aparece. Canta bem. O “patriarcado” grita que ela é feia. O feminismo, que não quer fazer autocrítica estrutural e por isso permanece numa estúpida dicotomia com o propalado inimigo, diz que a cantora é bonita e que “precisamos falar sobre belezas diferentes”. O que deveria se retrucar é: por que uma mulher que vai cantar precisa ser bonita? Ela não deveria apenas saber cantar? Quando uma cantora precisa ser bonita? Exatamente, quando não sabe cantar. 

Existem pessoas sem dúvida feias, pessoas sem dúvida bonitas, e belezas relativas. Desde criança me incomodo com as perguntas sobre a beleza daqueles para os quais manifestamos interesse apaixonado ou amoroso. (Chamo isso de criança visionária, enquanto vocês todos sempre me chamaram de criança estranha, mas tudo bem se eu trouxe a luz elétrica para o vilarejo antes de vocês terem entendido a importância da vela.) O que faço com uma pessoa que é apenas bonita? E como eu conviveria com uma pessoa que só tinha isso como trunfo? Se meu objetivo é “a beleza plena acima de todas as coisas”, vou construir minha casa rústica no meio de um campo florido, e não querer conviver com quem apenas satisfaça a matemática da estética com um corpo lindo em cada quadrante. O feminismo deveria ser sobre “a beleza não é o mais importante” (dizer que não é nada importante é mentira) e não sobre o autoritarismo de querer forçar todo mundo a achar que Claudia Schiffer e Jocelyn Wildenstein são igualmente belas. 

Empoderamento é uma forma mentirosa de vaidade autossuficiente. “Eu me visto para mim”, “uso salto para mim” e “uso maquiagem para mim” são coisas que na imensa maioria dos casos não procedem. Quase nunca saio sem pelo menos um pouco de maquiagem. E essa maquiagem é para vocês. A prova disso é que não tenho o hábito de usar maquiagem em casa: em casa, apenas passo sombra nas partes ralas das minhas sobrancelhas e um pouco de blush se estiver pálida. Para mim, de verdade, portanto, importa não ter sobrancelha rala nem rosto pálido – batom e pó compacto eu passo para os outros. “Salto para mim mesma” só faria sentido se a dona dessa sentença usasse salto ao estar sozinha em casa: acorda no domingo, coloca salto e vai lavar a louça, ver TV, ler um livro. Isso é “salto para mim mesma”. Se você só usa fora de casa, seu salto é para os outros, não minta que se adora tanto assim, não forje narcisismo. Poucas mulheres fariam questão de se depilar se fossem viver uma temporada numa ilha deserta – mas adorariam ter uma lâmina de depilação se soubessem estar próximas do resgate. Como é confortável a franqueza e como é nojenta a encenação desmedida. 

A terceira onda quer abortar quando bem entender “porque o corpo é da mulher e ela faz o que ela quiser” (segundo mês, sétimo mês – não importa, porque ciência do desenvolvimento fetal não importa, o que importa é a empoderada mimada). A terceira onda quer que mulheres não sejam interrompidas por homens – problema de gênero, segundo elas, mesmo que eu consiga reunir 200h de vídeos em que fui interrompida por outra mulher no que certamente era apenas uma fabulosa sessão de sororidade que não percebi. Problema humano de modo geral e de falta de educação agora é “problema de gênero”. A terceira onda quer mais investimentos em universidades para “pesquisas” sobre gênero nas especializações sobre gênero que publicam inúmeras revistas sobre gênero que nem as próprias “profissionais do gênero” leem – isso é mais importante do que atividades de laboratório. A terceira onda se arroga o direito de falar em nome de todas as mulheres quando decreta que “nenhuma mulher gosta de assovios e gritos de 'gostosa' na rua”, quando, bem, a realidade não se adapta a esses dados inventados. A não ser, claro, que as fofinhas feministas burguesas não gostem da estima exteriorizada desses trabalhadores – em locais pobres, certos tipos de pedreiros distribuem felicidade com seus panegíricos. A terceira onda mente que “nunca é a roupa que faz uma mulher ganhar um assovio ou ser assediada”. Pergunto: quando uma moça bonita muito coberta e uma não tão bonita de trajes mínimos passam por uma construção, quem tem maior chance de receber os “elogios” dos pedreiros? (Não estou falando de certo e errado, estou falando do que acontece.) A terceira onda, ao discutir entre si, é a baixeza daquele diálogo primário entre a “filósofa” e a “socialista” que citei acima: se uma critica a outra, a outra diz que é inveja da exposição, inveja porque escreveu livro, inveja porque é convidada a ir à Globo (a “filósofa”, aliás, sempre que contestada usa o coringa “inveja”). Não difere muito do teor de discussões de mulheres “barraqueiras” resolvendo suas picuinhas “na casa mais vigiada do Brasil”. A terceira onda mente que mulheres gostam ou podem gostar de sexo tanto quanto homens, ou mais. Excetuando o caso de viciadas em sexo – que é uma condição patológica, triste e tratável (lembre-se que viciados em sexo podem muitas vezes precisar se aliviar, na urgência, com mendigos) –, dizer que uma mulher gosta de sexo tanto quanto um homem é desconhecer a biologia, o papel dos hormônios e a cabeça de um homem. A finalidade de mentir sobre esse assunto é massagear a vaidade, para sentir a delícia de fazer com que os outros achem que se é muito sensual. Claro, queridas: vocês certamente correm com frequência para o banheiro quando estão com muito tesão e têm certeza que continuarão assim aos 60, vocês certamente se igualam à quantidade de masturbadas diárias de rapazes na puberdade – no mínimo três, no máximo a esfola –, são os parceiros de vocês que inventam que têm dor de cabeça ante insistências incômodas. Claro. Tudo muito verídico. Essas proclamadas famintas são os Cadernos Pagu recebendo um sopro da revista Nova. Há mulheres que lamentavelmente nunca gozaram na vida (não culpem somente os homens “que não souberam fazer”; foquem em ensiná-las a descobrirem seus corpos sem nojo), mas as “deusas da terceira onda” nunca podem ser saciadas porque estão eternamente ávidas. É uma competitividade mórbida: essa feminista não quer gostar de sexo de modo saudável de acordo com o que a natureza lhe dá – ela tem tanta obsessão por odiar homens que só se satisfaz quando fantasia que seria capaz, ela, de engravidar pelo menos 365 pessoas num ano. O sexo é uma dádiva da evolução: maravilhoso, natural e simples. Por que o feminismo quer transformá-lo em farsa, ganância, “luta”, concorrência, soberba?

Um “feminismo” que esperneia como uma criança no supermercado se jogando no chão quando quer alguma coisa desnecessária – que ele me ligue no dia seguinte como prometeu, que as pessoas me achem bonita, que me deixem falar meu monólogo até o final, que eu possa chamar de assédio se tiver vindo de um homem feio, que eu possa chamar de estupro se me arrepender depois, que eu não tenha que provar minhas acusações porque o que importa é a palavra da vítima, que eu possa me sobressair sobre estudados porque tenho vivência, que eu não precise assumir minha ignorância quando um homem quiser me ensinar o que não sei – não pode, não deve, ser levado a sério e nem atendido em suas exigências. Não se renda às exigências triviais feitas aos gritos: da próxima vez não deixe essa mimada ir junto ao supermercado. 

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NOTAS

1. Em terreno polarizado, é preciso explicar o básico para não entrar na roda: há muitas pautas feministas importantes (aborto até o terceiro mês, masturbação feminina, desvencilhamento do pacote casamento + filhos, divisão de tarefas, educação infantil livre de imposições limitadoras, combate à violência doméstica). Meu asco é sobre a terceira onda, que não é um movimento político, mas um movimento de estímulo das vaidades, de adoração a personagens pitocos transbordando prepotência e de resposta à vontade animalesca de agrupamento. Se você é “contra o feminismo”, saiba que não estamos no mesmo barco. 

2. É incrível como algumas pessoas são bonitas. Mas e depois? Ou: mas e o que mais? A mera beleza basta a mulheres fúteis e homens babões, mas, francamente, o que faço numa mesa de bar sentada com Marina Ruy Barbosa e Zara Larsson? A companhia de Willem Dafoe e Steve Buscemi – que não considero feios, mas que estão muito longe do “padrão” (e que por isso são tidos como feios por muita gente) – traria melhor proveito, sem dúvida. 

3. É multifatorial o problema das mulheres que não gozam (muitas até pensam que talvez gozem). Uma cultura do pudor, do nojo que a mulher deve sentir pelo próprio corpo, a dificuldade de alcançar o que se deve (enquanto no homem a natureza trouxe tudo muito escancarado, como uma ferramenta que o colega dele pede na oficina mecânica e “tá na mão”), intromissão religiosa quando Jesus nunca deu um pio sobre o assunto. E é um problema que não deve ser menosprezado, pois traz infelicidade tanto para ela quanto para ele quanto para elas (num casal lésbico). Achei perfeita a comparação que um dia fizeram com um espirro: não apenas porque se manifeste como um “atchim” a caminho, mas porque ninguém tem dúvidas se espirrou ou não. Ninguém diz “olha, eu acho que espirrei” ou “tenho a impressão de que espirro junto com meu marido todas as noites”. 

4. Mulher que diz gozar exatamente ao mesmo tempo que o parceiro: uma iludida ou, essa sim, uma deusa em sintonia perfeita com um deus. Vocês na neve, vem um vento gelado, as roupas não são suficientes: qual é a probabilidade de você e seu parceiro espirrarem juntos? Pois é. 

