sábado, 1 de julho de 2017

João Dória, ilusionista


O pau que bate em Chico não vai ser o mesmo que bate em Francisco, porque achincalhar certos políticos em certos contextos é como, perdão ao veganismo, chutar cachorro morto. Vejam, só valeria a pena escrever alguma coisa maior que um parágrafo sobre o Bolsonaro se a tal “juventude nordestina e centro-oestina do pá, pá, pá” e adoradores de videogame lessem meu blog. Não é o caso. Não sendo o caso, Bolsonaro é um alvo muito fácil aqui (mas se você fala às multidões não convertidas, mire nele). Só valeria a pena escrever alguma coisa maior que dois parágrafos sobre Temer – esse multifacetado, esse camaleão, esse brasileiro renitente que não renuncia de jeito nenhum por coisas que em países de maior bom senso gerariam um rápido e histórico “se é da vontade do povo e para o bem geral da nação, eu desisto” – se ele fosse louvado pelos movimentos, pelas massas, pelos que se pensam esclarecidos. Não é o caso. Aqueles que gostam de Temer e o defendem são contáveis: Marcela por associação marital, Gilmar Mendes por associação de compadrio e algumas moscas do cenário político. “Esse governo provisório é o governo provisório de um grande líder que promoverá progresso” é algo que só imagino – e talvez tenha mesmo lido algo similar – na seção de cartas da Veja, escrito por algum perdido órfão que ainda não percebeu que a revista mudou sua linha há anos. 

“E por que reclama tanto de Lula, e reclama tanto de Dilma?” Porque são tidos como heróis, como “corações valentes”, como anjos, como amantes do povo e vítimas de tramoias, como pombos solitários na ilha dos gatos, como figuras “incapazes” de fazer mal ao pobre, ao povo, ao Brasil, de colocar interesses pessoalíssimos acima do interesse coletivo. Há quem creia neles. Um amigo fanático – que considera delações como prova quando falam de Aécio, mas quando falam de Dilma são para descarte (quando a delação de uma mesma pessoa tenta incriminar os dois, esse amigo busca uma pinça e faz o minucioso trabalho de catar somente o que quer) – reitera sobre Dilma: “mesmo os delatores diziam que ela era uma santa”. Que delatores? Os delatores que meu amigo escolhe como fonte de verdade quando dizem o que ele quer ouvir. Esse amigo é ateu, mas crê em Dilma, a “santa”. Portanto, não é tão ateu. Apenas substituiu Deus por políticos. Antes crer em Deus, que pelo menos envolve um misticismo folclórico agradável a quem gosta de contos. 

Eu estava focada em desgraçar esses ídolos da esquerda pouco exigente por causa de um ímpeto iconoclasta; e por adotar um objetivo de maculação tão definido em somente uma parte da corrente acabei sendo confundida com quem não devia. Não que me importasse com a confusão, feita pelos simplistas. Mas esperei – no sentido de ter esperança, ainda que macabra – pela new face de uma direita não muito sagaz. Esse rosto viria, tinha que vir. Trajetórias nos ensinaram que não é somente a esquerda que é carente de um grande pai protetor para chamar de seu. 

Então apareceu Dória. 

Ele tinha 5% das intenções de voto. São Paulo tem problemas que são as batatas quentes que cada gestão cita, mas não resolve, e Dória se sai com essa chamada para sua campanha: “vamos aumentar a velocidade nas marginais”. Sempre estranhei os ciclos políticos paulistanos, mas decretei em casa, amadoramente: “ninguém vai votar num sujeito com esse carro-chefe”. Mal sabia eu a plata que seria despejada na campanha desse autoproclamado empresário exemplar. Fortuna para publicidade eleitoral é o cão sorvendo suco de manga na taça, pois é por causa do pedido “queremos mais dinheiro para mais publicidade, você me financia que eu te favoreço medidas provisórias e contatos?” que mais de uma centena de políticos são investigados nesse momento enquanto nós estamos aqui nesse ponto de encontro. No Brasil, vence pleito quem tem maior condição de realizar produções de cinema para o horário televisivo. Podemos entoar algum cântico de glória porque uma microrreforma impediu que permanecêssemos como os Estados Unidos, divulgando candidatos por meio de dispendiosos boné, moletom e broche, mas não somos muito melhores enquanto gastamos quase um bilhão de fundo partidário para todo esse teatro (Dilma, a santa, sancionou o aumento do valor do fundo) e ainda vemos nossos candidatos pedindo dinheiro extra a empresas. Dória, eu não percebi tão cedo, tinha tudo: um padrinho, dinheiro do partido, seu dinheiro e charlatanismo. 

