quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Ponderações sobre má literatura: os casos de Olhos d'água, de Conceição Evaristo, e Submissão, de Michel Houellebecq


Caso alguém tenha parado para estudar minha conduta, verá que sempre critico pessoas e elogio livros. Não costumo conceder espaço para a crítica a um livro específico; em vez disso, estou aqui e ali recomendando leituras. Pontualmente já amaldiçoei Foucault – vaidoso, pedante e megalomaníaco –, Clarice Lispector – fraca, pretensiosa e confundindo desvario com surrealismo – e Lacan – charlatão, complicador e maçante –, mas nenhum deles e nenhuma de suas obras recebeu uma postagem própria. Desvio-me de minha conduta costumeira, agora, para falar ligeiramente sobre os livros Olhos d'água, da mineira Conceição Evaristo, e Submissão, do francês Michel Houellebecq. 

Há inúmeros fatores que levam uma ficção a ser ruim. Muitas vezes um ótimo leitor acha que essa qualidade (de ótimo leitor) o leva a ser, por corolário, um ótimo escritor, e desanda a escrever livros que ele não percebe serem horrendos. É o caso de Paulo Francis e suas tentativas de literatura. Quem via Francis criticando outros escritores – porque exuberantes, porque escolhiam termos antiquados para começar sentenças, porque de vocabulário relaxado – podia pensar “eis um homem que deve saber escrever”. Na verdade, eis um homem que prova que teoria e prática podem se distanciar com um abismo no meio. Necessariamente, saber a teoria e não saber a prática não são infortúnios. Críticos literários apontam focos de luz para obras de maneira magnífica, e vários deles sabem que seu talento para cortar excessos, acrescentar estofo, aparar arestas não os habilita para o ofício da escrita fictícia – sabem estar habilitados para a escrita crítica, e isso lhes basta. Infortúnio é quando o crítico teórico não se satisfaz com seu lugar e resolve sentar na poltrona prática do escritor. Paulo Francis podia ter em mente um extenso manual com regras sobre o escrever literário – mas poupar sua ficção das conjunções adversativas com as quais não simpatizava não salvou em nada seu texto. Algo mais de interessante há nessa seara. Alguns dos críticos escritores que não deram certo faziam ótimo trabalho comparativo entre livros, buscando lá e acolá trechos emotivos, selecionando metáforas de perfeito encaixe, costurando uma obra chilena com uma velha ficção japonesa. Eles têm as lentes perfeitas que nenhum oftalmologista, sem ser um pouco mágico, seria capaz de prescrever. Quando a obra arriscada deles entra na roda, todavia, parece que os óculos se quebraram. Como pode o talentoso crítico que classifica todas as obras de sua biblioteca de maneira tão minuciosa e nobre escrever um texto tão ruim, lê-lo, não remendá-lo (ou destruí-lo, ou escondê-lo numa gaveta no sótão) e ainda por cima ter a cegueira explicitada ao ousar publicá-lo? Como pode ele, que é um papa dizendo “isso é bom por isso, mas eu tiraria aquilo”, não conseguir ter o mesmo senso quando se trata de algo escrito com suas próprias mãos? Deve ser a mesma moléstia que acomete pais que têm filhos mal-educados e mesmo assim propagam sua autoproclamada competência em elencar os defeitos nos monstrinhos alheios.

Outras vezes um leitor de meia dúzia de livros já se apaixona pelo ofício – ou pela pompa que o ofício traz – e começa a escrever qualquer coisa “fabulosa, de impacto”. Já fui uma adolescente que queria escrever, sei o que é isso. Mas há pessoas prepotentes de cinquenta anos que parecem ainda não ter saído dessa fase. Há exceções: basta olhar quantas obras da consagrada literatura clássica universal foram escritas por escritores imberbes. Alguma cautela e modéstia para não se pensar uma das exceções ou “o novo Rimbaud” nessas ocasiões de abundância criadora faz bem. 

Um livro – ou o escritor inteiro – pode ser ruim por não atentar ao conselho de André Gide, que já expus aqui como uma das máximas que me martelam: não é com bons sentimentos que se faz boa literatura. Olhos d'água, de Conceição Evaristo, é isso – um ouvido mouco para o aviso de Gide. Conceição Evaristo é mulher, negra, começou a vida como empregada doméstica e hoje é doutora em literatura comparada pela UFF. Foi ovacionada na última FLIP e seu Olhos d'água é recomendação de leitura para o vestibular da UFSC. Nesse livro de contos, os protagonistas são negros. Eles sofrem, padecem de injustiças, morrem (são mortos). Um currículo e tanto para uma escritora e para um livro. Mesmo assim, não é boa literatura. É, aliás, um dos piores livros que li nos últimos anos. 

Primeiro, o básico, que vou considerar aqui desimportante perto do conjunto de problemas. Há erros de português feios em Olhos d'água. O movimento negro se erguerá e bradará que isso não é relevante, que a literatura tem licença gramatical, que me apego a coisinhas. Poderia ser tudo verdade, se o caso fosse diferente. Conceição Evaristo não diferencia o “porque junto” do “por que separado”; escreve frases como “não sabia porque tinha feito aquilo” – e isso tudo quando é alguém externo (ela) que narra a vida dos personagens. Não há a desculpa de que “é porque o personagem é simples, não sabe pensar gramaticalmente, e foi proposital ressaltar isso no suposto erro”. Não é o personagem simples que narra para ele ter a licença da simplicidade para errar, tanto é que não há crítica nenhuma a ser feita quando em diálogos não há nenhuma consideração à norma culta. Eu também não criticaria se o narrador quisesse começar uma frase com “lhe pareceu”, porque isso soa como um narrador que conta uma história de maneira oral. Pela oralidade, não há diferença entre “porque junto” e “por que separado”, então o narrador pode muito bem escrever da forma correta que o ouvinte entenderá da forma como quiser. Mas o narrador (que não é personagem) escreve, eu (que não sou mera ouvinte) leio – num episódio como esse, escrever errado é birra de quem não tem a sensibilidade literária de entender quando é que o coloquialismo serve e quando é que a norma culta cabe. No conto O cooper de Cida, o personagem (que não é quem narra) pensa: “ela estava atrazadérrima”, com z. Se esse personagem estivesse escrevendo, o erro de grafia seria cabível. Não, o personagem pensa a palavra “atrazadérrima”. Quem pensa dentro da ficção pode pensar com erros que seriam captados pelo ouvido (Vidas Secas, Sagarana), erros que seriam de pronúncia e composição – Conceição se atreve: o personagem dela até pensa com erros de grafia. Eu não vejo isso como “audácia, novidade”, e sim como inépcia. A escritora força erros de português em lugares inadequados para que sua literatura seja popular, de minoria, do jeito que a vida é, et cetera. Sua militância atrapalha a construção de seu estilo. Para a publicação desse livro, imagino duas possibilidades de cena. Numa, Conceição entrega o original e os encarregados – Editora Pallas e Fundação Biblioteca Nacional – leem, mas não consertam nada “porque deve ser assim mesmo”; o revisor só lê o texto para averiguar se não há problemas de diagramação e manda imprimir. Na outra cena (que acho a mais provável), Conceição entrega o original e já anuncia que há erros de português, mas que é isso mesmo, que todos foram pensados e colocados deliberadamente nas histórias. O horror, reitero, não são os erros: são os erros nos lugares inapropriados, como a atitude de uma rebelde amadora que quer afrontar a norma culta da maneira mais aloprada possível. Não, o fato de Conceição Evaristo ser graduada em Letras, mestra em Literatura Brasileira e doutora em Literatura Comparada não a impede de ser uma rebelde amadora ao escrever a própria ficção. 

Os contos de Olhos d'água são curtos. Não há tempo nem encanto para se afeiçoar aos personagens – a menos, é claro, que você esteja predisposto a gostar da obra por motivos ideológicos, mas aí, também é claro, esse meu juízo servirá somente para sua raiva, porque quem tem motivações ideológicas nunca será capaz de usar uma balança com os pesos corretos. Os personagens são mal descritos, são superficiais, e Conceição força que o leitor se afeiçoe a eles por pena. Pena porque são negros, pobres, sofrem. É quase constrangedor, mas poderia ser pior se fosse numa entrevista de emprego para trabalhar numa ONG: você não gosta do que lê, mas não pode declarar, porque será acusado de reprodutor de branquismo, opressor, frio, não entendedor do que o racismo no Brasil faz o negro passar e outras apelações para quem não consegue ouvir um “não” ou um “a despeito da sua vivência, você escreve mal demais”. Na síntese após chamada de matéria na Carta Capital, fala-se de Conceição: “uma das convidadas da FLIP, a autora atribui suas publicações tardias ao racismo institucional que se reflete na literatura”. Eu, tendo lido apenas Olhos d'água, já acho Conceição incompetente para a ficção. Mas se digo isso a ela terei que ouvir sobre racismo em vez de ouvir sobre qualidade literária, que é uma coisa simplíssima que as histórias dela não têm. Isso explica o grande alerta sobre o perigo da militância fanática dentro da arte. Machado de Assis, negro, pode até ter sido embranquecido pela história passada para poder figurar sem polêmica na relação dos gênios, mas não foi eliminado do círculo, não teve as obras ofuscadas, não deixou de ser elogiado, não teve seu assento na ABL retirado antes da posse. Machado prosperou apesar do racismo porque era de qualidade. E mais: não precisou da bengala da misericórdia para crescer como escritor, para ter alcance à nata intelectual. Ninguém precisou ter dó de um personagem de Machado para dar a saraivada de aplausos que ele merecia. Num país racista, talvez Machado pudesse ter vivido a necessidade de se humilhar em explicações tácitas: "apesar de negro, escrevo bem". Conceição inverte e fala mais sobre sua condição de minoria do que sobre sua literatura quando é convidada a apresentar sua literatura. Ela pede, tacitamente: "apesar de escrever mal, sou negra". 

É tudo verdade: negros (e principalmente mulheres negras) tiveram dificuldade para ascender à esfera literária porque uma vida de racismo e pobreza não atrai livros, intelectualidade, oportunidades melhores; teríamos mais escritores negros no Brasil caso não existisse um passado tão opressivo (sem passado opressivo, talvez tivéssemos menos negros no Brasil, já que a maior parte dos que aqui estão são filhos da escravidão); se o negro pudesse frequentar espaços privilegiados em condição de igualdade com os brancos a literatura nacional teria enriquecido muito. É tudo verdade. Mas nenhum desses fatos fará com que se torne verdade que Conceição Evaristo escreve bem. 