5. É possível se afastar, mas não adianta negar: nossa natureza influenciou o desenvolvimento da nossa cultura. Há motivo para homens gostarem de mulheres bonitas. Há motivo para mulheres gostarem de homens com dinheiro. “Isso é tudo cultural” – sim, mas como fruto da árvore da natureza. Mulheres lindas casadas com bilionários feios é algo comum, mas é raro que bilionárias feias consigam se casar com homens lindos. Revistas de homem nu não fizeram sucesso. Homens que ganham menos que suas parceiras são comumente tratados com leve desprezo por elas – e são fortes candidatos a serem traídos se além disso forem completos bananas. Homens não costumam gostar de mulher-macho, mulheres não costumam gostar de homens afeminados. Casais de mulheres têm uma fidelidade muito maior que casais de homens: até no mundo homossexual a vontade carnal do homem de “diversificar” se manifesta. Acho muitas dessas coisas ruins – mas é minha opinião sobre um dado. Negar a natureza não vai apagá-la. É melhor tentar trabalhar com ela.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Retorno à ficção



Antes de mais nada quero defender aquela língua portuguesa velha, com acentuação à vontade que deixava tudo às claras. Esse título, por exemplo. Do jeito que está escrito, ninguém sabe muito bem se estou usando o substantivo retorno ou conjugando na primeira pessoa do singular o verbo retornar. Estou escrevendo pensando na sonoridade de “retôrno” e sai essa ambiguidade para quem está lendo e não ouvindo. Desagradável. Não acho que nosso idioma deva ser facilitado em nome da união ou do aprendizado estrangeiro. Nunca pedi para os italianos se unificarem em seus dialetos para que valesse a pena meu possível estudo da língua a fim de usá-la no país todo e não só nas cidades mais pacificadas. No arcaico português havia exageros, eu sei, como acentuar a palavra “êle”, mas não era uma forma muito mais segura de leitura quando você lia a palavra e naquele instante captava o som que ela deveria ter antes mesmo de conhecer o contexto? Tínhamos já problemas e criaram mais em vez de resolvê-los. Os espanhóis colocam um ponto de interrogação antes e depois da sentença. Preciosismo? Não, coisa que deveríamos adotar para facilitar a leitura. Quantas vezes lemos uma frase de três linhas mentalizando um tom afirmativo e encontramos, com surpresa, lá no final, um tardio ponto de interrogação? Então é preciso reler a frase inteira para mudar o tom – o autor parecia afirmar o que dizia, mas na verdade estava perguntando, o que altera tudo – e captar o significado real do que era lido. A mesma coisa deveria ser feita com o ponto de exclamação, que às vezes nos pega de supetão no final de uma sentença que líamos com a calma de um monge... e de repente percebemos que precisamos gritar a última palavra. Pensei que eu era uma exigente, uma metida a purista solitária ao sugerir essas melhorias, inspiradas em outro idioma. Até que um colega de trabalho disse pensar o mesmo e não me senti tão ilhada. 

Ao assunto. Já escrevi ficções de tudo que é tipo. Muitas coisas eram tão horríveis que, São Jerônimo!, tenho vergonha de reler hoje em dia. Se leio, é mais para achar graça ou para encontrar aquela célula sensível à luz que na escala evolucionária um dia se transformaria num olho. A pergunta é: já transformei aquela célula em olho? Voltei de fato a escrever ficção, mas sem saber se essa seleção natural aconteceu. 

Não sei me definir direito enquanto pessoa que escreve ficção, não sei exatamente o que almejo. Apenas sei o que não quero fazer de jeito nenhum e o que pretendo pelo menos evitar fazer. Não quero de jeito nenhum usar os livros como catapulta, seres meramente funcionais, intermediários, passagens para “um objetivo muito mais importante”. Não. Tenho repugnância por quem trata livros somente como meios para o alcance de finalidades egoístas. Não leio livros pensando “vamos ver se Machado de Assis pode contribuir para meus escritos”, leio porque o valor está nos próprios livros. Dito isso, não nego que de forma secundária muitos dos livros que leio me ajudam a construir uma história – não tanto com ideias, mas com palavras. Diversos livros que leio têm, na última página, palavras anotadas. São palavras usadas no livro que me chamam a atenção e vou anotando. Nem sempre são palavras muito diferentes, marcantes. Hoje eu estava revivendo alguns livros do sociólogo Erving Goffman, que li há muitos anos, e na última página de A representação do eu na vida cotidiana estavam escritas várias palavras, dentre elas: “regular (verbo)”, “inconveniente”, “terapêutico” e “ruptura”. São palavras simples, de significados fáceis, mas eu preciso listá-las, porque na hora de escrever uma história essas palavras não serão lembradas e não virão numa bandeja. Assim, por muito tempo eu parei de escrever e me contentei em colecionar palavras. Porque ideias para histórias considero fácil ter, o diabo é saber contá-las com as palavras adequadas. 

Colecionar palavras tem a ver com outra coisa que não quero fazer de jeito nenhum: escrever de forma corrida como quem conta um causo. Muitas das literaturas que tenho lido nos últimos tempos parecem escritas em “momentos inspirados”, quando o escritor senta em frente ao seu notebook e vai teclando as cenas num fluxo contínuo que cessará com o cansaço. Hoje não escrevo ficção assim e nem quero. Em nome da honra técnica e de um certo perfeccionismo, não desenvolvo mais do que meia página por dia. Há dias (mais precisamente, madrugadas) em que escrevo duas linhas e fico revendo minha lista de palavras para ver se alguma delas não se molda melhor às sentenças do que outras palavras que já estão lá. Também forço a inserção de palavras que soam bem, porque meu papel é técnico e artístico, e não de deleite enquanto laboro. O deleite tem que vir para quem lê depois e para mim mesma quando acabar a peça e me encontrar satisfeita. Enquanto elaboro e uno e troco e refaço e acrescento e apago, não estou ali para me divertir, estou ali para padecer e trabalhar. Desconfio da qualidade do texto de qualquer um que se apresente como “alguém que se diverte” enquanto cria na escrita. Ou é um talento raríssimo que não precisa reescrever, reescrever, reler, reler, reescrever, ou é um impostor. Provavelmente um impostor. Ou é inveja minha por imaginar que podem fazer com graça o que faço suando. 

Quando eu estava na oitava série, uma professora de português dava uma aula sobre métrica. Eu disse: “poxa, mas esses poetas ficam usando cálculo para fazer poesia… aí a poesia perde toda a emoção!”. Ela retrucou, olhando por cima dos óculos: “você acha mesmo que Vinícius de Moraes fazia sonetos ruins só porque se atentava à forma imposta pela métrica?”. Naquela hora não lhe dei razão, mas depois compreendi tudo como se uma janela tivesse sido aberta na minha cabeça e posto meus neurônios para arejar. É necessário ser um fingidor, um tecnicista, para fazer uma boa obra. De obras bem-intencionadas os sebos e os estoques estão cheios. Michelangelo não esculpiria as dádivas que esculpiu se achasse que seus sentimentos e sua inspiração bastavam: ele mediu, reviu, calculou, lixou, aperfeiçoou. Se achasse que emoção extravasada fosse suficiente, não teria sido Michelangelo, mas um “artista” que faz troços pós-contemporâneos. A menos que se tenha certeza da própria qualidade – “sou um talento raro que transpira competência” –, confiar nas emoções na ação de criar é uma petulância, uma soberba, uma megalomania. É preciso técnica, atenção à minúcia, cuidado de programador. 

O que pretendo evitar fazer é escrever apenas uma boa história. É uma responsabilidade muito grande ir além de escrever uma boa história – que já é, em si, uma pequena glória comemorável –, mas é isso a que aspiro. No mínimo uma boa história já me faria feliz, mas uma história que fosse além de “é apenas uma boa história” me poria em estado de crise eufórica. Uma história que tem meandros, uma história que a cada leitura desengaveta coisas novas, uma história que martela: essa é a história que eu quero escrever. De maneira alguma estou tirando méritos de simples boas histórias. O que ocorre é que as “apenas boas histórias” não são como os clássicos, que marcam e precisam ser constantemente relidos. Uma boa história passa. Uma história que tem um estilo memorável nunca vai passar nas mãos de quem sabe ler (friso isso sobre o bom leitor porque há quem passe clássicos adiante como se tivesse lido Sidney Sheldon). Uma boa história vai matar toda a família no meio de uma guerra dramática – e vai passar. Uma história com estilo marcante vai virar cem páginas falando sobre as moléstias de uma perna – e vai permanecer. A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, é uma boa história. Eu me preocupei, eu palpitei, eu chorei. Mas terminou e passou. Laços, de Domenico Starnone, é uma boa história. Mas terminou e passou. Um amor incômodo, de Elena Ferrante (acusam Starnone de ser Ferrante), é uma boa história, mas logo que terminou já encerrou. Eugênia Grandet, de Balzac, é um belo de um enredo, mas terminou e passou. É verdade, esse tipo de categorização pode ser arbitrário: para muitas pessoas, O grupo, de Mary McCarthy, é apenas uma história, para mim é um retrato fabulosamente costurado sobre a sociedade americana da época; para muitos, A idade do serrote, de Murilo Mendes, é apenas uma história bonitinha, para mim é um livro lindo que invejo por não ter escrito – releio e sinto que tremo um bocado. 

É assim, com muitas dúvidas, muita reavaliação e uma coleção gigante de boas palavras desse idioma magnífico que é o português – Paulo Rónai, sensível, dizia ser “uma língua de passarinhos” – que retorno (agora o verbo) a escrever ficção. 

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NOTAS

1. Dizer que invejo Murilo Mendes por não ter sido eu a escrever A idade do serrote não faz com que eu intente escrever uma história como a dele. Meu estilo é completamente diferente e existe um abismo enorme entre desejar “eu queria ter sido esse livro do Mendes” e “eu quero ser um livro do Mendes”.

2. Escrever para os outros, que avaliarão o livro (no momento estou escrevendo contos), traz um misto de sentimentos. Eu muitas vezes escrevo e repentinamente lembro de alguém. E já me antecipo: “correto vai ser se essa pessoa não gostar”. É assim que escrevo: para agradar bárbaros e chatear romanos. Chico Buarque reviu sua música quando percebeu que tipos como Nelson Rodrigues a estavam elogiando demais. Não importam os elogios, mas os elogios das pessoas certas.