Dória se reuniu no Oriente Médio com o príncipe Hamed Bin Zayed Al Nahyan (copiei e colei), que disse tê-lo recebido porque não era um político, era um gestor. Numa das vezes em que estive em Blumenau nos últimos meses, fui levar minha meia-irmã à rodoviária, de ônibus. A empresa de ônibus que agora lá está é a ficção científica dos Flintstones e o artigo de museu dos Jetsons, então comentei com minha parenta: “isso aqui está fazendo muita gente ter saudade da Glória [empresa de ônibus anterior, que caiu por incompetência e casos mal explicados]”. A senhora que estava no banco da frente se virou, vibrou com meu comentário e começou a desabonar muitos políticos, na sequência: Napoleão Bernardes (prefeito de Blumenau), Raimundo Colombo (governador de SC), Ideli Salvatti, Lula, Dilma, Temer. Concordei com tudo. Até ela vir com: “sabe quem daria um bom presidente para esse país? Aquele de São Paulo, o Dória, porque ele não é político, ele é gestor, é empresário”. Liberais alienígenas insistem em chamar a Folha de “a Foice de São Paulo”, mas a julgar pelo impeachment – que um editorial pediu –, pela vontade de reformas trabalhistas e previdenciárias – que alguns editoriais trabalharam – e pelos leitores que se mostram na seção de comentários online, o jornal não é assim tão reduto de esquerdistas. Quantos comentaristas de nomes variados promoveram louvor a Dória e a seu perfil “empreendedor”? Diversos. O que me pergunto a cada duas postagens: desde quando alguém é o que diz ser e não aquilo que é? Ninguém diz sobre si que é um invejoso, um hipócrita, um canalha, um frustrado, um folgado ou um inhenho. Como pode a palavra de Dória valer mais do que aquilo que ele de fato é? Dória ter dito que a Cracolândia tinha acabado não acabou com a Cracolândia – por que Dória dizer que ele não é político faz, para muitos, com que ele não seja um político?

A Folha criou uma plataforma para catalogar e acompanhar os “118 compromissos assumidos pelo novo prefeito de São Paulo”. Até hoje, com Dória tendo cumprido um oitavo de seu pretenso governo, só duas ações foram concluídas: 1. aumento da velocidade nas marginais, 2. liberação de carros no viaduto da Nove de Julho. O primeiro compromisso cumprido, recentemente soubemos, se deve ao fato de Dória ter pressa. Sua carteira estava suspensa por extrapolar o limite de pontos, alguns deles marcados por excesso de velocidade. Dória também se une ao falatório indigno sobre esse vento chamado “indústria da multa”. 

Não tem a ver com os pontos principais (quando me atenho só aos pontos principais?), mas gostaria de determinar: não existe uma indústria da multa instaurada da forma como Dória e seus acólitos creem. Se a regra é clara, se você sabe da regra e mesmo assim a desrespeita, e tem como corolário inevitável uma cobrança chegando à sua casa, isso não é indício da indústria da multa, mas indício da sua falta de atenção, ou da sua falta de respeito, ou da sua vontade de ser esperto. Você está cometendo uma infração de trânsito e durante ela, enquanto você acha que está se dando bem, um “marronzinho” surge abruptamente de trás de um poste – isso não é indústria da multa, isso é você sendo pego por fazer algo errado quando achou que ninguém de importância estava olhando. O que caracterizaria uma real indústria da multa? Regras que mudam o tempo todo, por exemplo. Mês retrasado não valia estacionar ali, mês passado valia e esse mês voltou a não valer – e você não sabia porque a regra é flutuante e não teve tempo honesto de acompanhá-la, e estacionou. Foi multado por isso. Teria o direito de falar de uma tal indústria da multa. Outro exemplo: você está numa estrada sem placas de limite de velocidade por um longo trecho, passa por ela a 83 e depois é multado porque o limite era 70… sendo que a última placa que havia na estrada era com limite 90. Você recorre e seu pedido é indeferido. Também nesse caso você poderia falar de uma tal indústria da multa. Recentemente, uma senhora de Santos foi indevidamente multada: na hora da ocorrência, ela estava a 620km do local onde ocorrera uma ultrapassagem ilegal. Ou seu carro foi clonado, ou o agente do DER anotou a placa errada. Anotação errada de placa é algo que pode acontecer – quem é que nunca confundiu números? –, mas o que não pode acontecer é essa senhora provar sua inocência, por vídeos do seu prédio mostrando seus horários de entrada e saída naquele dia e atestado do dentista confirmando que ela estava em consulta no momento da ocorrência, e mesmo assim ter seus recursos indeferidos porque o DER considerou as provas inconsistentes. Essa senhora será compreendida se, apesar de seu caso isolado, achar que é vítima de uma conspiração para arrecadar dinheiro a qualquer custo. Já dizia muito sobre Dória ele ser adepto do discurso da indústria da multa e ter o apoio de quem acredita em indústria da multa. 