Em Di Lixão, de quatro páginas – fonte robusta, espaçamento folgado –, o personagem que dá nome ao conto é um rapaz que vive na rua. Passado ruim, viu a mãe morrer e ao se lembrar dela pensou “ainda bem que aquela puta tinha morrido!” E sua história nas mãos de Conceição termina assim:

"Fez um esforço. Sentou. Pegou a bimbinha dolorida e fez xixi. Assustou-se. Estava urinando sangue. Passou a língua no canto da boca. O carocinho latejou. Num gesto coragem-desespero levou o dedo em cima da bola de pus e apertou-a contra a gengiva. Cuspiu pus e sangue. Tudo doía. A boca, a bimbinha, a vida... Deitou novamente, retomando a posição de feto. Já eram sete horas da manhã. Um transeunte passou e teve a impressão de que o garoto estava morto. Um filete de sangue escorria de sua boca entreaberta. Às nove horas o rabecão da polícia veio recolher o cadáver. O menino era conhecido ali na área. Tinha a mania de chutar os latões de lixo e por isso ganhara o apelido. Sim! Aquele era o Di Lixão. Di Lixão havia morrido."

Seu papel como leitor é sentir pena de Di Lixão tendo por base essas frases secas. Ele morre, veja. Sua história termina com sua morte. Onde está seu coração? Então, no conto seguinte, Lumbiá, que não chega a cinco páginas de texto, há esse desfecho: 

"O sinal! O carro! Lumbiá! Pivete! Criança! Erê, Jesus Menino. Amassados, massacrados, quebrados! Deus-menino, Lumbiá morreu!"

Conceição é a Agatha Christie brasileira, matando gente a rodo. 

Em outro conto, a personagem é assassinada. Em outro conto, ocorre um suicídio coletivo. O que se quer tanto apelando para essa matança? 

Abate-se sobre mim muito desânimo quando leio um livro que o autor pareceu não saber como acabar. Recorre-se, nesse caso, ao amor, à pressa, a um final supostamente proposital como um soco dado na parede de uma sala vazia e escura. O Mestre e Margarida, de Bulgákov, ia muito bem e transcorria como um feitiço. Até que aparece Margarida, aparentando resolver o desenrolar de uma trama que não sabia onde se enfiar. Quando comecei Demian, de Hermann Hesse, pensei que seria um dos livros da minha vida. E quando você acha um livro que parece que vai ser o da sua vida, você se torna infante outra vez: dança abraçada com o livro, acende velas, beberica um vinho enquanto alisa a capa do livro, como se se preparasse para um evento no paraíso, “somos você e eu, meu livrinho, esta noite”. Até que Hesse pareceu não saber que tipo de encaminhamento dar a uma relação entre dois jovens – e fez surgir uma mulher. Antes dela, aparecem seus fascínios como prenúncio, e já ali o romance morrera. No Éden as coisas passam a ser mais empolgantes com a aparição de Eva; nessas literaturas, a mulher que surge mata a pureza das relações. 

Dirão que sou contra o amor e as paixonites, o que é uma mentira: sou contra o amor como recurso desesperado para desentalar uma trama ou encerrar uma história. Werther, de Goethe, é amor meloso, dramático, que se arrasta no chão enquanto geme – e é ótimo. O amor não apareceu como expediente para salvar “algo que já está adiantado no escrever, então vamos aí”: o amor é o tema da obra toda. Leitores se mataram depois de ler Werther, é uma temática de amor que envenena, adoece desde o início. 

Na autobiografia Os fatos, de Philip Roth, há um ritmo de narrativa. Digamos: 1, 3, 5, 7… Ao ver que o livro está para terminar, pela quantidade de folhas que sobram na minha mão direita, questiono: “como vai terminar essa história de vida que parece não estar nem na metade?” Termina de jeito aloucado: o ritmo que ia em razão dois – 67, 69, 71, 73 – passa a ser 102, 133, 157, 184, 205. Roth não sabe como terminar sua história, apressa-se e depois ainda tem a cara de pau psicanalítica de colocar um antigo personagem para afrontá-lo sobre a forma como ele narrou a história e a forma como terminou o livro! Pior que essa estratégia, só a dos pintores abstratos, dadaístas e pós-modernos colocando bagunça na tela e justificando, com ares empolados, inventados sentidos. 

Assim, há quem se desespere com a própria história enfiando amor dentro dela, há quem a atropele em velocidade e há quem, como Conceição Evaristo, mate um personagem atrás do outro. “Isso é para que as pessoas tenham ciência de quantos negros morrem.” Não, isso é para quem não entendeu que estudar muito a literatura não habilita a fazer boa literatura. 

Má literatura me causa mal estar físico, e é por isso que nunca mais tentei ler Clarice Lispector. Conceição entrou para a listinha. 

*

Submissão, de Michel Houellebecq, foi chamado de “o livro mais polêmico do ano”. François é um professor universitário especialista na obra de J. K. Huysmans que vê a ascensão, na França, de um candidato da Fraternidade Muçulmana. Escrito no auge das ondas migratórias para a Europa, o livro havia mesmo de causar algum estardalhaço. Foi comparado a 1984, de Orwell, e Admirável mundo novo, de Huxley, e mesmo assim resolvi lê-lo – francamente, não gosto muito de distopias e achei Admirável mundo novo uma história enfadonha. 

Na primeira página, o personagem faz uma crítica aos “que concluem seus estudos” e adentram o ciclo ambicioso, “hipnotizados que estão pela ânsia do dinheiro”. Depois disso, mais sentenças idiossincráticas, como na terceira página: 

“(…) um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias.” 

Não concordo. Não quero encontrar os autores que leio, porque sei que o que leio é o sumo do que melhor veio das pessoas que leio, e pessoalmente um bom autor pode ser exaustivo, arrogante, ter mau hálito crônico. Mas François vai se criando e aparecendo como um personagem cheio de teorias, e isso pode levar a uma química literária. 

Poucas páginas depois, no começo do segundo bloco de parágrafos (não sei se posso chamar de capítulo), uma análise que me seduz: 

“Os estudos universitários no campo das letras não levam, como se sabe, praticamente a nada, a não ser, para os estudantes mais dotados, a uma carreira de ensino universitário no campo das letras – em suma, temos a situação um tanto cômica de um sistema sem outro objetivo além de sua própria reprodução, acompanhado por uma taxa de não aproveitamento não superior a noventa e cinco por cento. Esses estudos no entanto não são nocivos e podem até apresentar uma utilidade marginal. Uma moça que procure um emprego de vendedora na Céline ou na Hermès deverá naturalmente, e em primeiríssimo lugar, cuidar de sua aparência; mas uma graduação ou um mestrado em letras modernas poderá constituir um trunfo secundário que garanta ao patrão, na falta de competências mais aproveitáveis, uma certa agilidade intelectual que pressagie a possibilidade de uma evolução na carreira – a literatura, além do mais, vem desde sempre acompanhada de uma conotação positiva no ramo da indústria do luxo.” 

A franqueza somada com o início de uma descrição solta sobre as mulheres que passaram por sua cama fez com que eu pensasse que François era o novo Alexander Portnoy – e me senti adolescente de novo, quando me apaixonava com muita facilidade. E em todas as vezes em que me apaixonei com muita facilidade, senti decepção logo depois: assim foi com François. 

Os trechos do começo do livro que cito, e outros, foram marcados a lápis. Vou lendo as primeiras páginas, fisgo trechos interessantes, e se chego por volta da página 30 e percebo que o livro está valendo a pena, busco minha lapiseira (ali em cima escrevi “a lápis” por mera expressão, pois quase nunca uso lápis), marco o que ficou para trás e me preparo para marcar o que virá. Acontece porque se ali na página 30 o livro está confortável, penso “é esse!” e acredito que teremos um futuro promissor. Com as marcações que faço num livro já é possível saber muito sobre a leitura que fiz. Um estranho que abra meu exemplar de Submissão verá que o grosso das minhas sinalizações está antes da página 60. Depois dali, pode achar que abandonei a leitura ou pulei partes. Não abandonei a leitura (devia), nem pulei partes (se for para pular partes, abandono a leitura; ou leio tudo ou nem leio mais). Por quê? Porque Houellebecq parece ter concentrado o que havia de talentoso em sua escrita para colocar na narração de François nas primeiras 60 páginas do livro. Depois, a trama se dilui. O auge da história – um muçulmano tomando o poder na França – ocorre depois, mas não tem quase nada que valha a pena apontar. Brochante.

Pensou-se que Submissão teria muito a tratar sobre a possível aparição de um muçulmano “radical” no poder de um importante país europeu. Tudo o que vem após Mohammed Ben Abbes vencer o pleito é tralálá, como se Houellebecq – um nas primeiras dezenas de páginas do livro, outro depois – tivesse contratado um estudante universitário tido como criativo para terminar a história por ele. Pessoas perdem cargos em universidades, mas de maneira suave. Homens passam a ter algumas esposas, e começam a desposar meninas, mas de maneira suave. François tem sua vida mudada, mas de maneira suave. “Então é provável que o autor quisesse que tudo ficasse suave, naturalizado.” Faz sentido, mas o resultado ficou ruim, artificial. Depois de tanta modorra, só voltei a me ligar a François por segundos quando ele declarou ter disidrose, enfermidade que também tenho. Fora isso, perdoem-me os idosos que me leem, a obra se torna sacal. Haveria tanto assunto sobre o poderio islâmico se alastrando pela França e o escritor não se detém nisso, não leva a sério o livro que escreve, vai falando sobre o novo ar francês possivelmente após voltar de uma festinha com open bar – “ah, deixa eu escrever mais um pouquinho dessa história aqui” –, sem engajamento com o ritmo, o tom, os cortes entre cada página de diário de François. Sua matemática não funciona. Terminei e me recordei como foi ruim – e dolorido – ver Silêncio (Silence, 2016), do Scorsese. Nas duas experiências, inquiri: “o que foi que aconteceu aqui que fez tudo dar tão errado?”

O que salvo de Submissão foi o final, criativo por brincar com o tempo e gerar dúvida, algo como o final da novela Torre de Babel. François não admite que aderiu à corrente muçulmana à qual todos estão aderindo para participar melhor do mundo social. Ele usa o futuro do pretérito do indicativo, que “se refere a um fato que poderia ter acontecido posteriormente a uma situação passada”(*). Estivemos com François no passado. E no presente ele nos deixa “no ar” sobre o que poderia ter acontecido com sua vida: ele “seria”, “estaria”, tornaria” – tudo possibilidades caso tivesse se convertido de fato, coisa que não temos certeza de que fez. E encerra: “eu nada teria do que me lamentar”.

Submissão decepciona principalmente por gerar um efeito de precipício entre expectativa e realidade. Esperou-se que fosse um livro a colocar o dedo na ferida sobre islamismo. O autor se promoveu com a ameaça "olhem, olhem, vou cavoucar a ferida muçulmana!". As editoras compraram a ideia e fizeram com que conquistasse terreno, até como estratégia de vendas. Mas no fim não há um muçulmano sério que possa se ofender com o livro de Houellebecq. Esse é o autêntico cão que ladra e não morde. Imaginei, antes de lê-lo e ciente apenas da sua propaganda, que o autor se tornaria o novo Salman Rushdie, ameaçado de morte por quem se pensa intocável em suas ideias. Isso não aconteceu e não acontecerá. Houellebecq permanece na segurança e no conforto de seu lar, possivelmente acenando para o vizinho muçulmano que achou sua obra "divertida". Comparar esse texto a 1984, que causa agonia pelo tamanho horror, é escancarar para o mundo uma ignorância que ficaria bonitinha, oculta, se não tivesse língua para falar nem dedos para digitar tal contrassenso. 