3. Há desconhecidos que leem este blog, há conhecidos que leem e há conhecidos que leem e fingem que não leram. Quanto aos últimos, acho isso muito bom, continuem assim, pois desse modo me privo de cobranças e questionamentos. “Estar escrevendo um livro” (estou somente escrevendo, se vai virar livro é outra história) e divulgar é quase pedir para quem não sabe puxar assunto perguntar “e o livro?” a cada semana. Se querem experimentar a sensação de carregar essa pulga, digam para os outros que vão prestar vestibular, que farão um concurso ou que estão tentando engravidar. Diária ou semanalmente virão perguntas repetitivas que querem trazer incômodo e não envolvimento amigável: “e os estudos?” “e o concurso?” “e os estudos para o vestibular e para o concurso?” “e a tentativa de gravidez?”. Sugestões de resposta antes de virar as costas e fingir que há algo urgente para fazer: “tão indo” ou “tá indo”.

4. O que eu mais queria era poder desligar minha memória temporariamente (e de maneira seletiva) no meio da noite, após escrever, toda vez que bem entendesse. Assim, eu escreveria numa madrugada, imprimiria os papéis e os colocaria no sofá, desligaria minha memória, acordaria no dia seguinte e encontraria meus escritos sem saber que são meus. Isso proporcionaria um vital distanciamento do texto que é impossível ter enquanto se escreve. É esse distanciamento que possibilita uma boa avaliação do que foi escrito, mas como tê-lo sem que tenha que se recorrer ao “esquecimento” de um texto na gaveta por anos? Nesse meu sonho ideal eu acordaria, acharia os papéis, inquiriria “o que é isso?”, leria e poderia avaliar “de fora”. Poderia dizer “que horror, quem escreveu isso?” ou “nossa, que maravilhoso, quem foi que escreveu isso aqui?”. Não tenho esse poder sublime. Mas quando terminar meu primeiro conto vou deixá-lo parado escondido por pelo menos um mês antes de relê-lo. Talvez ajude.

domingo, 26 de novembro de 2017

Notas sobre lugares: Blumenau, clima e outras coisas


Há um provérbio sueco que diz: “não existe tempo ruim, apenas roupas inadequadas”. Gosto dele porque incentiva a adaptação, conduta morta nestes tempos em que todo mundo é infeliz por qualquer coisa adversa. Divago (sempre divago quando invento de falar “destes tempos”). O que quero dizer é que o criador desse provérbio nunca passou um verão em Blumenau. 

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Blumenau é uma cidade úmida que fica no Vale do Itajaí, estado de Santa Catarina. Do Sudeste para cima a maioria do povo pensa que o Sul é uma Suíça, com friozinho o ano todo e fondue. Mas garanto por mim e pela fala de outros: o calor de Blumenau é um dos piores, se não o pior de muitas jornadas. Não há apenas calor, há mormaço. E o mormaço desmotiva o trabalho, aumenta a força gravitacional, rouba a humanidade. Meus piores desejos aos meus pares vieram quando eu voltava da escola ao meio-dia e fazia um longo trajeto no sol. Não por acaso, nessa época li O estrangeiro, do Camus. Tornou-se meu livro predileto por tantas coisas, e uma delas foi essa concepção de um homem matar outro por causa do sol. Passei vinte e cinco anos no mormaço de Blumenau, sei o que é ter vontade de matar alguém somente por causa do calor. 

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Um dia saí para festejar meu aniversário e tomei meu primeiro Negroni. Se um dia eu tiver câncer no esôfago, culparei com toda certeza aquele coquetel, que desceu como uma invasão viking. E se um dia eu tiver câncer de pele – já que o efeito maléfico do sol é cumulativo –, culparei com toda certeza minhas andanças em Blumenau na volta do colégio ao meio-dia. 

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Padrão de clima em Blumenau: de dezembro a maio, muito calor e mormaço, com tempestades no final da tarde que levam sacolas, telhas e árvores; de junho a setembro, frio com muita chuva, as roupas não secam, é muito fácil que tudo cheire a cachorro molhado, o mofo é o Demogorgon da cidade; outubro e novembro são os meses em que há forte expectativa para a próxima estação: “se já está assim, imagine no verão”. 

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Todo inverno era a mesma coisa: como a umidade estava no auge, os tecidos viviam molhados. Então antes de dormir eu passava a ferro minha cama, meu edredom e meu travesseiro. 

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Paulistanos são dramáticos com mudanças climáticas. Faz um calorzinho que jamais se comparará ao de Blumenau e eles passam o dia tecendo comentários e criando matérias jornalísticas diversificadas para provar recordes: “o dia mais quente de fevereiro dos últimos vinte anos”, “a semana mais quente dos outonos desde Maluf governador”. Bate uma brisa que jamais se comparará ao frio de alguns invernos em Blumenau (lembram, catarinenses, daquele inverno quando tivemos “os alpes da Palhoça”?) e eles, desesperados ou jecas, já estão de botas, casacos, cachecóis e gorros. Chuva para eles também é sinônimo de frio. Se chove lá fora em pleno verão, eles não saem sem casaco. Dirão, talvez, que é apenas receio da água batendo na pele. Pergunto-me como tomam banho. 

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“Como colonos alemães resolveram se estabelecer em Blumenau com esse clima?”, perguntou meu namorado ao passar seu primeiro verão mórbido na cidade. Vale lembrar que o Dr. Hermann Blumenau voltou para a Alemanha anos depois da colonização. Sábio ele. Tenho uma forte ligação com o lugar onde nasci, vez ou outra caio ébria num espiral nostálgico sobre tudo que vivi lá e não está mais (sou do tempo em que havia cinco alfarrabistas, sendo três Book Center e mais dois Querche: hoje há apenas um Book Center num salão que perdeu todo o ar intimista de sebo), mas não penso em voltar para morar. Não é por causa da mentalidade de germânico do interior, não é porque sempre tem gente estranha com aspecto maníaco perto do Angeloni da Fonte, não é porque as exposições de arte costumam ser uma droga. É simplesmente por causa do clima. 

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O comércio ajuda a refletir o tempo. Não há mais nenhuma banca de revistas na Rua XV de Novembro, a principal rua do comércio de Blumenau. Se você quer um jornal, deve comprá-lo no supermercado. No Shopping Neumarkt, três locais antigos e tradicionais fecharam esse ano: a Bruneti Discos, a confeitaria da Glória e a banca de revistas. Com isso, concluí que não existe mais nenhuma banca de revistas na região do Centro. Há dez anos elas eram várias. Agora, a cidade está transformada num terreno fértil para farmácias, lojas de produtos naturais e barbearias. Casinhas antigas com porão (!) vieram abaixo para que farmácias fossem construídas no lugar. Obviamente não gosto do que vejo. Faço parte do grupo de todas as pessoas que saem de suas cidades de origem e quando voltam para visitas reclamam que elas não são mais tão boas como costumavam ser. 

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Vou a Blumenau uma vez por mês. Em São Paulo me dizem: “ai, que gostoso”. Imaginam que farei tricô em frente a uma lareira enquanto saboreio pinhão cozido e bebo chocolate quente. Um gato preguiçoso vai se enroscar nas minhas pernas e depois se ajeitar delicadamente na almofada de veludo, onde é acariciado pela minha mãe, que está com luvas. Vamos à realidade: não faz nenhum sentido ter lareira em Blumenau, tricô só é feito no inverno, gatos deitam no piso frio aparentando enfarto por causa do calor e nunca, nunca vi minha mãe usar luvas. 

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Em São Paulo os médicos querem tratar especificamente as reclamações dos pacientes, ao que parece. Em Blumenau qualquer pessoa com três quilos de sobrepeso que vá ao SUS por causa de um resfriado receberá de bônus uma recomendação para que emagreça. Uma vez eu estava vomitando até o jantar de dias anteriores, fui a um posto de saúde, vomitei lá também. Na hora de ser atendida na triagem, a técnica de enfermagem, que viu minha situação, sentou-se na minha frente e lentamente calculou meu IMC. E me disse: “você precisa emagrecer pelo menos um quilo para entrar na situação de peso normal”. Infelizmente eu estava tão mal que tinha perdido minha veia sardônica. Podia ter dito: “se eu vomitar mais um pouco talvez consiga”. Cabe uma ressalva: esse tipo de atendimento a-gordura-é-a-causa-de-todos-os-males foi padrão no serviço público de atendimento, não vi a mesma coisa quando fui atendida em consultórios particulares. Já que em São Paulo nunca fui atendida no serviço público de saúde, não sei dizer bem como é o tratamento, talvez isso de que reclamei em Blumenau possa ser uma medida nacional recomendada pelo Ministério da Saúde: “não existe má hora para falar sobre perda de peso, toda hora é hora”. 