Voltemos ao escopo: é esse homem, sobre o qual FHC declara que “não fez nada por São Paulo e só faz sucesso no celular”, esse homem que em 1/8 de seu governo concluiu apenas duas promessas fajutas, esse homem que fala coisas erradas que a gente não escreve em linhas retas, esse homem que ao ser colocado contra a parede em assuntos críticos responde com jogo de palavras e tergiversação, esse homem que disse que concluiria sua gestão em São Paulo mas já deu algumas nítidas flertadas com a ideia de ser candidato a presidente – é esse o homem louvado como “o novo”, “o presidenciável”. Já vejo uma capa da Exame com Dória: “qual é o segredo do responsável pela maior cidade do país?” Oratória e publicidade, ou seja, ilusões. 

O controverso Thoreau disse que nossas invenções são apenas brinquedos bonitos que nos distraem das coisas realmente sérias. Quando observamos um século com tanto avanço tecnológico em que as pessoas ainda se deixam hipnotizar pela propaganda – talvez eu deva substituir o “ainda se deixam” por “se deixam mais do que nunca” –, temos que concordar com ele. De nada adiantam os óculos virtuais do Google para o aprimoramento do mundo se nós possuímos cegueira política. Dória é atento ao Facebook porque sabe que a rede alicia. Dória responde a pergunta “quais seus nomes preferidos?” do Questionário Proust com “Deus e Jesus Cristo”, fazendo-se de si mesmo sem braço para o que a indagação estava de fato querendo (bastava dizer os nomes dos seus filhos, como fez Haddad), porque sabe que pode encantar religiosos com isso. Dória coloca o trabalho até a morte (diz que quer “morrer trabalhando aos cem anos”), o acordar cedo e a religiosidade como valores porque sabe que isso passa uma imagem de competência e caráter. Nenhuma dessas coisas são valores – são opções que alguns fazem –, mas Dória sabe que mesmo o sujeito preguiçoso, que dorme até tarde e é relapso com o Deus no qual acredita como amuleto de espelhinho retrovisor é seu potencial eleitor por causa dessas “virtudes” que ele afirma possuir.

Tendo implementado políticas pró-livre mercado, Reagan, o político ator, declarou: “O governo existe para nos proteger uns dos outros. O ponto em que o governo foi além dos seus limites foi quando decidiu nos proteger de nós mesmos.” É uma frase altamente laissez-faire, e eu discordo dela – e dos liberais – porque acho que as pessoas precisam ser protegidas delas mesmas, principalmente quando as decisões deixadas livres a uma maioria idiota vão influenciar a minha existência. Por que devo querer ser governada por alguém que se elegeu graças à eficiência da propaganda? Despido de enfeites, mídias sociais e clichês, o empresário que os paulistanos elegeram não é nada. 

São Paulo não é uma empresa para ser administrada como uma. Há alguns anos trabalhei, como funcionária pública, num lugar onde as chefes tomavam decisões conforme seus caprichos e não conforme os princípios da administração pública e do interesse coletivo. Estavam erradas, porque a instituição onde trabalhavam não era a “empresa” delas para que comandassem conforme seus humores e de acordo com seus gostos inconstantes, e sim um local que elas representavam temporariamente. Algo que está sob seu cuidado não é necessariamente seu. Dória parece tratar São Paulo da mesma forma. A cidade “é dele”, e ele, caprichosamente, toma medidas alopradas porque acha que está administrando uma nova empresa. É ótimo quando em um local público são adotados alguns valores da esfera privada – os melhores funcionários públicos são os que adotam a eficiência que adotariam caso suas repartições lhes pertencessem particularmente –, mas isso não justifica que um local público se transforme numa empresa privada. Não estou reclamando das possíveis privatizações de Dória. Estou reclamando de certas parcerias, bem à empresa privada, que farão com que locais públicos, que deveriam ser conservados com nossos altos tributos, se tornem a vitrine de grandes empresas – que pelo populacho talvez sejam vistas como boas quando na verdade estão sendo apenas interesseiras. Estou reclamando da “solução”, bem à empresa privada, que Dória arranjou para fazer mais gastando menos e enganando o cliente sobre a qualidade do serviço: fechou salas temáticas e bibliotecas em centros de educação infantil para que houvesse mais espaço para matricular novas crianças – e assim, quem sabe, zerar à força a fila de espera e divulgar o feito como uma promessa cumprida de sua gestão.