Felizmente não sou a única a ver – e dizer – que o rei está nu (não me interessam os diplomas do rei ou seus prêmios: Houellebecq e Conceição Evaristo foram premiados e eu me preocupo tanto com eles quanto com os premiadores). Ao dar somente uma estrela ao livro na Amazon, um leitor resume bem a sensação de quem lê Submissão: “O livro é uma fraude extremamente bem urdida por uma boa campanha de marketing. Dinheiro absolutamente desperdiçado.” Outro fala numa frase o que eu queria ter dito em todas as linhas que escrevi: “Uma ótima ideia que não poderia ser mais mal desenvolvida. História fraca em que vários elementos não conversam. Não recomendo.” Já a resenha que está no topo, com cinco estrelas, é intitulada: “a mesquinharia humana elevada ao sublime”. O livro de Conceição na Amazon? Só elogios, como "é um livro que respira por nossos olhos". Tem gente que vê no rei até mais roupas do que ele mesmo pensa estar vestindo. E várias outras pessoas, entusiasmadas e levadas por correntezas, também querem viajar nesse balão.

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NOTAS

1. Escrevi esta postagem ouvindo Drinking Electricity – Discord dance no repeat. Aviso porque às vezes podem pensar que pela aspereza devo escrever ao som de Darkthrone ou Destruction. Não. Estou aqui muito tranquila ouvindo cold wave. 

2. Quando critico um livro, não o faço esperando que as pessoas não o leiam, não o faço para desmotivar a leitura. Mesmo quem leva em conta minha opinião – obrigada – deve, se tiver tempo e se for possível, ler esses livros que destruo. O que espero é que as pessoas não gastem dinheiro com esse tipo de livro. É um alerta: “Cuidado! Não jogue seu dinheiro no lixo!” Não porque eu seja apegada a dinheiro – não sou, nunca fui –, mas porque acho que autor/editora não merecem ganhar mais dinheiro em cima de uma obra ruim. Há muitas bibliotecas públicas com acervo amplo, há livrarias que permitem que se folheiem os livros à venda. Vão lá e leiam excertos antes de fazer uma compra apressada. Uma das funções de uma biblioteca é antecipar o que poderia ter sido uma aquisição ruim para você.

3. Minha disidrose é apenas no dedo mindinho da mão direita. E nem sempre se manifesta. Não tem cura. Mas não é contagiosa.

domingo, 30 de julho de 2017

O rol das fórmulas problemáticas e outras abobrinhas


Não convivo em sociedade tanto quanto vocês, mas o pouco de convivência que experimento serve para colocar minhas antenas de fora e captar tudo o que passa com as pessoas, essas figuras interessantíssimas e gravemente defeituosas. Se nem sempre posso fruir a vida em sociedade – porque há um limite para a dissimulação defensiva –, posso ao menos aprender alguma coisa com ela, usá-la para elaborar meus textos mentais (o blog dentro da minha cabeça tem dezenas de vezes mais conteúdo que este, que frequentemente abandono às moscas) e, quando possível, tomá-la como base para criar personagens. Um dos aprendizados que tomei ao realizar tantas observações foi o de entender que todos, mesmo os mais improváveis, têm fórmulas para gerir a vida. E essas fórmulas podem ser boas, mas geralmente são equivocadas e nocivas. Quem pode ser refém delas? Qualquer um que conviva com um “formulador” contumaz. 

Sempre tive receio dos formuladores quando eles tinham algum poder sobre mim: um chefe, um professor, um atendente para serviços que necessito com urgência, um médico. O formulador, quando está muito certo da teoria fajuta que ele acredita ser aplicável de maneira radical, pode destruir minha vida ou, como dizem os coitadistas cheios de não-me-toques, “minha saúde mental”. Experimente “ter o signo errado” quando seu contratador for um aficionado por astrologia que pensa que, de acordo com a data em que nasceu, você só pode ser um problema. Experimente não gostar de crianças ou de cachorros quando tiver uma chefe – e eu ouvi isso de uma superiora – que diz a sério que “nunca é possível confiar em alguém que não goste de crianças ou cachorros”. Francisco Daudt da Veiga, psicanalista que aceitou fazer participações crônicas no modorrento programa da Fátima Bernardes, foi convidado a se retirar após o ápice de suas opiniões polêmicas: disse que não gostava de cachorros. Isso foi demais para os telespectadores, que pediram a cabeça de Daudt porque ele correspondia à fórmula do “somente uma pessoa horrível pode não gostar de cachorros”. Fórmulas como essas podem ser bem danosas, principalmente nas mãos de quem tem autoridade sobre os outros, mas o saco é muito mais fundo. Por isso apresento-lhes O rol das fórmulas problemáticas e outras abobrinhas. Os nomes próprios são somente para exemplificar, portanto são fictícios. 

“Não tenho nada contra a Wanda, ela nunca fez nada de mal para mim.” [Sobre Wanda, que todos sabem ser uma pessoa sem caráter.]

Que planeta ególatra é esse que habitamos onde uma pessoa só pode receber uma avaliação negativa minha se tiver feito algo de forma específica contra mim? Existem alguns modos de eleger alguém como ruim: a) nunca vi fazendo mal a ninguém, mas tem uma personalidade horrenda, b) fez mal considerável ou reiterado a mim, sem motivo razoável, ou c) fez mal considerável ou reiterado a alguém, pelo motivo errado e/ou sem ser uma reação a um mal feito anteriormente. Isso tudo me parece muito justo. Há, no entanto, uma parcela de indivíduos considerados íntegros, pacíficos, de boa índole, incapazes de falar mal dos outros, que se saem com essa quando se fala sobre um notório ímpio: “não tenho nada contra ele, pois nunca me fez nada”. Muito bem, vamos ao drama: Hitler nunca me fez nada. Devo deixar de ter algo contra ele por isso? E Jesus: acham ajuizado que alguém devesse ter tomado as rédeas desse homem que resolveu se opor a tanta gente que não tinha feito nada contra ele? “Jesus, por que o senhor está destruindo o comércio do povo que se instalou no templo? O que ele lhe fez de mal?” No pior dos casos, Victor Hugo entra em cena com seu “quem poupa o lobo sacrifica as ovelhas”. Ao não agirmos contra uma pessoa ruim somente porque “ela não nos fez mal particularmente”, podemos colocar em risco pessoas boas que são atingidas por ela. 

“Rogéria é uma boa pessoa, pois nunca fala mal de ninguém.”

Nem sempre “quem não fala mal de ninguém” o faz porque é budista em grau máximo; ou seja, não falar mal de ninguém pode não ser boa coisa. Há pessoas que não falam mal de outras porque têm medo de ser confrontadas – assim como há quem não furte somente porque tem medo de ser pego, e não porque aderiu ao princípio de “não tomar o que não é seu” –, porque querem ser gostadas por todos ou porque, simplesmente, são bundonas. O bundão vê alguém ameaçando um pequeno funcionário dentro de uma empresa e não denuncia “porque não quer se envolver”. O bundão vê um colega de trabalho na escola desrespeitando uma criança e fecha os olhos “porque não quer se meter em problemas”. Um mundo cheio desses bundões que não falam mal de ninguém que mereça é um mundo repleto de injustiça. Não é uma virtude você saber que uma pessoa bate o ponto e vai para casa no horário de trabalho e guardar isso consigo. Não é uma virtude você ver que um amigo está enganando outro suposto amigo apenas por interesse (dinheiro, poder, status) e deixar que o enganado pereça sem saber quem causou sua tragédia. Calar sobre uma informação que se tem pode ser um erro grave em vez de uma qualidade. 

“Cláudio era uma pessoa muito bondosa, amiga, genuína.” [Sobre Cláudio, que acabou de morrer.] 

No excelente livro Fim, da Fernanda Torres, um personagem perde o pai. Esse pai era um canalha e foi um péssimo pai. O personagem hesita um pouco, mas prossegue: convida todo mundo para participar do sepultamento do canalha que foi seu pai. Sem floreios, sem mentiras. Quando Ayrton Senna morreu, Nelson Piquet não foi ao seu enterro, para o espanto de muita gente. Espantoso seria, na verdade, se tivesse ido ao enterro de uma pessoa que detestava em vida, e se começasse a fazer um panegírico. Nós, como foi bem dito pelo Contardo Calligaris em entrevista no Roda Viva, temos essa mania estranha de elogiar os mortos, mesmo que não mereçam. (Nós não, porque eu não faço isso.) Tem meu respeito quem sabe avaliar um morto como a pessoa que foi, e não como a pessoa que fica bem que tivesse sido. Vi poucas pessoas morrerem. Todas permanecem na minha avaliação iguaizinhas ao que eram em vida. 

“Paulo dirigia embriagado na rodovia e desmaiou ao volante. Seu carro foi parar na outra pista e todos os caminhões que vinham conseguiram desviar. Não era a vez de Paulo. Se não morreu, é porque não era para ter sido.”

Esse tipo de sentença já mexe comigo porque subentende a presença de Deus, e é um Deus com um modo de operar estranho. A maioria das pessoas que acredita em Deus parece achar que o Criador é trouxa ou astigmático: Ele protegerá quem colocou o adesivo “fé” no próprio carro, Ele dará o céu a quem crê Nele mesmo que essa pessoa não faça o bem, Ele permitirá o paraíso a quem acumula posses mesmo tendo deixado claro que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus”, Ele só observa atos e não pensamentos, etc. Mas deixemos Deus um pouco para lá, nas nuvens que se confundem com sua barba. A questão é: se temos hora para morrer, por que seguir normas de segurança? Se eu já tenho um momento “que é para ser”, por que atravessarei na faixa e somente após o semáforo de pedestres ficar verde para mim? Por que evitar comer açúcar? Se nossa hora está destinada, não há o que fazer para alterá-la. Piquemos essa abobrinha e façamos um refogado com ela. 

“Foi Deus que me salvou.” [Dito por Alice, em entrevista a um repórter do jornal local, após ser a única sobrevivente num acidente de ônibus que matou 38 pessoas.] 

Falta amor, altruísmo, compaixão, bom senso nessa fala. Imaginem que sou a mãe de um rapaz que morreu no acidente. Vejo a entrevista com a única moça sobrevivente e ela diz que Deus a escolheu para permanecer viva. Não é preciso estudo de nenhum tratado de lógica da Grécia Antiga para entender que meu filho, segundo essa moça, foi morto por causa de Deus, porque Deus quis. Mesmo que seja verdade – por que essa moça está se gabando disso num momento que é tão triste para mim e mais 37 famílias? Estou passando por algo tão deprimente e ainda tenho que ouvir isso

“Estou gorda como um barril, preciso emagrecer.” [Dito por alguém ao lado de uma pessoa gorda que não começou o assunto.] 