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Blumenau para mim é, pensando em épocas variadas, a finada Rádio União – meu pai costumava preparar o café da manhã ouvindo o programa que tocava música alemã tradicional, aquela com muita tuba e muito acordeon –, a Antena 1 – que hoje é apenas 30% boa –, a Rádio Atlântida – que hoje é puro horror –, os sebos, a Biblioteca Municipal com suas funcionárias sisudas para adolescentes (nunca me perdoaram as pontuais bagunças que eu fazia com amigos, não importa a quantidade de livros que eu tomasse emprestado), o cheiro de maconha aqui e ali nas ruas e matos, a Livraria Alemã (hoje fechada), a PROEB (hoje Vila Germânica), o euro dance nos anos 90 que eu captava dos sons alheios e adorava (Ace of Base, Gala, 2 Brothers on the 4th Floor), a luta entre os locais e os que imigravam, bares se transformando em igrejas, as festas juninas com cachorro quente com chucrute, os shows na “Prainha” aos quais eu nunca fui porque era muito criança (uma amiga mais velha viu Skank lá, e aqui eu gostaria de manifestar um sentimento que chamo de “inveja ao contrário”), o Parque Tupã, os cafés coloniais, a TV Galega, os paranaenses do interior formadores de guetos, o chimarrão diário e as rodas de chimarrão, os jogos de canastra, os velhos de chapéu que ficavam nos terminais de ônibus e arredores dando balas para meninas como pretexto para alisá-las, pessoas com deficiência descritas como “ele vai na APAE” (ninguém dizia “Fulano tem uma deficiência”, mas com o “Fulano vai na APAE” dava para entender tudo), a Rádio Menina e o boom de música gaúcha que vivemos, o Colégio Pedro II com seu uniforme inconfundível (entre os pobres havia algum frisson se alguém estudasse lá, mesmo sendo público), o Colégio SOS (que não existe mais), as histórias lendárias sobre túneis que levavam freiras para a danação da carne ou nazistas para encontrar outros nazistas, as histórias elaboradas sobre o Teatro Carlos Gomes ter sido feito como uma homenagem a Hitler (“dá para ver pelo formato da construção”), as histórias sobre o professor de História do Energia que era nazista (o mesmo que teve sua piscina com uma suástica no fundo fotografada por um helicóptero anos depois em Pomerode; seu filho “Adolf” estudou no mesmo colégio que eu por um tempo e era “uma sensação” com aquele nome e com aquele pai), os cursos na Fundação Cultural (foi lá que aprendi a tocar violão e a fazer cerâmica), a Rua Araranguá e a Rua Pedro Krauss rivalizando como os piores becos, o bullying em excesso nas escolas (principalmente nas públicas), as procissões das igrejas católicas, a popularidade da danceteria Rivage, a Sessão da Tarde passando nas lanchonetes, o comprar “massinha” na padaria (pão doce com farofa, basicamente), os alagamentos com as chuvas. Isso só para citar alguns exemplos. 

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Falo de Blumenau como a terra da umidade, mas este ano visitei Buenos Aires pela primeira vez e descobri que o nome da cidade só pode ser ironia. Os prédios são muito úmidos, você entra e é abraçado pela névoa. Nos restaurantes os guardanapos estavam sempre molhados, as paredes dos banheiros escorriam, às vezes colocavam um aquecedor no ambiente para ajudar a desumidificar, mas isso não contribuía com quase nada. Era frio. No calor, imagino que haja muito mormaço.

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Buenos Aires tem locais muito bonitos, mas é superestimada. “A cidade europeia da América do Sul” é um exagero. Algumas atrações turísticas são vãs: não entendo o que há de mais naquela flor metálica que abre e fecha na Praça das Nações Unidas. Já não existem moedas por causa da inflação. Qualquer comidinha custa muito para a nossa conversão. O Museu Nacional de Belas Artes, que é bom, tem entrada gratuita. O Museu Jorge Luis Borges é pequenininho e não muito convidativo, mas tem seu valor para quem gosta do escritor. Os ônibus parecem feitos para grupos de circo. Um livro que no Brasil custa por volta de 25 reais está por 100 reais na Livraria Ateneo, que só vale a pena para conhecer, e não para comprar alguma coisa. É assustadora a quantidade de cocô de cachorro nas ruas. Há construções antigas bonitas (em parte é por causa delas que chamam Buenos Aires de europeia), há parques bem cuidados, algumas ruas são agradabilíssimas. 

Ônibus à moda circense em Buenos Aires

Bairro de Palermo

Escultura "Centauro", de Antoine Louis Barye,
no Museu Nacional de Belas Artes de BA

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Falo mal da flor metálica que abre e fecha em Buenos Aires, mas ela não é das piores invenções de ponto turístico. No Brasil muitas cidades têm o hábito de construir grandes arcos nos centros ou nas fronteiras para que o turista considere aquilo como mais uma atração onde bater ponto e tirar foto. Não é bom sinal quando um desses arcos, que não fazem nada e sequer são bonitos, figuram entre “as 10 maiores atrações da cidade” segundo o Trip Advisor. A clara intenção disso é inflar o número de locais de visitação: “temos o rio, temos o museu da história da cidade, a pedra da inauguração… e temos os arcos”. 

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O pior frio que passei em viagens foi em Budapeste (Hungria), em janeiro de 2015. Muitas pessoas têm o hábito de pensar, consciente ou inconscientemente, “comigo isso não vai acontecer”. É assim que dirigem bêbadas, não usam cinto de segurança, lançam-se de paraquedas, fumam e exageram no consumo de açúcar. Comigo é o oposto, muitas vezes penso “é comigo que vai acontecer”. Casos bizarros e excepcionais de quem morreu engasgado com um pedaço de maçã me levam a comer mais devagar, em viagens de ônibus (mesmo se for de São Paulo a Santos) sempre uso o cinto, etc. No inverno de Budapeste, houve um momento em que achei que ia morrer de hipotermia. Estava no alto de um morro, de onde é possível ver toda a cidade e onde não havia local fechado para aquecimento. Mas minha indumentária de astronauta não bastou, e senti meus pés doendo muito e ficando duros de congelados. Então me lembrei do caso de pessoas que perderam pés ou mãos por causa do frio, e pensei “pronto, vou virar esse tipo de estatística”. Horas depois voltei ao normal, mas ainda temi um pouco possíveis consequências posteriores. Nem sempre é bom ter certos conhecimentos. 

Lençol de neve em Budapeste

Parte da cidade de Budapeste

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O pior calor que passei em viagens foi em Pompeia (Itália), em 2014. No meio das ruínas do vulcão e sem nenhuma proteção de telhados, o sol torrava a pele sobremaneira. Não é à toa que pessoas morrem no verão italiano por causa do excesso de calor. 

Um pedaço da destruída Pompeia

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Clima bom é o clima invisível, aquele que não gera muito falatório para pessoas normais – pessoas anormais sentem um assoprar e já começam a esfregar seus bracinhos e tagarelar sobre o frio, ou sentem um pouco de calor e começam a fazer trejeitos de quem vai explodir. Não gosto nem de lugares muito quentes, nem de lugares muito frios. Não vejo graça em “ver neve” e penso que é preciso um trabalho interior muito grande para aprender a gostar de tirar neve da porta de casa com uma pá (esse trabalho interior funciona, foi assim que aprendi a gostar de passar roupas). O clima bom permite o uso de roupas numa quantidade confortável: se está calor, uma bermuda e uma camisa, se está frio, uma calça e uma blusa. Nada de camadas de roupa que impedem a execução de movimentos, nada de quase nudez com peças de viscose e ainda assim sentindo vontade de se abanar. E já que o tal clima bom dificilmente acontece o ano inteiro, o melhor é se acostumar e naturalizar o que está dado. Hoje, com o mundo como é e com as pessoas como são, toda vez que entro num táxi tenho vontade de avisar: “boa noite; olha, o senhor pode ir pulando o papo sobre o tempo, pois que está calor e que vai chover no final da tarde todos nós já sabemos”. 

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Mas que o clima em Blumenau é horrível, ah, isso é.

sábado, 7 de outubro de 2017

Pesquisadores que são salsicheiros


Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em consequência da instabilidade da posição em que esteja.” 
Da incoerência de nossas ações – Montaigne em Ensaios

Muitas pesquisas acadêmicas são como salsichas: se quem as consome soubesse como são feitas, não as consumiria mais. A diferença na obstinação em continuar consumindo algo de péssima procedência é que as salsichas podem propiciar o câncer, enquanto os danos dos trabalhos acadêmicos feitos da costura dos restos menos nobres de animais humanos podem não trazer esse aviso de perigo mortal. “Não creio, uma má pesquisa pode matar.” É fato, só que más pesquisas endossadas por sérios estudiosos raramente – portanto, muito pontualmente – aparecem, são propagadas e matam. Foi o caso, dentre os contados nos dedos nas últimas décadas, da pesquisa que vinculou a vacinação ao autismo. Também é fato que esses casos pontuais provocam estragos que se arrastam por gerações: não é preciso andar muito longe no campo das redes sociais, que escancaram na praça as vísceras dos nossos conhecidos, para encontrar quem incentive uma nova revolta da vacina “porque os médicos, a indústria farmacêutica e os governos mancomunados querem que as crianças nasçam com autismo para que todos lucrem mais”. Não sou amigável à comunidade médica (psiquiatras principalmente), à indústria farmacêutica (passei anos sem gastar um centavo com medicamentos) e a governos (fora Lula, Dilma, Temer, Aécio, Gilmar Mendes, etc.), mas meu asco é muito maior a teorias conspiratórias, especialmente quando vindas (se é quem vêm de outro lugar) da cabeça de gente ignorante que não entende nada do assunto e sequer se deu ao trabalho de fazer uma pesquisa rasa em bibliotecas sobre o que era para ela suspeito. Mas divago: quero falar das pesquisas feitas em massa que se parecem com salsichas. Essas que você consome porque são convenientes e aparentam confiabilidade. 