A história se repete. Collor foi a tragédia e Dória é a farsa. E talvez Collor tenha sido a tragédia, palavra que remete à catástrofe, porque teve alcance nacional. Enquanto Dória permanecer na prefeitura de São Paulo e não deslizar seus tentáculos para maiores poderes, podemos chamá-lo apenas de farsa, até para que a má graduação dos políticos seja justa e não use sempre um nome ou adjetivo só para todos. Mas quem impedirá que o político empreendedor se torne uma tragédia? Dória vende ilusões. Há quem compre.

***

NOTAS

1. Quase só cito a Folha porque é o jornal que assino e leio geralmente. Se precisar acompanhar com frequência outros jornais, não terei tempo de ler livros. Um jornal principal e outros pontuais bastam e já fazem minha programação de leituras atrasar. Quando estou imersa e nadando em um livro instigante, estabeleço uma temporada sem jornais para não haver desvios. Sugiro que façam o mesmo com internet, séries e companhias ruins para que terminem os livros que começam. 

2. Um dia depois de meu namorado ter me contado a história da senhora de Santos que foi indevidamente multada, recebemos uma notificação em casa: num horário em que nosso carro estava estacionado no aeroporto de Guarulhos e sobrevoávamos o Atlântico de volta ao Brasil após um mês na Europa, o departamento de trânsito municipal afirma que estávamos fazendo uma “conversão proibida” próximo ao Capão Redondo. A menos que a física quântica explique como estávamos em dois lugares ao mesmo tempo, vamos recorrer. 

3. Dória, que tem pavor do Lula – qualquer menção ao seu nome em entrevista faz Dória surtar em impropérios, procurem e verifiquem –, às vezes parece ressaltar tanto sua abstemia justamente para se contrapor ao outro, que era bom de copo. Sempre considerei injusta a “acusação” de Lula ser um beberrão. Ora, bebia em serviço? Fazia fiasco? Diante das negativas, que mal há em um presidente admitir que gosta de beber e, raios, beber? De cada dez odiadores do Lula, oito o xingam, nos três primeiros insultos, de cachaceiro. É “ladrão, canalha e cachaceiro!” ou “cachaceiro, pilantra e analfabeto!”. Abstemia não é um valor. Abstemia só é um valor para quem tem problemas com o álcool. E gostar de beber nas horas livres e não incomodar ninguém não é ter problemas com o álcool. 

4. Dória e Collor têm mais coisas em comum do que terem se apresentado como “o novo” e serem bons falantes. Os dois também gostam de Romero Britto. Na famosa entrevista concedida a Sonia Bridi – o ex-presidente é um rebatedor interessantíssimo que já entrou para minha lista de “reprováveis que vale a pena acompanhar o que dizem, porque a forma como dizem é curiosa”, junto a Gilmar Mendes e Frank Underwood –, Collor tem um artesanato de Romero atrás de si. Isso prova que dinheiro não traz consigo bom gosto. 

5. Bolsonaro, que aniversaria comigo e com Ayrton Senna – essa tríade de temperamentais faz com que uma nanopulga permaneça atrás da minha orelha a respeito da astrologia –, é desvairado, mas tem uma qualidade: todos sabem quem ele é. Para que se saiba mais sobre o que ele pensa a respeito de coisas e pessoas, talvez só colocando suas vísceras para fora. Não há surpresa, não há encenação, não há joguinhos. Nem eu nem você votaremos nele justamente porque sua autenticidade nos permite conhecer o que opina sobre a ditadura militar, os direitos humanos, o ensino público. Não corremos risco de votar errado ao não votar nele. Com tantos outros farsantes, o mesmo não acontece. Eu, por exemplo, já votei no Serra no segundo turno.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Deixar de comprar é um ato político


Eu defendo isso há anos, mas não custa repetir, já que o mundo parece tomado por surdos voluntários: no capitalismo quem manda é o consumidor, e o consumidor consciente das suas convicções deve usar o boicote comercial como ato político. Sim, há esquerdistas fanfarrões que criticam "as grandes empresas", mas estão esperando, estatólatras, por um decreto para sair da tagarelice e partir para a ação. Enquanto isso, seguem financiando McDonald's, Coca Cola e tantas outras gigantes que eles só criticam em abstrato. Seus discursos e postagens no Facebook são uma farsa comodista. É sempre fácil ser ativista quando não é necessário mudar o conforto do cotidiano para tentar coerência.