Digamos que somente metade de quem usa essa fala nessa circunstância – estar ao lado de outra pessoa de fato gorda que não começou o assunto – seja por provocação (e há quem diga que não coloco um pouco de otimismo nas ações humanas, que só uso meu parco conhecimento psicanalítico para compreender o mal). Se você for a pessoa atingida pela provocação, tenha pena, franca pena de quem faz isso. É complexo de inferioridade tentando se mascarar com arrogância. Alguém que precise disso para se sentir bem é digno de dó e deve levar uma vidinha interna muito triste. Se você é a pessoa que faz a provocação, bem, já explanei como é a sua vida. Falemos da outra metade, dos que dizem isso sem ser uma provocação ou indireta a quem esteja em volta. Há coisas, principalmente aquelas que concernem à imagem, que não devem ser ditas em qualquer momento ou devem ser ditas de maneira educada. Ninguém é obrigado a querer estar gordo – ou com outras características que se considerem socialmente desvantajosas –, mas é uma absurda falta de educação chegar ao lado de alguém de um jeito xis e dizer, com a boca cheia, que odeia estar com características daquele jeito xis. Uma vez uma mulher de cabelo cacheado disse horrores sobre o próprio cabelo, e disse que ia morrer se não conseguisse alisá-lo “para ficar decente para sair na rua”, ao lado de um homem negro com o cabelo pixaim. Isso não é “estar só falando sobre si” ou “estar apenas expondo as próprias preocupações”, isso é falta de respeito. É como dizer: “meu cabelo é uma droga, imagine o que eu penso do seu”. Não. Se você não diz ao lado de alguém sem pernas “ah, como é bom ter pernas!”, não sugira ao lado de uma pessoa gorda – ou orelhuda, nariguda, alta demais, baixa demais, magra demais, com olheiras, com manchas no rosto, dentes feios, corcunda, idosa, voz nasalada, língua presa – que você considera horrível estar parecido com ela. E lembre-se: reclamar com visível aborrecimento “ai, como estou velho!” ao lado de alguém mais velho que você também é falta de educação, principalmente se você for jovem. Friso isso porque ocorre com uma frequência assustadora. 

“Aquilo que odiamos nos outros é aquilo que odiamos em nós mesmos.”

Qual é o cabimento dessa autoajuda de quem se formou pelo correio? Tudo bem, eu de certa forma me formei pelo correio, mas gosto de ter pensado que criei essa expressão. Primeiro, gostaria de declarar que acho bom que se ataque o ódio, em especial quando ele é contínuo. Não gostar das pessoas é uma coisa – meu livro com os nomes está no terceiro volume e segue –, odiá-las já tem a ver com um tipo de paixão cega e arrebatadora. Quem odeia vai lembrar do objeto de ódio quando acorda, quando lê um livro, quando ouve uma música que o odiado estima, chega a casa à noite e passa tempo demais reclamando para o companheiro sobre o odiado (“porque fez isso, porque é assim, porque planejou assado”), enfim: tem fixação e gasta tempo. O odiado, enquanto isso, está lá sendo feliz ou outra coisa e nem imaginando que ocupa tanto a existência de alguém que só atingirá o clímax quando vê-lo queimando no meio da praça. Discordo da fórmula “o ódio só faz mal a quem o cultiva” porque já vi muitos odiados sofrendo nas mãos daqueles que os odeiam, atuantes como se estivessem numa batalha, mas acho que o pior dano ainda fica na carga de quem sente o ódio. Assim, combater o sentimento de ódio contínuo – o abrupto nós sempre temos e pode até ser salutar para estimular a ação – é bom. Mas afirmar que aquilo que odiamos nos outros é algo que odiamos em nós… A frase não é apenas cafona. É mentirosa. Eu odeio nos outros a inação a respeito do sofrimento animal que todos conhecem (podem desconhecer a dimensão, mas sabem que o sofrimento existe). O que isso tem a ver comigo? Exatamente: nada. Não como animais, evito usar coisas que agridam animais – como se pode considerar que odeio algo em mim quando odeio a esquizofrenia moral nos outros? Odeio nos outros a incapacidade de pensar “e eu na situação dessa pessoa não faria o mesmo?” antes de começar a tecer críticas. Estou odiando algo em mim? Não, porque me pergunto se não faria o mesmo na situação da pessoa que intento criticar. Se eu faria o mesmo, paro. Se eu não faria, critico. Jesus, que está muito participante nesta página hoje, criticava características que ele “não gostava” nos outros. Estaria a atacar o que havia dentro dele? Peguem todos os grandes nomes de homens que revolucionaram o mundo de maneira virtuosa e percebam que eles “não gostavam” ou “odiavam” vários pontos naqueles que combatiam. Alguém ousará dizer que Martin Luther King criticava nos outros aquilo que ele precisava trabalhar nele mesmo? 

“Se o garoto não tivesse tentado furtar a bicicleta, não teriam tatuado uma sentença em sua testa. Se o Charlie Hebdo não tivesse provocado, os muçulmanos radicais não teriam exterminado os jornalistas.” 

Considero muito grave quando converso com alguém que demonstra não saber aplicar o princípio da proporcionalidade – que deveria reger não só o direito penal, mas nossos julgamentos – a casos que ocorrem por aí. Uma esquerda tonta e injusta disse que se justifica o atentado ao Charlie Hebdo porque “os chargistas provocaram os muçulmanos ao desenhar Maomé em posições humilhantes”. Uma direita tonta e injusta – que se aproxima daquela esquerda pela teoria da ferradura – disse que se justifica a tatuagem na testa do garoto ladrão “porque ele não deveria ter tentado furtar uma bicicleta”. Agora imaginem um mundo dominado por juízes doentes que consideram que fazer uma charge deve ter como vingança o assassinato de dez pessoas e tentar furtar uma bicicleta deve remeter ao castigo que Deus aplicou a Caim. Criticou-se tanto o olho por olho e agora temos uma versão para o século XXI que é o “olho por todos os olhos da vila onde mora o autor do primeiro delito”. O mundo não acabará cego, mas exterminado. Quem pensa “bem-feito” em ocasiões como essa nunca se coloca no lugar de quem sofre a retaliação desproporcional. Mas deveria. E se já vai se defendendo com um “eu jamais faria coisas como essas”, talvez deva abrir o leque e imaginar alguém que ame – um dos pais, um dos filhos, um amigo querido – fazendo algo errado e recebendo de “troco” uma consequência excessiva. 

“Eu apanhei na infância e estou aqui, vivo, firme e forte.” [Dito por alguém que apanhou na infância e quer justificar por que hoje acha correto que se possa “dar uns tapinhas de vez em quando” nos filhos.]

É de muito mau gosto – e uma amostra de ignorância – querer transformar casos isolados em teoria. Conheci uma mulher que não amamentou o próprio filho porque ela, quando bebê, não tinha sido amamentada e mesmo assim “tinha se desenvolvido muito bem” (na época vivia doente, não sei em que parte estava o “bom desenvolvimento”; talvez considere bom o fato de não ter ficado uma anã pela falta de aleitamento). Conheci outra mulher (para uma antissocial, conheci bastante gente, não acham?) que permanecia fumando porque sabia de senhoras na família que fumaram até a longa velhice e tinham ficado bem. Poderia elencar muitas outras histórias de conhecidos, mas acredito que já foi possível entender o ponto: sua ilha não é parâmetro para explicar os continentes. E não faz sentido que você queira que os continentes se adaptem à realidade da sua ilha. Sou contrária à palmada e otras cositas aplicadas contra crianças porque o nome claro disso é violência. Se o esposo não pode bater na esposa, que direito ele tem de bater em quem é menos capaz que a esposa – as crianças? Além disso, a palmada é uma demonstração da falta de controle. Você não consegue se impor como autoridade perante tocos de gente e recorre à agressão. O fracasso é seu. Eu por muitos dias precisei ter domínio de quinze crianças, sozinha. Na maior parte do tempo, estava acompanhada por uma colega, mas ainda assim eram seis, sete, oito crianças para cada uma. E tínhamos domínio sem poder recorrer a qualquer palmada que fosse. A situação é idêntica em milhares de outras creches espalhadas pelo país. Hoje os pais têm um ou dois filhos, perdem o controle e já querem recorrer à violência para consertar sua incompetência. De que serve a pedagogia enquanto ainda estiver valendo a surra? O mais importante aqui é que a sua história de vida, ou a história de um bocadinho de fulanos que você conheceu, não serve para explicar o globo. 

“É fácil que ativistas favoráveis ao aborto falem sobre isso quando puderam nascer. Elas não estariam aqui se a mãe delas tivesse abortado.”

Essa fala dá continuidade à anterior. Minha história pessoal não deve ser parâmetro para a história de outras pessoas. É verdade, nasci porque minha mãe não abortou. Mas se eu tiver que ser contra o aborto por ter nascido porque minha mãe não abortou, pessoas que nasceram de mulheres estupradas devem ser favoráveis à continuidade da gestação de outras mulheres que foram estupradas? Se não fosse o estupro que a mãe delas sofreu, elas não estariam aqui hoje para opinar. É a história de cada um que deve basear o ativismo por uma lei? Já dei esse exemplo anteriormente, mas repito: por parte de mãe tenho antepassados escravos, ou seja, pessoas que foram arrancadas da África para trabalhar no Brasil. É fato que minha mãe só pôde conhecer meu pai nos anos 80 porque no passado seus trisavós foram escravizados. Devo, por isso, ser a favor da escravidão vivida no Brasil porque foi por meio dela que meus pais puderam se encontrar e me dar a vida? Como é fácil para tanta gente transformar questões valiosas e grandes em discussões mesquinhas. 

Obviamente não estou imune a criar fórmulas problemáticas e proferir abobrinhas. Mas eu gosto tanto da minha companhia que todos os dias converso comigo mesma sobre diversas coisas, e esses meus erros de percurso estão entre elas. Vocês deveriam conversar consigo mesmos também. Às vezes poderão se assombrar ao ver que estão conhecendo alguém a quem nunca foram apresentados.

***

NOTAS

1. Dissimulação defensiva é aquilo que você precisa fingir ser para viver em sociedade sem ficar muito prejudicado. Ela é aceitável porque parte do pressuposto de que você não é obrigado a morrer por uma causa. É preciso observar o limite, todavia, porque em poucos passos podemos adentrar o perfil da dissimulação pura, que é nojenta, rançosa e vergonhosa. Dissimulados puros dão por aí como chuchu e muito gente não vê – ou não quer ver.