Citação de estudos é o novo pretinho básico: todo mundo tem um no armário para ficar elegante com facilidade. E os estudos citados podem corroborar qualquer coisa. Na área da nutrição, por exemplo, que muitos céticos chamam de pseudociência – com dose de razão, Ben Goldacre considera que nutricionistas são charlatões e até mandou comercializar uma camiseta em que se lê “nutricionista” embaixo da imagem de um pato (quack é “charlatão” em inglês) –, fanáticos por dietas restritivas sempre têm uma lista de estudos na manga comprida da blusa para apresentar caso sejam colocados em dúvida. O erro já começa na alusão ao apocalipse alimentar, mas piora conforme o fanatismo adere a uma corrente específica: açúcar jamais, glúten mata mesmo os não-celíacos, carboidratos são veneno, farinha e arroz são carboidratos cancerígenos, etc. Eu francamente não tenho tempo de analisar os estudos que todo mundo me aponta para justificar sua alimentação restritiva, mas sei que cada iludido consegue arrolar dezenas de “pesquisas honestas” para explicar como vive maravilhosamente bem. Adeptos da dieta paleolítica – que comem basicamente carnes, ovos e plantas – e da dieta crudívora – que comem apenas alimentos crus ou aquecidos somente em baixíssima temperatura – sempre falam em “estudos”. O básico é que as populações mais longevas do mundo não são nem paleolíticas, nem crudívoras: japoneses, por exemplo, comem pouquíssima carne, muito arroz e muitos derivados de soja. Paleolíticos e crudívoros – e os “estudos” que os embasam – querem buscar nos antepassados a alimentação adequada que protege contra doenças e confere vida longa, mas que diabos: desde quando nossos antepassados devem ser modelos literais de saúde? Viviam pouco, tinham que comer o que estava disponível sem cerimônias, podiam não padecer das doenças que nos acometem, mas padeciam de tantas outras. Não, para os profetas do apocalipse alimentar extremo não basta excluir processados, ler rótulos, moderar o que se torna vício (álcool, açúcar, farinha de trigo): é preciso que exista um modo de alimentação tão hermético que funcione como uma religião conservadora. 

Quanto aos estudos sobre os quais não tenho tempo de me debruçar – trabalho 35h semanais, durmo no mínimo 8h por noite, não me resta muito tempo para ficar desafiando e contestando cada lunático que surge com “novidades fundamentadas” –, às vezes uma passada de olhos já denuncia a trapalhada: pesquisas feitas com dez, quinze, trinta pessoas que “revelam” informações na base de “56%, 61%, 63% dos pesquisados” querem dizer o quê? Querem dizer que precisamos de estudos mais aprofundados, com uma amostragem muito maior, para bem julgar os resultados obtidos na prévia. Eu sei, há quem se pense cientista com uma amostragem de uma, duas, três pessoas – “minha mãe não me amamentou e estou vivo até hoje, logo a amamentação é desnecessária”, “bebo água de torneira desde sempre e nunca morri nem adoeci, então essa história de água mineral, de água melhor tratada é coisa do comércio criando demanda”, “na minha casa não compramos orgânicos e não temos problema nenhum com isso, logo provamos que o comércio de orgânicos é apenas um nicho de mercado”, “Bibi Ferreira tem 95 anos, diz que nunca praticou exercícios e bebe Coca-Cola todos os dias; assim concluímos que exercícios físicos são desnecessários e que Coca-Cola não faz mal” –, mas isso fica no terreno coloquial onde o achismo é rei e primeiro-ministro: ninguém chama a colega que infere coisas sobre o universo baseada em sua experiência pessoal de “estudiosa” ou “pesquisadora”. Mas estudos de dois meses feitos com dez pessoas que mostram uma tendência 2% maior de hipertensão no grupo de cinco que comeu pão todos os dias – esses “estudos” entram para a lista do pânico dos que tratam farinha de trigo como heroína. A desgraça, infortunadamente, não fica apenas do lado do pleno leigo que interpreta o que leu na Seção Mundo Bizarro do jornal: há pesquisadores que fazem esses estudos de quintal, concluem coisas e tratam suas realizações como trabalhos sérios e dados prontos. Num planeta globalizado, um débil sempre achará outros débeis maiores para concordar com ele e divulgá-lo. 

Aqui parece que falo apenas da deep web de informações falsas, capengas, aleijadas onde mergulha o grosso de quem tem carência afetiva e precisa achar deuses em todo lugar: o deus político, o deus alimentar – que se manifesta na forma de “o limão é uma panaceia” ou “a linhaça cura diversas doenças” –, o deus opinativo. É um mar onde se nada de escafandro e às vezes se pensa pedir para cortarem o fio. Mas é bom não esquecer dos gigantes, e vou bailá-los brevemente. 

Liberais vivem numa utopia teórica que é quase tão fantasiosa quanto o que a esquerda planeja como paraíso social. Pensam que o Brasil tem competência, responsabilidade e maturidade para liberar porte de armas para todos; acham que numa sociedade de cada um por si necessariamente surgirão associações caritativas criadas pela espontaneidade dos bem-sucedidos, desejosos de ajudar os pobres; creem que há pouquíssimas coisas (ou nada) que o Estado pode prover e incentivar melhor que a livre iniciativa. Nesse último ponto, liberais se referem muitas vezes à atividade dos mecenas da ciência, que patrocinam estudos sobre temas variados e dizem dar liberdade aos pesquisadores para que concluam o que tiver que ser. Quem acredita nesse sistema no qual o pesquisador sabe que seu patrocinador tem interesse em determinados resultados que o beneficiem? Não digo que os pesquisadores são claramente comprados (apesar de achar possível, imagino que isso seja minoritário), mas a mera informação de que o mecenas tem interesse num dado encaminhamento do estudo pode bastar para que tudo seja subjetivamente, inconscientemente, tacitamente conduzido. Um dos pilares mais importantes das principais pesquisas com pessoas é fazer testes às cegas: o pesquisado não sabe que hipótese o pesquisador lançou de início e o pesquisador não faz ideia qual pesquisado receberá o que no meio do estudo para testar sua teoria. Se o pesquisador sabe que está dando um placebo para seu pesquisado 1 e que está dando remédio com princípio ativo para o pesquisado 2, ele, pesquisador, pode deixar passar uma expressão, um tom de fala, um modo de frase que entregue para o pesquisado que tipo de reação se espera dele ao tomar a pílula que lhe é dada. Parece rigoroso, mas é apenas um preceito muito elementar que pesa o papel da psicologia na relação entre pesquisador e pesquisado. Se nesse âmbito menor já é tão importante que o estudo seja realizado às cegas, por que não seria importante que um laboratório inteiro não soubesse quem é que está financiando a pesquisa milionária que será iniciada? Laboratórios que recebem baldes de dinheiro dos barões da indústria geralmente sabem quem os financia e sabem que tipo de resultado seria mais benéfico ao financiador. Podem não pensar “vou conduzir essa pesquisa de modo a agradar ao Sr. Nestlé”, mas a avaria moral já se manifesta no momento em que o pesquisador come o fruto da árvore do conhecimento que delata o interesse do mecenas. Há caso pior, é claro, como quando o proveito é escancarado: em ditaduras que dizem financiar a ciência, o cientista é muitas vezes obrigado a servir ao ventríloquo que o move dentro do laboratório. Mas não vejo motivo para terror quando governos livres financiam pesquisas num processo liso, e dependendo da pesquisa prefiro confiar na conclusão de alguém que atendeu a um edital de pesquisa lançado pelo governo a confiar em quem teve financiamento privado. Não só as pequenas pesquisas merecem nosso ceticismo ajuizado (ceticismo desajuizado é o que os eternos conspiradores carregam consigo), mas também as grandes: saber quem financia um estudo pode ser uma informação substancial para manter uma saudável pulga atrás da orelha. Atenção aos autoritários, aos polarizados: eu não disse que pesquisas financiadas por grandes marcas devem ser usadas para concluir o oposto – “se a pesquisa financiada pela Mondelez conclui que chocolate faz bem, é porque chocolate faz mal” –, apenas incentivei o benefício da dúvida comedida até que outro pesquisador possa provar outra coisa ou ratificar o que foi concluído. 

O sentido da metodologia exposta num trabalho acadêmico não é só o de informar sobre a técnica utilizada, mas de possibilitar que a experiência possa ser repetida por outro pesquisador que queira verificar se atinge o mesmo resultado. Usar a mesmíssima metodologia e não alcançar o mesmo alvo, ou um alvo sadiamente próximo, é mal sinal para o estudo publicado. Excetuando pesquisas com forte cunho de análise de dados quantitativos, qual é a medida das produções da área de humanas que passariam pelo teste com tranquilidade? Não só a metodologia está muitas vezes errada como mesmo seguindo os passos tortos da metodologia errada não se chega ao mesmo lugar. Pretenso Pesquisador: "Eis o mapa: foi assim que cheguei ao que denomino Vale do Conhecimento". Possível Replicador: "Interessante, porque o mapa não apenas é mal feito como seguimos os tracejados conforme aqui está e chegamos a um local completamente diferente". É uma realidade assombrosa, mas somente até você se acostumar a ela: se orientadores de trabalhos acadêmicos já esculpiram seu corpo no colchão dessa pesquisa macunaímica de tanto passarem deitados confortavelmente nele, não há razão para o mais comum terrestre não diplomado deixar de normalizar tal situação. 

Em tempo: há muitos textos da área de humanas que são ensaios e não pesquisas acadêmicas, mas são aprovados como pesquisas acadêmicas. O fato de um texto citar alguns livros não o torna uma pesquisa acadêmica. Já há “artigos acadêmicos” sobre “o golpe de 2016 no Brasil”, e em boa parte deles dá para se ter uma ideia da confusão entre ensaio e pesquisa.

O equivalente, na área de humanas, ao cientista de laboratório que se permite guiar pelo benefício de seu financiador (ele nega a influência, mas isso não quer dizer nada), está no pesquisador que prefere causas a fatos. Esse pesquisador, que geralmente atende a apelos políticos, apelos partidários, apelos sentimentais dos movimentos sociais, não deixará que a razão reine naquilo para o qual ele chama primeiro a paixão, tonta porque inebriada por suas convicções de fé. A imparcialidade é fantasma que nunca se agarra, mas é canalhice de muitos pesquisadores "de humanas" não ao menos tentar. Nessa toada, a pesquisa não informa, mas doutrina. Ou seja, não é pesquisa. 