Fernando Henrique Cardoso comprou a possibilidade de reeleição no Congresso. Mas quem o reelegeu? O voto popular. O PT foi fundo na estratégia de financiar empresários com dinheiro público para criar "campeões nacionais". Mas quem foi muitas vezes responsável pela perpetuação desses escolhidos no mercado? O consumidor. Nem na pequena responsabilidade que tem o populacho é capaz de fazer diferente. Culpa governos e conchavos pelos males que o aflige, mas não consegue ir ali na urna e votar em alguém que não trate a própria campanha como produção cinematográfica (se geralmente vence o pleito quem faz os melhores filmes, já sabemos que o que vale não é o projeto de governo: basta olhar para o Dória para entender o valor da publicidade acima de qualquer realidade), e não consegue deixar de comprar produtos da Unilever em prol de pequenos empreendedores que não pretendem dominar o mundo. É muita cara de pau alguém criticar oligarquias e oligopólios enquanto paga pela permanência deles.

Nem sempre foi agradável boicotar os braços da JBS que estavam ao meu alcance. Eu não me incomodava por não comprar Friboi, Seara, Vigor, Danúbio porque todas essas marcas estavam riscadas da minha lista de "quem merece o meu dinheiro" há muito tempo. Mas então a JBS comprou as Havaianas. E tive que parar de comprar Havaianas. A JBS comprou a Mizuno. Tive que parar de comprar Mizuno. A JBS comprou a Melissa. E eu tive que deixar para lá a ideia de comprar uma sandália que tinha em vista. A JBS estava comprando tudo que eu gostava, mas eu precisava ter coerência no que me era permitido fazer. Não posso controlar o que um governo que não recebeu meu voto faz com meus impostos, mas posso deixar de comprar produtos que enriquecerão ainda mais seus proclamados vencedores. E, bem, eu não tenho interesse nenhum em, sem necessidade, ajudar na impulsão de quem explora animais e se hospeda em hotéis em NY com diárias de 52 mil reais. Também nunca me faria bem à consciência apoiar produtos de uma empresa que descaradamente comprava políticos. No âmbito da corrupção que mancha o meu país como traço cultural, se não sou parte da solução sou parte do problema. Não admito para mim um comportamento de Pôncio Pilatos. 

É revoltante o manso acordo de delação que a PGR assinou com Joesley Batista. Faz Marcelo Odebrecht parecer um injustiçado. Cria, também, um novo parâmetro: muitos que decidirem delatar daqui para frente quererão um acordo nos mesmos moldes ou em moldes parecidos com o do criminoso que não irá preso, "só delato se meu acordo for como o dos irmãos JBS". Mas a única coisa que me é possível fazer além de criticar com força a palhaçada política, jurídica, educacional que é esse país onde há terreno para um acordo desses é deixar de comprar. Não é com o meu dinheiro que Joesley, safadão porque se safa, vai manter seu império e as mordomias de sua chatíssima esposa. 

Convido o leitor, hoje, a ser congruente em suas palavras e atos. Convido o leitor a deixar de "lavar suas mãos". Torna-te responsável por aquilo que compras

NOTA: escrevo pouco porque estou de férias, viajando. Volto em junho. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Listas extraordinárias, de Shaun Usher


Não me lembro quando foi que comecei a fazer listas porque tenho a impressão de fazer listas desde sempre. Se já possuísse o conhecimento necessário e o cérebro preparado, provavelmente, recém-nascida, já teria elencado os pontos positivos e negativos da vida de bebê. O que sei é que desde a infância tenho feito listas, escritas ou mentais, sobre as coisas, muito disso influenciada pelas delícias que eu lia em livros e revistas quando alguém expressava seus gostos pessoais (ficções prediletas, nomes bonitos, medidas a tomar numa ilha). Eu pensava: “encantador isso, o sujeito ficar namorando a si mesmo criando suas listas”, porque quase todo tipo de autoenamoramento que não desandasse para o narcisismo e o esnobismo calculado me fascinava. Mas não ocorria só com listas personalíssimas. Gosto de listas estatísticas e de “procedimentos para caso este avião caia”. No meio dessa existência que é uma torrente de tópicos meus e dos outros, encontrar o livro Listas extraordinárias foi uma graça para uma madrugada divertida no sofá. 

O livro reúne listas diversas de pessoas que não se conectam sobre assuntos díspares. Há desde O dicionário do beberrão, de Benjamin Franklin, em que são listadas dezenas de expressões que servem para descrever um bêbado – “tomou o grande elixir de Hipócrates”, “arruinou a própria pança” e “está de pilequinho” são algumas delas –, até Motivos para internação no Hospital para insanos da Virgínia Ocidental, no período entre 1864 a 1869 – dentre os motivos, “induzido a entrar para o exército”, “leitura de romance” e “masturbação suprimida”. Li somente as listas que me interessavam porque o livro não é do tipo “para conhecer do cabo ao rabo”, mas do tipo “consulta”. Talvez seja uma boa ideia colocá-lo numa mesa de centro para instigar assuntos com as visitas. Melhor do que livros de arte decorativos sobre os quais ninguém sabe falar com profundidade. 