2. Coitadistas cheios de não-me-toques são os mesmos que apoiam ideias como o leitor sensível, cargo criado por algumas editoras para que personagens polêmicos sejam censurados ao ofender os valores e as frescuras de alguém prepotente que esteja do lado de cá do livro. Há um esquerdismo que ousa falar de Orwell e citar 1984 sem perceber que ele próprio, esse esquerdismo ruinoso, quer com todas as forças criar uma situação semelhante ao Grande Irmão.

3. É possível que alguém não goste de animais e seja vegano, assim como é possível que alguém não goste de crianças e mesmo assim seja a favor dos direitos da criança (ou vocês acham que os autoproclamados “não gostadores de crianças” são capazes de ver um miúdo sendo decepado e depois ir ao cinema apreciar um filme de comédia?). Apesar de ser vegana, em nada me agradam as fórmulas sobre “pessoas ruins não gostam de cachorros” ou “gente que não presta não gosta de gatos”. Pessoas ruins e que não prestam maltratam cães e gatos ou permitem que maltratem esses animais. Gostar deles é uma opção, tratá-los bem é uma obrigação. Muitos de vocês, dog lovers, permitem e pagam para que atrocidades sejam feitas com outros animais – inclusive animais mais inteligentes que os cachorros, como os porcos – e vêm posar de bonitos só porque gostam de ver um animal abanando o rabo para vocês? Patéticos.

4. Desconfiei dos elogios que o livro Fim, da Fernanda Torres, estava recebendo, e por isso fiz o download do livro digital. Li na minha primeira semana de férias, em Lisboa, quando descansava no quarto da pensão e minhas roupas secavam no varal, na janela. (Algumas cidades na Itália e em Portugal podem proporcionar essa experiência tão popular). E o livro é ótimo. Estupendo. Dá vontade de reler logo que acaba. Livros bons merecem ser comprados. Comprei o livro.

4.1. Não é que eu não acreditasse no talento da Fernanda Torres. Como atriz, é ótima. Como colunista da Folha, é impressionante. Mas ler que ela tinha escrito “sobre velhos que vivem situações tristes e cômicas no Rio de Janeiro” e ver que o livro tinha na capa uma praia cheia de guarda-sóis… Venho da literatura em que a praia serve como pano de fundo – um pano de fundo vazio – para matar um árabe, não para ambientar a vida de idosos cariocas. Li resumos e pensei “deve ser um livro que ela está escrevendo para a mãe dela”. Pensei que os tais velhos iam aparecer como caducos, jogadores de dominó e falantes compulsivos – características que muitos velhos têm em contos, crônicas e prosas brasileiras. Preconceito meu. Recomendo a leitura com louvor. 

sábado, 1 de julho de 2017

João Dória, ilusionista


O pau que bate em Chico não vai ser o mesmo que bate em Francisco, porque achincalhar certos políticos em certos contextos é como, perdão ao veganismo, chutar cachorro morto. Vejam, só valeria a pena escrever alguma coisa maior que um parágrafo sobre o Bolsonaro se a tal “juventude nordestina e centro-oestina do pá, pá, pá” e adoradores de videogame lessem meu blog. Não é o caso. Não sendo o caso, Bolsonaro é um alvo muito fácil aqui (mas se você fala às multidões não convertidas, mire nele). Só valeria a pena escrever alguma coisa maior que dois parágrafos sobre Temer – esse multifacetado, esse camaleão, esse brasileiro renitente que não renuncia de jeito nenhum por coisas que em países de maior bom senso gerariam um rápido e histórico “se é da vontade do povo e para o bem geral da nação, eu desisto” – se ele fosse louvado pelos movimentos, pelas massas, pelos que se pensam esclarecidos. Não é o caso. Aqueles que gostam de Temer e o defendem são contáveis: Marcela por associação marital, Gilmar Mendes por associação de compadrio e algumas moscas do cenário político. “Esse governo provisório é o governo provisório de um grande líder que promoverá progresso” é algo que só imagino – e talvez tenha mesmo lido algo similar – na seção de cartas da Veja, escrito por algum perdido órfão que ainda não percebeu que a revista mudou sua linha há anos. 

“E por que reclama tanto de Lula, e reclama tanto de Dilma?” Porque são tidos como heróis, como “corações valentes”, como anjos, como amantes do povo e vítimas de tramoias, como pombos solitários na ilha dos gatos, como figuras “incapazes” de fazer mal ao pobre, ao povo, ao Brasil, de colocar interesses pessoalíssimos acima do interesse coletivo. Há quem creia neles. Um amigo fanático – que considera delações como prova quando falam de Aécio, mas quando falam de Dilma são para descarte (quando a delação de uma mesma pessoa tenta incriminar os dois, esse amigo busca uma pinça e faz o minucioso trabalho de catar somente o que quer) – reitera sobre Dilma: “mesmo os delatores diziam que ela era uma santa”. Que delatores? Os delatores que meu amigo escolhe como fonte de verdade quando dizem o que ele quer ouvir. Esse amigo é ateu, mas crê em Dilma, a “santa”. Portanto, não é tão ateu. Apenas substituiu Deus por políticos. Antes crer em Deus, que pelo menos envolve um misticismo folclórico agradável a quem gosta de contos. 

Eu estava focada em desgraçar esses ídolos da esquerda pouco exigente por causa de um ímpeto iconoclasta; e por adotar um objetivo de maculação tão definido em somente uma parte da corrente acabei sendo confundida com quem não devia. Não que me importasse com a confusão, feita pelos simplistas. Mas esperei – no sentido de ter esperança, ainda que macabra – pela new face de uma direita não muito sagaz. Esse rosto viria, tinha que vir. Trajetórias nos ensinaram que não é somente a esquerda que é carente de um grande pai protetor para chamar de seu. 

Então apareceu Dória. 

Ele tinha 5% das intenções de voto. São Paulo tem problemas que são as batatas quentes que cada gestão cita, mas não resolve, e Dória se sai com essa chamada para sua campanha: “vamos aumentar a velocidade nas marginais”. Sempre estranhei os ciclos políticos paulistanos, mas decretei em casa, amadoramente: “ninguém vai votar num sujeito com esse carro-chefe”. Mal sabia eu a plata que seria despejada na campanha desse autoproclamado empresário exemplar. Fortuna para publicidade eleitoral é o cão sorvendo suco de manga na taça, pois é por causa do pedido “queremos mais dinheiro para mais publicidade, você me financia que eu te favoreço medidas provisórias e contatos?” que mais de uma centena de políticos são investigados nesse momento enquanto nós estamos aqui nesse ponto de encontro. No Brasil, vence pleito quem tem maior condição de realizar produções de cinema para o horário televisivo. Podemos entoar algum cântico de glória porque uma microrreforma impediu que permanecêssemos como os Estados Unidos, divulgando candidatos por meio de dispendiosos boné, moletom e broche, mas não somos muito melhores enquanto gastamos quase um bilhão de fundo partidário para todo esse teatro (Dilma, a santa, sancionou o aumento do valor do fundo) e ainda vemos nossos candidatos pedindo dinheiro extra a empresas. Dória, eu não percebi tão cedo, tinha tudo: um padrinho, dinheiro do partido, seu dinheiro e charlatanismo. 

Dória se reuniu no Oriente Médio com o príncipe Hamed Bin Zayed Al Nahyan (copiei e colei), que disse tê-lo recebido porque não era um político, era um gestor. Numa das vezes em que estive em Blumenau nos últimos meses, fui levar minha meia-irmã à rodoviária, de ônibus. A empresa de ônibus que agora lá está é a ficção científica dos Flintstones e o artigo de museu dos Jetsons, então comentei com minha parenta: “isso aqui está fazendo muita gente ter saudade da Glória [empresa de ônibus anterior, que caiu por incompetência e casos mal explicados]”. A senhora que estava no banco da frente se virou, vibrou com meu comentário e começou a desabonar muitos políticos, na sequência: Napoleão Bernardes (prefeito de Blumenau), Raimundo Colombo (governador de SC), Ideli Salvatti, Lula, Dilma, Temer. Concordei com tudo. Até ela vir com: “sabe quem daria um bom presidente para esse país? Aquele de São Paulo, o Dória, porque ele não é político, ele é gestor, é empresário”. Liberais alienígenas insistem em chamar a Folha de “a Foice de São Paulo”, mas a julgar pelo impeachment – que um editorial pediu –, pela vontade de reformas trabalhistas e previdenciárias – que alguns editoriais trabalharam – e pelos leitores que se mostram na seção de comentários online, o jornal não é assim tão reduto de esquerdistas. Quantos comentaristas de nomes variados promoveram louvor a Dória e a seu perfil “empreendedor”? Diversos. O que me pergunto a cada duas postagens: desde quando alguém é o que diz ser e não aquilo que é? Ninguém diz sobre si que é um invejoso, um hipócrita, um canalha, um frustrado, um folgado ou um inhenho. Como pode a palavra de Dória valer mais do que aquilo que ele de fato é? Dória ter dito que a Cracolândia tinha acabado não acabou com a Cracolândia – por que Dória dizer que ele não é político faz, para muitos, com que ele não seja um político?

A Folha criou uma plataforma para catalogar e acompanhar os “118 compromissos assumidos pelo novo prefeito de São Paulo”. Até hoje, com Dória tendo cumprido um oitavo de seu pretenso governo, só duas ações foram concluídas: 1. aumento da velocidade nas marginais, 2. liberação de carros no viaduto da Nove de Julho. O primeiro compromisso cumprido, recentemente soubemos, se deve ao fato de Dória ter pressa. Sua carteira estava suspensa por extrapolar o limite de pontos, alguns deles marcados por excesso de velocidade. Dória também se une ao falatório indigno sobre esse vento chamado “indústria da multa”. 

Não tem a ver com os pontos principais (quando me atenho só aos pontos principais?), mas gostaria de determinar: não existe uma indústria da multa instaurada da forma como Dória e seus acólitos creem. Se a regra é clara, se você sabe da regra e mesmo assim a desrespeita, e tem como corolário inevitável uma cobrança chegando à sua casa, isso não é indício da indústria da multa, mas indício da sua falta de atenção, ou da sua falta de respeito, ou da sua vontade de ser esperto. Você está cometendo uma infração de trânsito e durante ela, enquanto você acha que está se dando bem, um “marronzinho” surge abruptamente de trás de um poste – isso não é indústria da multa, isso é você sendo pego por fazer algo errado quando achou que ninguém de importância estava olhando. O que caracterizaria uma real indústria da multa? Regras que mudam o tempo todo, por exemplo. Mês retrasado não valia estacionar ali, mês passado valia e esse mês voltou a não valer – e você não sabia porque a regra é flutuante e não teve tempo honesto de acompanhá-la, e estacionou. Foi multado por isso. Teria o direito de falar de uma tal indústria da multa. Outro exemplo: você está numa estrada sem placas de limite de velocidade por um longo trecho, passa por ela a 83 e depois é multado porque o limite era 70… sendo que a última placa que havia na estrada era com limite 90. Você recorre e seu pedido é indeferido. Também nesse caso você poderia falar de uma tal indústria da multa. Recentemente, uma senhora de Santos foi indevidamente multada: na hora da ocorrência, ela estava a 620km do local onde ocorrera uma ultrapassagem ilegal. Ou seu carro foi clonado, ou o agente do DER anotou a placa errada. Anotação errada de placa é algo que pode acontecer – quem é que nunca confundiu números? –, mas o que não pode acontecer é essa senhora provar sua inocência, por vídeos do seu prédio mostrando seus horários de entrada e saída naquele dia e atestado do dentista confirmando que ela estava em consulta no momento da ocorrência, e mesmo assim ter seus recursos indeferidos porque o DER considerou as provas inconsistentes. Essa senhora será compreendida se, apesar de seu caso isolado, achar que é vítima de uma conspiração para arrecadar dinheiro a qualquer custo. Já dizia muito sobre Dória ele ser adepto do discurso da indústria da multa e ter o apoio de quem acredita em indústria da multa. 