Para se formar, um graduando precisa passar por dezenas de professores. Depois ele passa pelo cansativo estágio e/ou pelo trabalho de conclusão de curso. Quando você vai ao banco de TCCs da biblioteca de uma instituição de ensino e pega aleatoriamente algumas monografias da sua área para ler, pode ficar confuso. Aquilo é pesquisa. Aquilo foi ratificado por pares. Aquilo recebeu uma orientação, passou por uma banca avaliativa e recebeu aprovação. Aquilo pode ser citado em outros trabalhos acadêmicos. Há trabalhos tão ruins que é de se perguntar se a universidade, que deveria priorizar a formação dos melhores pesquisadores e profissionais, está se tornando um novo ensino fundamental público onde qualquer um que não seja completamente absurdo passa para o ano seguinte. Li um trabalho acadêmico, aprovado, em que a conclusão trazia dados novos que não foram apresentados em momento algum do desenvolvimento. Vi uma pessoa que estava para se formar na especialização juntando materiais para poder usar nas referências e inserir as citações no meio do texto que já estava pronto: não houve pesquisa, houve “escrevi o que penso e agora vou intercalar umas citações de renomados que concordem comigo”. Conheci uma pesquisadora cujo trabalho de reunir todos os dados coletados foi por mim observado: de maneira desarrazoada, elementos que não casavam eram unidos e mal interpretados. Pessoas externas ao que estava acontecendo ali receberiam um artigo aparentemente bem feito e de acordo com a época estudada, mas tendo sabido do bastidor eu sei que parte do que foi publicizado era fruto da pressa e da mera lucubração, e não de um estudo feito com calmo capricho. Leio e ouço desde sempre reclamações sobre ter que citar autoridades sobre o assunto, porque os amadores pesquisadores preguiçosos e nada humildes achavam “ridículo que não possamos pensar com nossa própria cabeça e tenhamos que procurar argumentos de autoridade”. Se você acha que citar quem entende mais do assunto que você é uma poda ao direito de pensar com a própria cabeça, saia da faculdade e monte um blog. Num blog você pode dizer o que pensa e não se dignar a responder caso alguém pergunte que tipo de autoridade você é para opinar sobre o assunto. 

Não consumo salsichas justamente porque sei como – e de que – elas são feitas. Por saber que muitos trabalhos acadêmicos têm o modo de produção semelhante ao das salsichas, consumo estudos com muita parcimônia hoje em dia. Infelizmente, mesmo uma pesquisa lindamente bordada pode ter um avesso tenebroso. E é muito arriscado defender qualquer ideia subitamente aparecida num estudo que possa ser suspeita. Estudo por estudo, todo mundo tem os seus preferidos para citar. Até a homeopatia, que é pseudociência evidente, tem diversos estudos (ruins) "comprovando" seus efeitos. Pesquisa acadêmica é também como estatística: dependendo quem fez e com que objetivos, pode ser uma grande furada. É melhor conhecer tudo o que ocorre nos bastidores antes de acreditar na peça que é encenada. 

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NOTAS

1. Esta postagem terá uma parte II chamada Universitários que são manequins

2. Não acho que eu precise me explicar, mas me explico e até me repito. Não aderi ao veganismo por motivo de saúde, aderi por ética. Não me lembro de em nenhuma fase da minha vida não ter gostado de animais (não gostava muito de ganhar bonecas, sempre queria animais de pelúcia), assim como não me lembro de ter gostado de ou me divertido com tortura, que é tudo o que os animais passam antes de irem para pratos de ególatras. Portanto, veganismo não é dieta, como erradamente apregoam Drauzio Varella e reportagens sobre nutrição na televisão. E só aderi ao veganismo porque ele é possível: se fosse uma aberração alimentar que fosse me fazer mal, eu não teria embarcado nessa e iria apenas “comprar carne de produtores que realizam abate humanitário”. Aberração alimentar é comer pedra e fazer jejum enquanto uma fruta não cai naturalmente da árvore. Aberração alimentar e moral é contar para os filhos histórias bonitinhas sobre galinhas, mostrar os pintinhos abrigados embaixo das asas da galinha em um parque qualquer e depois, à noite, servir frango no jantar. 

3. Não demonizo agrotóxicos (não mais). Sei que com o estilo de vida da população geral seria muito difícil ter fartura de alimentos sem o uso deles. Mas não posso aprovar a história de que “orgânicos são apenas nicho de mercado” enquanto no Brasil são permitidos agrotóxicos que estão banidos na Europa há anos e enquanto auditorias flagram abuso na quantidade de agrotóxicos despejada em certas plantações. 

4. Existem casos de estudos aparentemente “sérios dos dois lados”. Não sei muito bem o que pensar sobre o álcool: há quem defenda que com moderação ele faz bem, há quem defenda que qualquer quantidade dele já aumenta o risco de câncer. Para mim seria muito vantajoso que fizesse bem, porque gosto de beber e bebo com moderação, mas li pessoas que estimo condenando essa angelização do “álcool em doses moderadas” porque há estudos que mostram que mesmo a ingestão com prudência faz mal. Mantenho-me aqui, bebendo enquanto não saem estudos definitivos. 

5. A Cochrane Library faz revisões de estudos sobre temas variados e é uma base segura para avaliar a seriedade e profundidade dos resultados de pesquisas. Alguns artigos são de acesso livre. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Ponderações sobre má literatura: os casos de Olhos d'água, de Conceição Evaristo, e Submissão, de Michel Houellebecq


Caso alguém tenha parado para estudar minha conduta, verá que sempre critico pessoas e elogio livros. Não costumo conceder espaço para a crítica a um livro específico; em vez disso, estou aqui e ali recomendando leituras. Pontualmente já amaldiçoei Foucault – vaidoso, pedante e megalomaníaco –, Clarice Lispector – fraca, pretensiosa e confundindo desvario com surrealismo – e Lacan – charlatão, complicador e maçante –, mas nenhum deles e nenhuma de suas obras recebeu uma postagem própria. Desvio-me de minha conduta costumeira, agora, para falar ligeiramente sobre os livros Olhos d'água, da mineira Conceição Evaristo, e Submissão, do francês Michel Houellebecq. 

Há inúmeros fatores que levam uma ficção a ser ruim. Muitas vezes um ótimo leitor acha que essa qualidade (de ótimo leitor) o leva a ser, por corolário, um ótimo escritor, e desanda a escrever livros que ele não percebe serem horrendos. É o caso de Paulo Francis e suas tentativas de literatura. Quem via Francis criticando outros escritores – porque exuberantes, porque escolhiam termos antiquados para começar sentenças, porque de vocabulário relaxado – podia pensar “eis um homem que deve saber escrever”. Na verdade, eis um homem que prova que teoria e prática podem se distanciar com um abismo no meio. Necessariamente, saber a teoria e não saber a prática não são infortúnios. Críticos literários apontam focos de luz para obras de maneira magnífica, e vários deles sabem que seu talento para cortar excessos, acrescentar estofo, aparar arestas não os habilita para o ofício da escrita fictícia – sabem estar habilitados para a escrita crítica, e isso lhes basta. Infortúnio é quando o crítico teórico não se satisfaz com seu lugar e resolve sentar na poltrona prática do escritor. Paulo Francis podia ter em mente um extenso manual com regras sobre o escrever literário – mas poupar sua ficção das conjunções adversativas com as quais não simpatizava não salvou em nada seu texto. Algo mais de interessante há nessa seara. Alguns dos críticos escritores que não deram certo faziam ótimo trabalho comparativo entre livros, buscando lá e acolá trechos emotivos, selecionando metáforas de perfeito encaixe, costurando uma obra chilena com uma velha ficção japonesa. Eles têm as lentes perfeitas que nenhum oftalmologista, sem ser um pouco mágico, seria capaz de prescrever. Quando a obra arriscada deles entra na roda, todavia, parece que os óculos se quebraram. Como pode o talentoso crítico que classifica todas as obras de sua biblioteca de maneira tão minuciosa e nobre escrever um texto tão ruim, lê-lo, não remendá-lo (ou destruí-lo, ou escondê-lo numa gaveta no sótão) e ainda por cima ter a cegueira explicitada ao ousar publicá-lo? Como pode ele, que é um papa dizendo “isso é bom por isso, mas eu tiraria aquilo”, não conseguir ter o mesmo senso quando se trata de algo escrito com suas próprias mãos? Deve ser a mesma moléstia que acomete pais que têm filhos mal-educados e mesmo assim propagam sua autoproclamada competência em elencar os defeitos nos monstrinhos alheios.

Outras vezes um leitor de meia dúzia de livros já se apaixona pelo ofício – ou pela pompa que o ofício traz – e começa a escrever qualquer coisa “fabulosa, de impacto”. Já fui uma adolescente que queria escrever, sei o que é isso. Mas há pessoas prepotentes de cinquenta anos que parecem ainda não ter saído dessa fase. Há exceções: basta olhar quantas obras da consagrada literatura clássica universal foram escritas por escritores imberbes. Alguma cautela e modéstia para não se pensar uma das exceções ou “o novo Rimbaud” nessas ocasiões de abundância criadora faz bem. 

Um livro – ou o escritor inteiro – pode ser ruim por não atentar ao conselho de André Gide, que já expus aqui como uma das máximas que me martelam: não é com bons sentimentos que se faz boa literatura. Olhos d'água, de Conceição Evaristo, é isso – um ouvido mouco para o aviso de Gide. Conceição Evaristo é mulher, negra, começou a vida como empregada doméstica e hoje é doutora em literatura comparada pela UFF. Foi ovacionada na última FLIP e seu Olhos d'água é recomendação de leitura para o vestibular da UFSC. Nesse livro de contos, os protagonistas são negros. Eles sofrem, padecem de injustiças, morrem (são mortos). Um currículo e tanto para uma escritora e para um livro. Mesmo assim, não é boa literatura. É, aliás, um dos piores livros que li nos últimos anos. 