Selecionei algumas listas boas para exemplificar o tipo de lazer que o livro proporciona. No final da postagem, coloquei também algumas listas minhas. Nunca pude me denominar organizada porque a virtude da organização é vinculada somente a objetos, mas minhas listas são a prova de que sou organizada em conhecimento, pensamentos e fórmulas de conduta – um tipo de ordem que é mais importante do que ter uma mesa clean. Eu poderia determinar que da próxima vez que me perguntarem se sou organizada direi que “sim, organizada em pensamentos”, mas não o farei porque isso seria esperar intensidade de interlocutores possivelmente rasos que gargalham à toa e não compreendem sutilezas. Vida longa às listas, e mais desse tipo de cuidado privado a quem se desencantou de si mesmo numa época em que listas e diários só servem se forem jogados ao público que aplaude. 

***

Na apresentação do Listas extraordinárias, Usher faz uma lista sobre por que é bom fazermos listas. Destaco dois pontos: 

4. Todos nós somos críticos. Classificar as coisas – da melhor à pior, da maior à menor, da mais rápida à mais lenta – pode ser viciante, sem dúvida porque faz com que nos sintamos muito inteligentes.
5. O tempo é precioso. Confiando um monte de informações monótonas a listas facilmente digeríveis, temos mais tempo para nos divertir e fazer listas.

*

Num dos diários de Susan Sontag, editados postumamente por seu único filho David, havia essa lista de Regras para criar um filho. Bonito e útil, seu conjunto de regras só é estranho pelo item 10: 

1. Ser coerente.
2. Não falar sobre ele com os outros (por exemplo, contar coisas engraçadas) na presença dele. (Não deixá-lo acanhado.)
3. Não elogiá-lo por alguma coisa que eu nem consideraria boa.
4. Não repreendê-lo com aspereza por algo que ele foi autorizado a fazer.
5. Rotina diária: comer, lição de casa, banho, dentes, quarto, história, cama.
6. Não deixar que ele me monopolize quando eu estou com outras pessoas.
7. Sempre falar bem do pai dele. (Nada de caretas, suspiros, impaciência, etc.)
8. Não desencorajar as fantasias infantis.
9. Ensinar-lhe que existe um mundo dos adultos que não é da conta dele.
10. Não supor que aquilo que eu não gosto de fazer (banho, lavar o cabelo) ele também não gosta.

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Os pecados de Newton. Lista que Isaac Newton escreveu aos 19 anos. Era dirigida a Deus e confessava seus pecados. Dentre eles, “gulodice”, “desejar a morte e esperar que ela venha para algumas pessoas” e “fazer tortas no domingo à noite”. Impossível não se identificar. 

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A lista Como a minha vida mudou, de Hilary North, que não morreu no atentado de 11 de setembro porque se atrasou para chegar ao trabalho. Ela lembra de cada colega seu que foi vitimado na tragédia e escreve coisas como:

Não posso mais sorrir para o Paul.
Não posso mais deixar a porta aberta para o Tony. 
Não posso mais fazer confidências para a Lisa.
Não posso mais reclamar do Gary. 

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Os onze mandamentos de Henry Miller. Escritos enquanto escrevia seu primeiro romance publicado, Trópico de câncer:

1. Trabalhe numa coisa de cada vez até concluí-la.
2. Não comece a escrever outros livros, não acrescente mais nada a Primavera negra.
3. Não fique nervoso. Trabalhe com calma, com alegria, com despreocupação no que quer que seja.
4. Trabalhe de acordo com a programação e não de acordo com o humor. Pare na hora estabelecida!
5. Quando não conseguir criar, você pode trabalhar.
6. Consolide um pouco todo dia, em vez de pôr novos fertilizantes.
7. Seja humano! Procure as pessoas, frequente os lugares, beba, se tiver vontade.
8. Não seja um burro de carga! Trabalhe só com prazer.
9. Abandone a programação, quando quiser – mas retome-a no dia seguinte. Concentre. Restrinja. Exclua.
10. Esqueça os livros que você quer escrever. Pense só no livro que você está escrevendo.
11. Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.

*

Jack Kerouac, com sua lista Crença e técnica para a prosa moderna, parece ter sido lido por muitos escritores dos nossos tempos:

28. Componha loucamente, sem disciplina, puramente, saindo de dentro, quanto mais louco melhor.
29. Você é um gênio o tempo todo.