Voltemos ao escopo: é esse homem, sobre o qual FHC declara que “não fez nada por São Paulo e só faz sucesso no celular”, esse homem que em 1/8 de seu governo concluiu apenas duas promessas fajutas, esse homem que fala coisas erradas que a gente não escreve em linhas retas, esse homem que ao ser colocado contra a parede em assuntos críticos responde com jogo de palavras e tergiversação, esse homem que disse que concluiria sua gestão em São Paulo mas já deu algumas nítidas flertadas com a ideia de ser candidato a presidente – é esse o homem louvado como “o novo”, “o presidenciável”. Já vejo uma capa da Exame com Dória: “qual é o segredo do responsável pela maior cidade do país?” Oratória e publicidade, ou seja, ilusões. 

O controverso Thoreau disse que nossas invenções são apenas brinquedos bonitos que nos distraem das coisas realmente sérias. Quando observamos um século com tanto avanço tecnológico em que as pessoas ainda se deixam hipnotizar pela propaganda – talvez eu deva substituir o “ainda se deixam” por “se deixam mais do que nunca” –, temos que concordar com ele. De nada adiantam os óculos virtuais do Google para o aprimoramento do mundo se nós possuímos cegueira política. Dória é atento ao Facebook porque sabe que a rede alicia. Dória responde a pergunta “quais seus nomes preferidos?” do Questionário Proust com “Deus e Jesus Cristo”, fazendo-se de si mesmo sem braço para o que a indagação estava de fato querendo (bastava dizer os nomes dos seus filhos, como fez Haddad), porque sabe que pode encantar religiosos com isso. Dória coloca o trabalho até a morte (diz que quer “morrer trabalhando aos cem anos”), o acordar cedo e a religiosidade como valores porque sabe que isso passa uma imagem de competência e caráter. Nenhuma dessas coisas são valores – são opções que alguns fazem –, mas Dória sabe que mesmo o sujeito preguiçoso, que dorme até tarde e é relapso com o Deus no qual acredita como amuleto de espelhinho retrovisor é seu potencial eleitor por causa dessas “virtudes” que ele afirma possuir.

Tendo implementado políticas pró-livre mercado, Reagan, o político ator, declarou: “O governo existe para nos proteger uns dos outros. O ponto em que o governo foi além dos seus limites foi quando decidiu nos proteger de nós mesmos.” É uma frase altamente laissez-faire, e eu discordo dela – e dos liberais – porque acho que as pessoas precisam ser protegidas delas mesmas, principalmente quando as decisões deixadas livres a uma maioria idiota vão influenciar a minha existência. Por que devo querer ser governada por alguém que se elegeu graças à eficiência da propaganda? Despido de enfeites, mídias sociais e clichês, o empresário que os paulistanos elegeram não é nada. 

São Paulo não é uma empresa para ser administrada como uma. Há alguns anos trabalhei, como funcionária pública, num lugar onde as chefes tomavam decisões conforme seus caprichos e não conforme os princípios da administração pública e do interesse coletivo. Estavam erradas, porque a instituição onde trabalhavam não era a “empresa” delas para que comandassem conforme seus humores e de acordo com seus gostos inconstantes, e sim um local que elas representavam temporariamente. Algo que está sob seu cuidado não é necessariamente seu. Dória parece tratar São Paulo da mesma forma. A cidade “é dele”, e ele, caprichosamente, toma medidas alopradas porque acha que está administrando uma nova empresa. É ótimo quando em um local público são adotados alguns valores da esfera privada – os melhores funcionários públicos são os que adotam a eficiência que adotariam caso suas repartições lhes pertencessem particularmente –, mas isso não justifica que um local público se transforme numa empresa privada. Não estou reclamando das possíveis privatizações de Dória. Estou reclamando de certas parcerias, bem à empresa privada, que farão com que locais públicos, que deveriam ser conservados com nossos altos tributos, se tornem a vitrine de grandes empresas – que pelo populacho talvez sejam vistas como boas quando na verdade estão sendo apenas interesseiras. Estou reclamando da “solução”, bem à empresa privada, que Dória arranjou para fazer mais gastando menos e enganando o cliente sobre a qualidade do serviço: fechou salas temáticas e bibliotecas em centros de educação infantil para que houvesse mais espaço para matricular novas crianças – e assim, quem sabe, zerar à força a fila de espera e divulgar o feito como uma promessa cumprida de sua gestão.

A história se repete. Collor foi a tragédia e Dória é a farsa. E talvez Collor tenha sido a tragédia, palavra que remete à catástrofe, porque teve alcance nacional. Enquanto Dória permanecer na prefeitura de São Paulo e não deslizar seus tentáculos para maiores poderes, podemos chamá-lo apenas de farsa, até para que a má graduação dos políticos seja justa e não use sempre um nome ou adjetivo só para todos. Mas quem impedirá que o político empreendedor se torne uma tragédia? Dória vende ilusões. Há quem compre.

***

NOTAS

1. Quase só cito a Folha porque é o jornal que assino e leio geralmente. Se precisar acompanhar com frequência outros jornais, não terei tempo de ler livros. Um jornal principal e outros pontuais bastam e já fazem minha programação de leituras atrasar. Quando estou imersa e nadando em um livro instigante, estabeleço uma temporada sem jornais para não haver desvios. Sugiro que façam o mesmo com internet, séries e companhias ruins para que terminem os livros que começam. 

2. Um dia depois de meu namorado ter me contado a história da senhora de Santos que foi indevidamente multada, recebemos uma notificação em casa: num horário em que nosso carro estava estacionado no aeroporto de Guarulhos e sobrevoávamos o Atlântico de volta ao Brasil após um mês na Europa, o departamento de trânsito municipal afirma que estávamos fazendo uma “conversão proibida” próximo ao Capão Redondo. A menos que a física quântica explique como estávamos em dois lugares ao mesmo tempo, vamos recorrer. 

3. Dória, que tem pavor do Lula – qualquer menção ao seu nome em entrevista faz Dória surtar em impropérios, procurem e verifiquem –, às vezes parece ressaltar tanto sua abstemia justamente para se contrapor ao outro, que era bom de copo. Sempre considerei injusta a “acusação” de Lula ser um beberrão. Ora, bebia em serviço? Fazia fiasco? Diante das negativas, que mal há em um presidente admitir que gosta de beber e, raios, beber? De cada dez odiadores do Lula, oito o xingam, nos três primeiros insultos, de cachaceiro. É “ladrão, canalha e cachaceiro!” ou “cachaceiro, pilantra e analfabeto!”. Abstemia não é um valor. Abstemia só é um valor para quem tem problemas com o álcool. E gostar de beber nas horas livres e não incomodar ninguém não é ter problemas com o álcool. 

4. Dória e Collor têm mais coisas em comum do que terem se apresentado como “o novo” e serem bons falantes. Os dois também gostam de Romero Britto. Na famosa entrevista concedida a Sonia Bridi – o ex-presidente é um rebatedor interessantíssimo que já entrou para minha lista de “reprováveis que vale a pena acompanhar o que dizem, porque a forma como dizem é curiosa”, junto a Gilmar Mendes e Frank Underwood –, Collor tem um artesanato de Romero atrás de si. Isso prova que dinheiro não traz consigo bom gosto. 

5. Bolsonaro, que aniversaria comigo e com Ayrton Senna – essa tríade de temperamentais faz com que uma nanopulga permaneça atrás da minha orelha a respeito da astrologia –, é desvairado, mas tem uma qualidade: todos sabem quem ele é. Para que se saiba mais sobre o que ele pensa a respeito de coisas e pessoas, talvez só colocando suas vísceras para fora. Não há surpresa, não há encenação, não há joguinhos. Nem eu nem você votaremos nele justamente porque sua autenticidade nos permite conhecer o que opina sobre a ditadura militar, os direitos humanos, o ensino público. Não corremos risco de votar errado ao não votar nele. Com tantos outros farsantes, o mesmo não acontece. Eu, por exemplo, já votei no Serra no segundo turno.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Deixar de comprar é um ato político


Eu defendo isso há anos, mas não custa repetir, já que o mundo parece tomado por surdos voluntários: no capitalismo quem manda é o consumidor, e o consumidor consciente das suas convicções deve usar o boicote comercial como ato político. Sim, há esquerdistas fanfarrões que criticam "as grandes empresas", mas estão esperando, estatólatras, por um decreto para sair da tagarelice e partir para a ação. Enquanto isso, seguem financiando McDonald's, Coca Cola e tantas outras gigantes que eles só criticam em abstrato. Seus discursos e postagens no Facebook são uma farsa comodista. É sempre fácil ser ativista quando não é necessário mudar o conforto do cotidiano para tentar coerência.

Fernando Henrique Cardoso comprou a possibilidade de reeleição no Congresso. Mas quem o reelegeu? O voto popular. O PT foi fundo na estratégia de financiar empresários com dinheiro público para criar "campeões nacionais". Mas quem foi muitas vezes responsável pela perpetuação desses escolhidos no mercado? O consumidor. Nem na pequena responsabilidade que tem o populacho é capaz de fazer diferente. Culpa governos e conchavos pelos males que o aflige, mas não consegue ir ali na urna e votar em alguém que não trate a própria campanha como produção cinematográfica (se geralmente vence o pleito quem faz os melhores filmes, já sabemos que o que vale não é o projeto de governo: basta olhar para o Dória para entender o valor da publicidade acima de qualquer realidade), e não consegue deixar de comprar produtos da Unilever em prol de pequenos empreendedores que não pretendem dominar o mundo. É muita cara de pau alguém criticar oligarquias e oligopólios enquanto paga pela permanência deles.