Primeiro, o básico, que vou considerar aqui desimportante perto do conjunto de problemas. Há erros de português feios em Olhos d'água. O movimento negro se erguerá e bradará que isso não é relevante, que a literatura tem licença gramatical, que me apego a coisinhas. Poderia ser tudo verdade, se o caso fosse diferente. Conceição Evaristo não diferencia o “porque junto” do “por que separado”; escreve frases como “não sabia porque tinha feito aquilo” – e isso tudo quando é alguém externo (ela) que narra a vida dos personagens. Não há a desculpa de que “é porque o personagem é simples, não sabe pensar gramaticalmente, e foi proposital ressaltar isso no suposto erro”. Não é o personagem simples que narra para ele ter a licença da simplicidade para errar, tanto é que não há crítica nenhuma a ser feita quando em diálogos não há nenhuma consideração à norma culta. Eu também não criticaria se o narrador quisesse começar uma frase com “lhe pareceu”, porque isso soa como um narrador que conta uma história de maneira oral. Pela oralidade, não há diferença entre “porque junto” e “por que separado”, então o narrador pode muito bem escrever da forma correta que o ouvinte entenderá da forma como quiser. Mas o narrador (que não é personagem) escreve, eu (que não sou mera ouvinte) leio – num episódio como esse, escrever errado é birra de quem não tem a sensibilidade literária de entender quando é que o coloquialismo serve e quando é que a norma culta cabe. No conto O cooper de Cida, o personagem (que não é quem narra) pensa: “ela estava atrazadérrima”, com z. Se esse personagem estivesse escrevendo, o erro de grafia seria cabível. Não, o personagem pensa a palavra “atrazadérrima”. Quem pensa dentro da ficção pode pensar com erros que seriam captados pelo ouvido (Vidas Secas, Sagarana), erros que seriam de pronúncia e composição – Conceição se atreve: o personagem dela até pensa com erros de grafia. Eu não vejo isso como “audácia, novidade”, e sim como inépcia. A escritora força erros de português em lugares inadequados para que sua literatura seja popular, de minoria, do jeito que a vida é, et cetera. Sua militância atrapalha a construção de seu estilo. Para a publicação desse livro, imagino duas possibilidades de cena. Numa, Conceição entrega o original e os encarregados – Editora Pallas e Fundação Biblioteca Nacional – leem, mas não consertam nada “porque deve ser assim mesmo”; o revisor só lê o texto para averiguar se não há problemas de diagramação e manda imprimir. Na outra cena (que acho a mais provável), Conceição entrega o original e já anuncia que há erros de português, mas que é isso mesmo, que todos foram pensados e colocados deliberadamente nas histórias. O horror, reitero, não são os erros: são os erros nos lugares inapropriados, como a atitude de uma rebelde amadora que quer afrontar a norma culta da maneira mais aloprada possível. Não, o fato de Conceição Evaristo ser graduada em Letras, mestra em Literatura Brasileira e doutora em Literatura Comparada não a impede de ser uma rebelde amadora ao escrever a própria ficção. 

Os contos de Olhos d'água são curtos. Não há tempo nem encanto para se afeiçoar aos personagens – a menos, é claro, que você esteja predisposto a gostar da obra por motivos ideológicos, mas aí, também é claro, esse meu juízo servirá somente para sua raiva, porque quem tem motivações ideológicas nunca será capaz de usar uma balança com os pesos corretos. Os personagens são mal descritos, são superficiais, e Conceição força que o leitor se afeiçoe a eles por pena. Pena porque são negros, pobres, sofrem. É quase constrangedor, mas poderia ser pior se fosse numa entrevista de emprego para trabalhar numa ONG: você não gosta do que lê, mas não pode declarar, porque será acusado de reprodutor de branquismo, opressor, frio, não entendedor do que o racismo no Brasil faz o negro passar e outras apelações para quem não consegue ouvir um “não” ou um “a despeito da sua vivência, você escreve mal demais”. Na síntese após chamada de matéria na Carta Capital, fala-se de Conceição: “uma das convidadas da FLIP, a autora atribui suas publicações tardias ao racismo institucional que se reflete na literatura”. Eu, tendo lido apenas Olhos d'água, já acho Conceição incompetente para a ficção. Mas se digo isso a ela terei que ouvir sobre racismo em vez de ouvir sobre qualidade literária, que é uma coisa simplíssima que as histórias dela não têm. Isso explica o grande alerta sobre o perigo da militância fanática dentro da arte. Machado de Assis, negro, pode até ter sido embranquecido pela história passada para poder figurar sem polêmica na relação dos gênios, mas não foi eliminado do círculo, não teve as obras ofuscadas, não deixou de ser elogiado, não teve seu assento na ABL retirado antes da posse. Machado prosperou apesar do racismo porque era de qualidade. E mais: não precisou da bengala da misericórdia para crescer como escritor, para ter alcance à nata intelectual. Ninguém precisou ter dó de um personagem de Machado para dar a saraivada de aplausos que ele merecia. Num país racista, talvez Machado pudesse ter vivido a necessidade de se humilhar em explicações tácitas: "apesar de negro, escrevo bem". Conceição inverte e fala mais sobre sua condição de minoria do que sobre sua literatura quando é convidada a apresentar sua literatura. Ela pede, tacitamente: "apesar de escrever mal, sou negra". 

É tudo verdade: negros (e principalmente mulheres negras) tiveram dificuldade para ascender à esfera literária porque uma vida de racismo e pobreza não atrai livros, intelectualidade, oportunidades melhores; teríamos mais escritores negros no Brasil caso não existisse um passado tão opressivo (sem passado opressivo, talvez tivéssemos menos negros no Brasil, já que a maior parte dos que aqui estão são filhos da escravidão); se o negro pudesse frequentar espaços privilegiados em condição de igualdade com os brancos a literatura nacional teria enriquecido muito. É tudo verdade. Mas nenhum desses fatos fará com que se torne verdade que Conceição Evaristo escreve bem. 

Em Di Lixão, de quatro páginas – fonte robusta, espaçamento folgado –, o personagem que dá nome ao conto é um rapaz que vive na rua. Passado ruim, viu a mãe morrer e ao se lembrar dela pensou “ainda bem que aquela puta tinha morrido!” E sua história nas mãos de Conceição termina assim:

"Fez um esforço. Sentou. Pegou a bimbinha dolorida e fez xixi. Assustou-se. Estava urinando sangue. Passou a língua no canto da boca. O carocinho latejou. Num gesto coragem-desespero levou o dedo em cima da bola de pus e apertou-a contra a gengiva. Cuspiu pus e sangue. Tudo doía. A boca, a bimbinha, a vida... Deitou novamente, retomando a posição de feto. Já eram sete horas da manhã. Um transeunte passou e teve a impressão de que o garoto estava morto. Um filete de sangue escorria de sua boca entreaberta. Às nove horas o rabecão da polícia veio recolher o cadáver. O menino era conhecido ali na área. Tinha a mania de chutar os latões de lixo e por isso ganhara o apelido. Sim! Aquele era o Di Lixão. Di Lixão havia morrido."

Seu papel como leitor é sentir pena de Di Lixão tendo por base essas frases secas. Ele morre, veja. Sua história termina com sua morte. Onde está seu coração? Então, no conto seguinte, Lumbiá, que não chega a cinco páginas de texto, há esse desfecho: 

"O sinal! O carro! Lumbiá! Pivete! Criança! Erê, Jesus Menino. Amassados, massacrados, quebrados! Deus-menino, Lumbiá morreu!"

Conceição é a Agatha Christie brasileira, matando gente a rodo. 

Em outro conto, a personagem é assassinada. Em outro conto, ocorre um suicídio coletivo. O que se quer tanto apelando para essa matança? 

Abate-se sobre mim muito desânimo quando leio um livro que o autor pareceu não saber como acabar. Recorre-se, nesse caso, ao amor, à pressa, a um final supostamente proposital como um soco dado na parede de uma sala vazia e escura. O Mestre e Margarida, de Bulgákov, ia muito bem e transcorria como um feitiço. Até que aparece Margarida, aparentando resolver o desenrolar de uma trama que não sabia onde se enfiar. Quando comecei Demian, de Hermann Hesse, pensei que seria um dos livros da minha vida. E quando você acha um livro que parece que vai ser o da sua vida, você se torna infante outra vez: dança abraçada com o livro, acende velas, beberica um vinho enquanto alisa a capa do livro, como se se preparasse para um evento no paraíso, “somos você e eu, meu livrinho, esta noite”. Até que Hesse pareceu não saber que tipo de encaminhamento dar a uma relação entre dois jovens – e fez surgir uma mulher. Antes dela, aparecem seus fascínios como prenúncio, e já ali o romance morrera. No Éden as coisas passam a ser mais empolgantes com a aparição de Eva; nessas literaturas, a mulher que surge mata a pureza das relações. 

Dirão que sou contra o amor e as paixonites, o que é uma mentira: sou contra o amor como recurso desesperado para desentalar uma trama ou encerrar uma história. Werther, de Goethe, é amor meloso, dramático, que se arrasta no chão enquanto geme – e é ótimo. O amor não apareceu como expediente para salvar “algo que já está adiantado no escrever, então vamos aí”: o amor é o tema da obra toda. Leitores se mataram depois de ler Werther, é uma temática de amor que envenena, adoece desde o início. 

Na autobiografia Os fatos, de Philip Roth, há um ritmo de narrativa. Digamos: 1, 3, 5, 7… Ao ver que o livro está para terminar, pela quantidade de folhas que sobram na minha mão direita, questiono: “como vai terminar essa história de vida que parece não estar nem na metade?” Termina de jeito aloucado: o ritmo que ia em razão dois – 67, 69, 71, 73 – passa a ser 102, 133, 157, 184, 205. Roth não sabe como terminar sua história, apressa-se e depois ainda tem a cara de pau psicanalítica de colocar um antigo personagem para afrontá-lo sobre a forma como ele narrou a história e a forma como terminou o livro! Pior que essa estratégia, só a dos pintores abstratos, dadaístas e pós-modernos colocando bagunça na tela e justificando, com ares empolados, inventados sentidos. 