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Estranhas ideias de Lovecraft. 222 ideias que H. P. Lovecraft compilou para uso posterior em histórias de ficção. Coisas como:

73. Ratos se multiplicam e exterminam primeiro uma cidade e depois a humanidade inteira. Aumentados em tamanho e inteligência.
97. Medo cego de uma floresta onde cursos d'água serpenteiam entre raízes tortas e onde ocorreram sacrifícios terríveis num altar enterrado – Fosforescência de árvores mortas. Chão borbulha.

*

Um decálogo liberal, por Bertrand Russell: 

Talvez se possa resumir a essência da posição liberal num novo decálogo, que não pretende substituir o velho, mas apenas suplementá-lo. Os Dez Mandamentos que, como professor, eu gostaria de divulgar, poderiam ser redigidos nos seguintes termos: 

1. Não tenha certeza absoluta de nada.
2. Não pense que vale a pena esconder provas, pois elas certamente virão à luz.
3. Nunca tente desencorajar um pensamento, pois você com certeza vai conseguir.
4. Quando encontrar oposição, ainda que seja de seu cônjuge ou de seus filhos, esforce-se para vencê-la com argumentos, e não com autoridade, pois a vitória que depende de autoridade é irreal e ilusória.
5. Não respeite a autoridade dos outros, pois sempre vai encontrar autoridades contrárias.
6. Não use o poder para calar opiniões que considera perniciosas, pois, se fizer isso, as opiniões vão calar você.
7. Não tenha medo de ser excêntrico em suas opiniões, pois toda opinião que hoje é aceita já foi excêntrica no passado.
8. Tenha mais prazer com uma dissidência inteligente do que com uma concordância passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deve, a primeira implica uma concordância mais profunda que a segunda.
9. Seja escrupulosamente verdadeiro, ainda que a verdade seja inconveniente, pois ela é mais inconveniente quando você tenta escondê-la.
10. Não tenha inveja da felicidade de quem vive num paraíso dos tolos, pois só um tolo achará que isso é felicidade.

*

Sugestões para tomar ônibus integrados. Essa lista, que não transcreverei por completo, me fez entender por que a ala delirante do movimento negro não costuma citar Martin Luther King em seus textos raivosos: porque ele não era um ativista movido pelo ódio. Luther King é um dos poucos cristãos que fazem jus ao título. Dentre seus preceitos está o de não revidar atos violentos. Negros que comemoram quando brancos são fuzilados por radicais islâmicos na França ou ficam do lado de criminosos como o Champinha (vale recordar aquele texto abominável da Marilene Felinto na Caros Amigos, em 2004) realmente não têm como idolatrar uma liderança que recomendava: “Se o xingarem, não responda. Se o empurrarem, não empurre. Se lhe derem um safanão, não revide, mas sempre demonstre amor e boa vontade.”. Claro está que mesmo com toda essa bondade Martin Luther King não perdeu dinamismo. Sua atuação pacífica não era sinônimo de inércia. Foi essa lista que me levou a um interesse maior por ele e me fez comprar sua autobiografia, publicada pela Zahar, que lerei quando voltar de férias, em junho. Segue a explicação de seu contexto e parte da lista: 

O curso da história mudou em 1º de dezembro de 1955, quando Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um passageiro branco e foi presa por isso. No ano seguinte, até os tribunais federais considerarem inconstitucional a segregação racial, ocorreu um boicote ao transporte público, liderado por Martin Luther King. Em 19 de dezembro de 1956, às vésperas de uma vitória histórica para os opositores da segregação, King elaborou uma lista de normas para aqueles que logo voltariam a tomar ônibus. 

1. Nem todos os brancos se opõem aos ônibus integrados. Aceite a boa vontade da parte de muitos.
2. Agora todos podem usar o ônibus inteiro. Sente-se no lugar vago.
3. Quando entrar no ônibus, peça ajuda ao céu e honre seu compromisso com a não violência absoluta em palavras e atos.
4. Demonstre em seus atos a calma dignidade de nossa gente em Montgomery.
5. Observe, em todos os aspectos, as regras usuais de cortesia e bom comportamento.
6. Lembre-se de que essa é uma vitória não só para os negros, mas para Montgomery e o Sul. Não se gabe! Não se vanglorie!
7. Fique quieto, porém amistoso; orgulhoso, mas não arrogante; contente, mas não ruidoso.
8. Tenha amor suficiente para absorver o mal e discernimento bastante para transformar um inimigo num amigo.