Nem sempre foi agradável boicotar os braços da JBS que estavam ao meu alcance. Eu não me incomodava por não comprar Friboi, Seara, Vigor, Danúbio porque todas essas marcas estavam riscadas da minha lista de "quem merece o meu dinheiro" há muito tempo. Mas então a JBS comprou as Havaianas. E tive que parar de comprar Havaianas. A JBS comprou a Mizuno. Tive que parar de comprar Mizuno. A JBS comprou a Melissa. E eu tive que deixar para lá a ideia de comprar uma sandália que tinha em vista. A JBS estava comprando tudo que eu gostava, mas eu precisava ter coerência no que me era permitido fazer. Não posso controlar o que um governo que não recebeu meu voto faz com meus impostos, mas posso deixar de comprar produtos que enriquecerão ainda mais seus proclamados vencedores. E, bem, eu não tenho interesse nenhum em, sem necessidade, ajudar na impulsão de quem explora animais e se hospeda em hotéis em NY com diárias de 52 mil reais. Também nunca me faria bem à consciência apoiar produtos de uma empresa que descaradamente comprava políticos. No âmbito da corrupção que mancha o meu país como traço cultural, se não sou parte da solução sou parte do problema. Não admito para mim um comportamento de Pôncio Pilatos. 

É revoltante o manso acordo de delação que a PGR assinou com Joesley Batista. Faz Marcelo Odebrecht parecer um injustiçado. Cria, também, um novo parâmetro: muitos que decidirem delatar daqui para frente quererão um acordo nos mesmos moldes ou em moldes parecidos com o do criminoso que não irá preso, "só delato se meu acordo for como o dos irmãos JBS". Mas a única coisa que me é possível fazer além de criticar com força a palhaçada política, jurídica, educacional que é esse país onde há terreno para um acordo desses é deixar de comprar. Não é com o meu dinheiro que Joesley, safadão porque se safa, vai manter seu império e as mordomias de sua chatíssima esposa. 

Convido o leitor, hoje, a ser congruente em suas palavras e atos. Convido o leitor a deixar de "lavar suas mãos". Torna-te responsável por aquilo que compras

NOTA: escrevo pouco porque estou de férias, viajando. Volto em junho. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Listas extraordinárias, de Shaun Usher


Não me lembro quando foi que comecei a fazer listas porque tenho a impressão de fazer listas desde sempre. Se já possuísse o conhecimento necessário e o cérebro preparado, provavelmente, recém-nascida, já teria elencado os pontos positivos e negativos da vida de bebê. O que sei é que desde a infância tenho feito listas, escritas ou mentais, sobre as coisas, muito disso influenciada pelas delícias que eu lia em livros e revistas quando alguém expressava seus gostos pessoais (ficções prediletas, nomes bonitos, medidas a tomar numa ilha). Eu pensava: “encantador isso, o sujeito ficar namorando a si mesmo criando suas listas”, porque quase todo tipo de autoenamoramento que não desandasse para o narcisismo e o esnobismo calculado me fascinava. Mas não ocorria só com listas personalíssimas. Gosto de listas estatísticas e de “procedimentos para caso este avião caia”. No meio dessa existência que é uma torrente de tópicos meus e dos outros, encontrar o livro Listas extraordinárias foi uma graça para uma madrugada divertida no sofá. 

O livro reúne listas diversas de pessoas que não se conectam sobre assuntos díspares. Há desde O dicionário do beberrão, de Benjamin Franklin, em que são listadas dezenas de expressões que servem para descrever um bêbado – “tomou o grande elixir de Hipócrates”, “arruinou a própria pança” e “está de pilequinho” são algumas delas –, até Motivos para internação no Hospital para insanos da Virgínia Ocidental, no período entre 1864 a 1869 – dentre os motivos, “induzido a entrar para o exército”, “leitura de romance” e “masturbação suprimida”. Li somente as listas que me interessavam porque o livro não é do tipo “para conhecer do cabo ao rabo”, mas do tipo “consulta”. Talvez seja uma boa ideia colocá-lo numa mesa de centro para instigar assuntos com as visitas. Melhor do que livros de arte decorativos sobre os quais ninguém sabe falar com profundidade. 

Selecionei algumas listas boas para exemplificar o tipo de lazer que o livro proporciona. No final da postagem, coloquei também algumas listas minhas. Nunca pude me denominar organizada porque a virtude da organização é vinculada somente a objetos, mas minhas listas são a prova de que sou organizada em conhecimento, pensamentos e fórmulas de conduta – um tipo de ordem que é mais importante do que ter uma mesa clean. Eu poderia determinar que da próxima vez que me perguntarem se sou organizada direi que “sim, organizada em pensamentos”, mas não o farei porque isso seria esperar intensidade de interlocutores possivelmente rasos que gargalham à toa e não compreendem sutilezas. Vida longa às listas, e mais desse tipo de cuidado privado a quem se desencantou de si mesmo numa época em que listas e diários só servem se forem jogados ao público que aplaude. 

***

Na apresentação do Listas extraordinárias, Usher faz uma lista sobre por que é bom fazermos listas. Destaco dois pontos: 

4. Todos nós somos críticos. Classificar as coisas – da melhor à pior, da maior à menor, da mais rápida à mais lenta – pode ser viciante, sem dúvida porque faz com que nos sintamos muito inteligentes.
5. O tempo é precioso. Confiando um monte de informações monótonas a listas facilmente digeríveis, temos mais tempo para nos divertir e fazer listas.

*

Num dos diários de Susan Sontag, editados postumamente por seu único filho David, havia essa lista de Regras para criar um filho. Bonito e útil, seu conjunto de regras só é estranho pelo item 10: 

1. Ser coerente.
2. Não falar sobre ele com os outros (por exemplo, contar coisas engraçadas) na presença dele. (Não deixá-lo acanhado.)
3. Não elogiá-lo por alguma coisa que eu nem consideraria boa.
4. Não repreendê-lo com aspereza por algo que ele foi autorizado a fazer.
5. Rotina diária: comer, lição de casa, banho, dentes, quarto, história, cama.
6. Não deixar que ele me monopolize quando eu estou com outras pessoas.
7. Sempre falar bem do pai dele. (Nada de caretas, suspiros, impaciência, etc.)
8. Não desencorajar as fantasias infantis.
9. Ensinar-lhe que existe um mundo dos adultos que não é da conta dele.
10. Não supor que aquilo que eu não gosto de fazer (banho, lavar o cabelo) ele também não gosta.

*

Os pecados de Newton. Lista que Isaac Newton escreveu aos 19 anos. Era dirigida a Deus e confessava seus pecados. Dentre eles, “gulodice”, “desejar a morte e esperar que ela venha para algumas pessoas” e “fazer tortas no domingo à noite”. Impossível não se identificar. 

*

A lista Como a minha vida mudou, de Hilary North, que não morreu no atentado de 11 de setembro porque se atrasou para chegar ao trabalho. Ela lembra de cada colega seu que foi vitimado na tragédia e escreve coisas como:

Não posso mais sorrir para o Paul.
Não posso mais deixar a porta aberta para o Tony. 
Não posso mais fazer confidências para a Lisa.
Não posso mais reclamar do Gary. 

*

Os onze mandamentos de Henry Miller. Escritos enquanto escrevia seu primeiro romance publicado, Trópico de câncer:

1. Trabalhe numa coisa de cada vez até concluí-la.
2. Não comece a escrever outros livros, não acrescente mais nada a Primavera negra.
3. Não fique nervoso. Trabalhe com calma, com alegria, com despreocupação no que quer que seja.
4. Trabalhe de acordo com a programação e não de acordo com o humor. Pare na hora estabelecida!
5. Quando não conseguir criar, você pode trabalhar.
6. Consolide um pouco todo dia, em vez de pôr novos fertilizantes.
7. Seja humano! Procure as pessoas, frequente os lugares, beba, se tiver vontade.
8. Não seja um burro de carga! Trabalhe só com prazer.
9. Abandone a programação, quando quiser – mas retome-a no dia seguinte. Concentre. Restrinja. Exclua.
10. Esqueça os livros que você quer escrever. Pense só no livro que você está escrevendo.
11. Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.

*

Jack Kerouac, com sua lista Crença e técnica para a prosa moderna, parece ter sido lido por muitos escritores dos nossos tempos:

28. Componha loucamente, sem disciplina, puramente, saindo de dentro, quanto mais louco melhor.
29. Você é um gênio o tempo todo.

*

Estranhas ideias de Lovecraft. 222 ideias que H. P. Lovecraft compilou para uso posterior em histórias de ficção. Coisas como:

73. Ratos se multiplicam e exterminam primeiro uma cidade e depois a humanidade inteira. Aumentados em tamanho e inteligência.
97. Medo cego de uma floresta onde cursos d'água serpenteiam entre raízes tortas e onde ocorreram sacrifícios terríveis num altar enterrado – Fosforescência de árvores mortas. Chão borbulha.

*

Um decálogo liberal, por Bertrand Russell: 

Talvez se possa resumir a essência da posição liberal num novo decálogo, que não pretende substituir o velho, mas apenas suplementá-lo. Os Dez Mandamentos que, como professor, eu gostaria de divulgar, poderiam ser redigidos nos seguintes termos: 

1. Não tenha certeza absoluta de nada.
2. Não pense que vale a pena esconder provas, pois elas certamente virão à luz.
3. Nunca tente desencorajar um pensamento, pois você com certeza vai conseguir.
4. Quando encontrar oposição, ainda que seja de seu cônjuge ou de seus filhos, esforce-se para vencê-la com argumentos, e não com autoridade, pois a vitória que depende de autoridade é irreal e ilusória.
5. Não respeite a autoridade dos outros, pois sempre vai encontrar autoridades contrárias.
6. Não use o poder para calar opiniões que considera perniciosas, pois, se fizer isso, as opiniões vão calar você.
7. Não tenha medo de ser excêntrico em suas opiniões, pois toda opinião que hoje é aceita já foi excêntrica no passado.
8. Tenha mais prazer com uma dissidência inteligente do que com uma concordância passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deve, a primeira implica uma concordância mais profunda que a segunda.
9. Seja escrupulosamente verdadeiro, ainda que a verdade seja inconveniente, pois ela é mais inconveniente quando você tenta escondê-la.
10. Não tenha inveja da felicidade de quem vive num paraíso dos tolos, pois só um tolo achará que isso é felicidade.

*

Sugestões para tomar ônibus integrados. Essa lista, que não transcreverei por completo, me fez entender por que a ala delirante do movimento negro não costuma citar Martin Luther King em seus textos raivosos: porque ele não era um ativista movido pelo ódio. Luther King é um dos poucos cristãos que fazem jus ao título. Dentre seus preceitos está o de não revidar atos violentos. Negros que comemoram quando brancos são fuzilados por radicais islâmicos na França ou ficam do lado de criminosos como o Champinha (vale recordar aquele texto abominável da Marilene Felinto na Caros Amigos, em 2004) realmente não têm como idolatrar uma liderança que recomendava: “Se o xingarem, não responda. Se o empurrarem, não empurre. Se lhe derem um safanão, não revide, mas sempre demonstre amor e boa vontade.”. Claro está que mesmo com toda essa bondade Martin Luther King não perdeu dinamismo. Sua atuação pacífica não era sinônimo de inércia. Foi essa lista que me levou a um interesse maior por ele e me fez comprar sua autobiografia, publicada pela Zahar, que lerei quando voltar de férias, em junho. Segue a explicação de seu contexto e parte da lista: 

O curso da história mudou em 1º de dezembro de 1955, quando Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um passageiro branco e foi presa por isso. No ano seguinte, até os tribunais federais considerarem inconstitucional a segregação racial, ocorreu um boicote ao transporte público, liderado por Martin Luther King. Em 19 de dezembro de 1956, às vésperas de uma vitória histórica para os opositores da segregação, King elaborou uma lista de normas para aqueles que logo voltariam a tomar ônibus. 