Assim, há quem se desespere com a própria história enfiando amor dentro dela, há quem a atropele em velocidade e há quem, como Conceição Evaristo, mate um personagem atrás do outro. “Isso é para que as pessoas tenham ciência de quantos negros morrem.” Não, isso é para quem não entendeu que estudar muito a literatura não habilita a fazer boa literatura. 

Má literatura me causa mal estar físico, e é por isso que nunca mais tentei ler Clarice Lispector. Conceição entrou para a listinha. 

*

Submissão, de Michel Houellebecq, foi chamado de “o livro mais polêmico do ano”. François é um professor universitário especialista na obra de J. K. Huysmans que vê a ascensão, na França, de um candidato da Fraternidade Muçulmana. Escrito no auge das ondas migratórias para a Europa, o livro havia mesmo de causar algum estardalhaço. Foi comparado a 1984, de Orwell, e Admirável mundo novo, de Huxley, e mesmo assim resolvi lê-lo – francamente, não gosto muito de distopias e achei Admirável mundo novo uma história enfadonha. 

Na primeira página, o personagem faz uma crítica aos “que concluem seus estudos” e adentram o ciclo ambicioso, “hipnotizados que estão pela ânsia do dinheiro”. Depois disso, mais sentenças idiossincráticas, como na terceira página: 

“(…) um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias.” 

Não concordo. Não quero encontrar os autores que leio, porque sei que o que leio é o sumo do que melhor veio das pessoas que leio, e pessoalmente um bom autor pode ser exaustivo, arrogante, ter mau hálito crônico. Mas François vai se criando e aparecendo como um personagem cheio de teorias, e isso pode levar a uma química literária. 

Poucas páginas depois, no começo do segundo bloco de parágrafos (não sei se posso chamar de capítulo), uma análise que me seduz: 

“Os estudos universitários no campo das letras não levam, como se sabe, praticamente a nada, a não ser, para os estudantes mais dotados, a uma carreira de ensino universitário no campo das letras – em suma, temos a situação um tanto cômica de um sistema sem outro objetivo além de sua própria reprodução, acompanhado por uma taxa de não aproveitamento não superior a noventa e cinco por cento. Esses estudos no entanto não são nocivos e podem até apresentar uma utilidade marginal. Uma moça que procure um emprego de vendedora na Céline ou na Hermès deverá naturalmente, e em primeiríssimo lugar, cuidar de sua aparência; mas uma graduação ou um mestrado em letras modernas poderá constituir um trunfo secundário que garanta ao patrão, na falta de competências mais aproveitáveis, uma certa agilidade intelectual que pressagie a possibilidade de uma evolução na carreira – a literatura, além do mais, vem desde sempre acompanhada de uma conotação positiva no ramo da indústria do luxo.” 

A franqueza somada com o início de uma descrição solta sobre as mulheres que passaram por sua cama fez com que eu pensasse que François era o novo Alexander Portnoy – e me senti adolescente de novo, quando me apaixonava com muita facilidade. E em todas as vezes em que me apaixonei com muita facilidade, senti decepção logo depois: assim foi com François. 

Os trechos do começo do livro que cito, e outros, foram marcados a lápis. Vou lendo as primeiras páginas, fisgo trechos interessantes, e se chego por volta da página 30 e percebo que o livro está valendo a pena, busco minha lapiseira (ali em cima escrevi “a lápis” por mera expressão, pois quase nunca uso lápis), marco o que ficou para trás e me preparo para marcar o que virá. Acontece porque se ali na página 30 o livro está confortável, penso “é esse!” e acredito que teremos um futuro promissor. Com as marcações que faço num livro já é possível saber muito sobre a leitura que fiz. Um estranho que abra meu exemplar de Submissão verá que o grosso das minhas sinalizações está antes da página 60. Depois dali, pode achar que abandonei a leitura ou pulei partes. Não abandonei a leitura (devia), nem pulei partes (se for para pular partes, abandono a leitura; ou leio tudo ou nem leio mais). Por quê? Porque Houellebecq parece ter concentrado o que havia de talentoso em sua escrita para colocar na narração de François nas primeiras 60 páginas do livro. Depois, a trama se dilui. O auge da história – um muçulmano tomando o poder na França – ocorre depois, mas não tem quase nada que valha a pena apontar. Brochante.

Pensou-se que Submissão teria muito a tratar sobre a possível aparição de um muçulmano “radical” no poder de um importante país europeu. Tudo o que vem após Mohammed Ben Abbes vencer o pleito é tralálá, como se Houellebecq – um nas primeiras dezenas de páginas do livro, outro depois – tivesse contratado um estudante universitário tido como criativo para terminar a história por ele. Pessoas perdem cargos em universidades, mas de maneira suave. Homens passam a ter algumas esposas, e começam a desposar meninas, mas de maneira suave. François tem sua vida mudada, mas de maneira suave. “Então é provável que o autor quisesse que tudo ficasse suave, naturalizado.” Faz sentido, mas o resultado ficou ruim, artificial. Depois de tanta modorra, só voltei a me ligar a François por segundos quando ele declarou ter disidrose, enfermidade que também tenho. Fora isso, perdoem-me os idosos que me leem, a obra se torna sacal. Haveria tanto assunto sobre o poderio islâmico se alastrando pela França e o escritor não se detém nisso, não leva a sério o livro que escreve, vai falando sobre o novo ar francês possivelmente após voltar de uma festinha com open bar – “ah, deixa eu escrever mais um pouquinho dessa história aqui” –, sem engajamento com o ritmo, o tom, os cortes entre cada página de diário de François. Sua matemática não funciona. Terminei e me recordei como foi ruim – e dolorido – ver Silêncio (Silence, 2016), do Scorsese. Nas duas experiências, inquiri: “o que foi que aconteceu aqui que fez tudo dar tão errado?”

O que salvo de Submissão foi o final, criativo por brincar com o tempo e gerar dúvida, algo como o final da novela Torre de Babel. François não admite que aderiu à corrente muçulmana à qual todos estão aderindo para participar melhor do mundo social. Ele usa o futuro do pretérito do indicativo, que “se refere a um fato que poderia ter acontecido posteriormente a uma situação passada”(*). Estivemos com François no passado. E no presente ele nos deixa “no ar” sobre o que poderia ter acontecido com sua vida: ele “seria”, “estaria”, tornaria” – tudo possibilidades caso tivesse se convertido de fato, coisa que não temos certeza de que fez. E encerra: “eu nada teria do que me lamentar”.

Submissão decepciona principalmente por gerar um efeito de precipício entre expectativa e realidade. Esperou-se que fosse um livro a colocar o dedo na ferida sobre islamismo. O autor se promoveu com a ameaça "olhem, olhem, vou cavoucar a ferida muçulmana!". As editoras compraram a ideia e fizeram com que conquistasse terreno, até como estratégia de vendas. Mas no fim não há um muçulmano sério que possa se ofender com o livro de Houellebecq. Esse é o autêntico cão que ladra e não morde. Imaginei, antes de lê-lo e ciente apenas da sua propaganda, que o autor se tornaria o novo Salman Rushdie, ameaçado de morte por quem se pensa intocável em suas ideias. Isso não aconteceu e não acontecerá. Houellebecq permanece na segurança e no conforto de seu lar, possivelmente acenando para o vizinho muçulmano que achou sua obra "divertida". Comparar esse texto a 1984, que causa agonia pelo tamanho horror, é escancarar para o mundo uma ignorância que ficaria bonitinha, oculta, se não tivesse língua para falar nem dedos para digitar tal contrassenso. 

Felizmente não sou a única a ver – e dizer – que o rei está nu (não me interessam os diplomas do rei ou seus prêmios: Houellebecq e Conceição Evaristo foram premiados e eu me preocupo tanto com eles quanto com os premiadores). Ao dar somente uma estrela ao livro na Amazon, um leitor resume bem a sensação de quem lê Submissão: “O livro é uma fraude extremamente bem urdida por uma boa campanha de marketing. Dinheiro absolutamente desperdiçado.” Outro fala numa frase o que eu queria ter dito em todas as linhas que escrevi: “Uma ótima ideia que não poderia ser mais mal desenvolvida. História fraca em que vários elementos não conversam. Não recomendo.” Já a resenha que está no topo, com cinco estrelas, é intitulada: “a mesquinharia humana elevada ao sublime”. O livro de Conceição na Amazon? Só elogios, como "é um livro que respira por nossos olhos". Tem gente que vê no rei até mais roupas do que ele mesmo pensa estar vestindo. E várias outras pessoas, entusiasmadas e levadas por correntezas, também querem viajar nesse balão.

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NOTAS

1. Escrevi esta postagem ouvindo Drinking Electricity – Discord dance no repeat. Aviso porque às vezes podem pensar que pela aspereza devo escrever ao som de Darkthrone ou Destruction. Não. Estou aqui muito tranquila ouvindo cold wave. 

2. Quando critico um livro, não o faço esperando que as pessoas não o leiam, não o faço para desmotivar a leitura. Mesmo quem leva em conta minha opinião – obrigada – deve, se tiver tempo e se for possível, ler esses livros que destruo. O que espero é que as pessoas não gastem dinheiro com esse tipo de livro. É um alerta: “Cuidado! Não jogue seu dinheiro no lixo!” Não porque eu seja apegada a dinheiro – não sou, nunca fui –, mas porque acho que autor/editora não merecem ganhar mais dinheiro em cima de uma obra ruim. Há muitas bibliotecas públicas com acervo amplo, há livrarias que permitem que se folheiem os livros à venda. Vão lá e leiam excertos antes de fazer uma compra apressada. Uma das funções de uma biblioteca é antecipar o que poderia ter sido uma aquisição ruim para você.

3. Minha disidrose é apenas no dedo mindinho da mão direita. E nem sempre se manifesta. Não tem cura. Mas não é contagiosa.