1. Nem todos os brancos se opõem aos ônibus integrados. Aceite a boa vontade da parte de muitos.
2. Agora todos podem usar o ônibus inteiro. Sente-se no lugar vago.
3. Quando entrar no ônibus, peça ajuda ao céu e honre seu compromisso com a não violência absoluta em palavras e atos.
4. Demonstre em seus atos a calma dignidade de nossa gente em Montgomery.
5. Observe, em todos os aspectos, as regras usuais de cortesia e bom comportamento.
6. Lembre-se de que essa é uma vitória não só para os negros, mas para Montgomery e o Sul. Não se gabe! Não se vanglorie!
7. Fique quieto, porém amistoso; orgulhoso, mas não arrogante; contente, mas não ruidoso.
8. Tenha amor suficiente para absorver o mal e discernimento bastante para transformar um inimigo num amigo.

***

Agora, poucas das minhas inúmeras listas. A primeira poderia se chamar Melhores citações que estão em minha agenda 2017. São citações que fazem muito sentido para mim e tento sempre me lembrar delas para operar* coisas boas no meu cotidiano: 
[*operar é uma palavra de que gosto muito; seu problema é que foi sequestrada para uso abusivo por evangélicos e agora toda vez que a uso lembro de algum pastor] 

Pois cada qual considera claras ideias que estão no mesmo grau de confusão que as suas. 
Proust

Não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.
André Gide

Cuidado com a bondade dos maus. 
Esopo

O perverso pode mudar de aparência, mas não de hábitos. 
Esopo

Quanto mais se estende o nosso conhecimento dos bons livros, mais se reduz o círculo dos homens cuja companhia nos é agradável. 
Feuerbach

Lembra-te: nada é estável nas coisas humanas. Evita, pois, tanto a euforia na prosperidade quanto a depressão na adversidade. 
Isócrates

Comunismo é uma religião igualzinha às outras. Pra quem acredita, não precisa explicação. Pra quem não acredita, não adianta explicação. 
Millôr Fernandes

A coisa principal na vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz. 
Do Talmude

Não chegamos a conhecer as pessoas quando elas vêm a nossa casa. Devemos ir à casa delas para ver como são. 
Goethe

Os homens são geralmente tão avaros do seu dinheiro como pródigos dos seus conselhos. 
Marquês de Maricá

Quem vive contente com nada possui todas as coisas. 
Boileau

Os covardes duram mais, mas vivem menos. 
Sofocleto

Quando um chato diz “eu vou embora”, que presença de espírito!
Millôr Fernandes

*

Lista Aos meus amigos, com amor. Coisas que eu gostaria que meus amigos soubessem e entendessem: 

1. Sou contra qualquer tipo de corporativismo, seja entre profissionais ou entre amigos. Se você errou, não defenderei seu erro. Se você me conta uma história do seu ponto de vista, eu vou perguntar se não podemos olhar do ponto de vista da outra pessoa. Não espere concordância.
2. Não sei consolar ninguém. Se me trouxer um problema, direi militarmente “erga-se, ande e vamos pensando em alguma coisa para resolver isso logo”. Não vou ficar às voltas com você e seu problema. Sou sargenta com os meus problemas, serei com os seus.
3. Está triste ou depressivo? A menos que seja porque perdeu uma perna, uma pessoa querida ou está sofrendo perseguição de agiotas, não sou boa companhia. Peça-me dinheiro, mas não me peça para ouvir lamúrias.
4. Sou sua amiga. Sua. Não tenho obrigação de gostar de quem está com você de forma acessória. Não me tornei amiga da sua esposa ou do seu marido, não me tornei amiga dos seus filhos ou dos seus outros amigos. Se sou sua amiga, é porque me interessei por você. Não me obrigue a gostar de outras pessoas ligadas a você. Vou respeitá-las, é claro. Mas não tenho que gostar delas. Tanto não sou amiga dessas pessoas que, se você morrer, eu não terei mais contato com elas.
5. Só porque às vezes eu sumo não quer dizer que não pense em você. Eu penso. Muito.
6. Se você se tornar uma pessoa idiota, nós romperemos nosso relacionamento como os casais rompem o deles.
7. Você não precisa ser debochado só porque eu sou debochada. Cada um tem uma personalidade e quem foge da sua sem ser para o lado da virtude geralmente não fica bem. Se se ofender com algum deboche meu, fale. Fale, não fique mudo, nem beiçudo, nem me dando indiretas. 

*

Modismos de escrita que mancham quem escreve

1. Abuso de palavras do momento. Ex: empoderamento, resiliência.
2. Recursos especiais pedantes. Ex: usar parênteses para fazer uma palavra se transformar em duas, como em “partidarismo: uma opção (i)moral?” ou “o misógino e seus (des)afetos”. Muito comum em trabalhos acadêmicos, o que explica por que a universidade está ao lado da autoajuda barata ao derrubar árvores para transformá-las em lixo paginado. 
3. Eufemismos fajutos. Ex: desconstrução.
4. Encheção de linguiça. Não ser objetivo para parecer erudito. Subjetividade não é nem de longe sinônimo de inteligência, pensamento galante ou coisa que o valha. Uma pessoa ignorante subjetiva é algumas vezes pior que uma ignorante prática no palavreado.
5. Recorrência periódica a comparações esdrúxulas desproporcionais. Ex: “Bolsonaro é Hitler”, “Cunha é Hitler”, “Alexandre de Moraes é Hitler”, “o golpe [sic] lembra a Alemanha nazista”, enfim, “todo mundo que eu não gosto é Hitler ou se assemelha ao nazismo”.

*

Quando tinha dúvidas se pedia a mão de sua prima Emma, Darwin escreveu uma lista com prós e contras sobre o casamento (essa lista está no livro de Usher). Eu, que estou chegando naquela fase, inclusive biológica, em que se deve decidir se filhos são bons ou não, também fiz minhas listas de prós e contras. Os contras vencem de maneira evidente, mas não vou fingir que não existam prós. 

Motivos para ter filhos

1. Porque sou uma pessoa com clara cartilha educacional. Se infelizmente casais sem planos educacionais têm filhos, por que eu que tenho um método e princípios não deveria tê-los?
2. Porque sou intransigente em relação ao respeito, coisa que os pais não exigem mais: uma criança deve cumprimentar os outros, uma criança não deve interromper adultos falando, uma criança não deve ser o centro das atenções, uma criança deve ter rotina e saber que na maior parte do tempo seus progenitores não estarão abertos a suas negociações. E em público uma criança deve entender o que seus pais querem somente pelo olhar. 
3. Porque crianças são divertidas. E crianças educadas são muito bonitinhas. 
4. Porque é maravilhoso ter uma autoridade saudável sobre alguém que você ama.
5. Porque é maravilhoso brincar com crianças de igual para igual, e eu sei fazer isso sem parecer uma adulta constrangida porque está tentando fazer uma girafinha falar com voz fanha. Aliás, brincar pra valer não me causa nenhum constrangimento.
6. Porque famílias bonitas me encantam. Famílias em que os membros são amigos, comem juntos, cozinham juntos, dão suporte uns aos outros, dividem as tarefas domésticas, celebram. Não estou falando de “o grupo da família” no Whatsapp. Estou falando de comunhão presencial.
7. Porque terei quem me acompanhe ao médico quando eu usar bengala. 

Motivos para não ter filhos

1. Porque gosto muito de mim mesma para ter que dividir minha atenção com outras pessoas.
2. Porque se me meto a fazer, quero fazer bem feito. Isso significa que eu não aceitaria ser uma mãe mais ou menos. Isso significa que a maternidade tomaria muito do meu tempo e da minha energia.
3. Porque eu gosto de silêncio. Gosto de tomar café (descafeinado) na janela e esperar aviões passarem, e eu sempre apreciei poder ouvir um avião passando ao longe e perceber que tudo o mais silencia. Gosto tanto do silêncio que gosto de estar em casa e ficar calada por horas: gosto de não ouvir nada, nem ninguém, inclusive minha própria voz.
4. Porque eu gosto de ir dormir muito tarde e acordar muito tarde. Porque gosto do ar das duas horas da madrugada. Ao mesmo tempo, sempre fiz questão de, por saúde e conforto, dormir minhas 8h diárias.
5. Porque não posso devolver meus filhos caso a experiência seja mais penosa do que gratificante.
6. Porque gosto de ficar por três horas, sem interrupção, lendo um livro.
7. Porque gosto muito de ler. Porque não quero ser uma pessoa do “não tenho tempo para”. 
8. Porque eu evito trazer quaisquer pessoas novas para meu ambiente familiar e também evito entrar em novos ambientes. Porque não preciso e não me farão bem novos relacionamentos íntimos forçados. Porque não quero ter que me envolver com os pais dos colegas dos meus filhos só porque nossos filhos são amigos. Porque me corroem obrigações sociais. 
9. Porque sou ansiosa, e mesmo com as coisas mais banais. Consegui trabalhar minha ansiedade e hoje estou calma. Mas para ela voltar basta um estalo, e um filho é muito mais que um estalo, é quase uma promessa de bomba.
10. Porque com meu senso de “a família é muito importante”, a possibilidade de que meus filhos não se tornassem amigos perenes seria muito ruim para meu coração (é por esse motivo que se eu tivesse filhos minha primeira opção seria dois meninos, a segunda opção seria duas meninas e só por último viriam um menino e uma menina: amizade perene entre irmãos de sexos diferentes são muito raras, tragicamente). 
11. Porque gosto de ser livre.

*

Lista de nomes bonitos. Se existisse uma profissão chamada "aconselhadora de nomes", eu gostaria de fazer bicos nela. Acho uma dádiva meus pais terem me dado um nome bonito, pois deve ser horrível não gostar do próprio nome. Só penso que não precisavam ter me dado um nome do meio, já que meu primeiro nome é forte o suficiente e meu sobrenome é incomum. Gosto do meu nome do meio, Raquel, mas o considero desnecessário. Minha lista pessoal de nomes bonitos é formada desde a minha infância (cogitei, em certa época pueril, que um filho meu poderia se chamar Barbaro): 

Barbara, Úrsula, Rosa, Suzana, Ângela, Ângelo, Walter, Wagner, Fausto, Frederico, Francis, Bóris, Glauco, Rubens.