***

Agora, poucas das minhas inúmeras listas. A primeira poderia se chamar Melhores citações que estão em minha agenda 2017. São citações que fazem muito sentido para mim e tento sempre me lembrar delas para operar* coisas boas no meu cotidiano: 
[*operar é uma palavra de que gosto muito; seu problema é que foi sequestrada para uso abusivo por evangélicos e agora toda vez que a uso lembro de algum pastor] 

Pois cada qual considera claras ideias que estão no mesmo grau de confusão que as suas. 
Proust

Não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.
André Gide

Cuidado com a bondade dos maus. 
Esopo

O perverso pode mudar de aparência, mas não de hábitos. 
Esopo

Quanto mais se estende o nosso conhecimento dos bons livros, mais se reduz o círculo dos homens cuja companhia nos é agradável. 
Feuerbach

Lembra-te: nada é estável nas coisas humanas. Evita, pois, tanto a euforia na prosperidade quanto a depressão na adversidade. 
Isócrates

Comunismo é uma religião igualzinha às outras. Pra quem acredita, não precisa explicação. Pra quem não acredita, não adianta explicação. 
Millôr Fernandes

A coisa principal na vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz. 
Do Talmude

Não chegamos a conhecer as pessoas quando elas vêm a nossa casa. Devemos ir à casa delas para ver como são. 
Goethe

Os homens são geralmente tão avaros do seu dinheiro como pródigos dos seus conselhos. 
Marquês de Maricá

Quem vive contente com nada possui todas as coisas. 
Boileau

Os covardes duram mais, mas vivem menos. 
Sofocleto

Quando um chato diz “eu vou embora”, que presença de espírito!
Millôr Fernandes

*

Lista Aos meus amigos, com amor. Coisas que eu gostaria que meus amigos soubessem e entendessem: 

1. Sou contra qualquer tipo de corporativismo, seja entre profissionais ou entre amigos. Se você errou, não defenderei seu erro. Se você me conta uma história do seu ponto de vista, eu vou perguntar se não podemos olhar do ponto de vista da outra pessoa. Não espere concordância.
2. Não sei consolar ninguém. Se me trouxer um problema, direi militarmente “erga-se, ande e vamos pensando em alguma coisa para resolver isso logo”. Não vou ficar às voltas com você e seu problema. Sou sargenta com os meus problemas, serei com os seus.
3. Está triste ou depressivo? A menos que seja porque perdeu uma perna, uma pessoa querida ou está sofrendo perseguição de agiotas, não sou boa companhia. Peça-me dinheiro, mas não me peça para ouvir lamúrias.
4. Sou sua amiga. Sua. Não tenho obrigação de gostar de quem está com você de forma acessória. Não me tornei amiga da sua esposa ou do seu marido, não me tornei amiga dos seus filhos ou dos seus outros amigos. Se sou sua amiga, é porque me interessei por você. Não me obrigue a gostar de outras pessoas ligadas a você. Vou respeitá-las, é claro. Mas não tenho que gostar delas. Tanto não sou amiga dessas pessoas que, se você morrer, eu não terei mais contato com elas.
5. Só porque às vezes eu sumo não quer dizer que não pense em você. Eu penso. Muito.
6. Se você se tornar uma pessoa idiota, nós romperemos nosso relacionamento como os casais rompem o deles.
7. Você não precisa ser debochado só porque eu sou debochada. Cada um tem uma personalidade e quem foge da sua sem ser para o lado da virtude geralmente não fica bem. Se se ofender com algum deboche meu, fale. Fale, não fique mudo, nem beiçudo, nem me dando indiretas. 

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Modismos de escrita que mancham quem escreve

1. Abuso de palavras do momento. Ex: empoderamento, resiliência.
2. Recursos especiais pedantes. Ex: usar parênteses para fazer uma palavra se transformar em duas, como em “partidarismo: uma opção (i)moral?” ou “o misógino e seus (des)afetos”. Muito comum em trabalhos acadêmicos, o que explica por que a universidade está ao lado da autoajuda barata ao derrubar árvores para transformá-las em lixo paginado. 
3. Eufemismos fajutos. Ex: desconstrução.
4. Encheção de linguiça. Não ser objetivo para parecer erudito. Subjetividade não é nem de longe sinônimo de inteligência, pensamento galante ou coisa que o valha. Uma pessoa ignorante subjetiva é algumas vezes pior que uma ignorante prática no palavreado.
5. Recorrência periódica a comparações esdrúxulas desproporcionais. Ex: “Bolsonaro é Hitler”, “Cunha é Hitler”, “Alexandre de Moraes é Hitler”, “o golpe [sic] lembra a Alemanha nazista”, enfim, “todo mundo que eu não gosto é Hitler ou se assemelha ao nazismo”.

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Quando tinha dúvidas se pedia a mão de sua prima Emma, Darwin escreveu uma lista com prós e contras sobre o casamento (essa lista está no livro de Usher). Eu, que estou chegando naquela fase, inclusive biológica, em que se deve decidir se filhos são bons ou não, também fiz minhas listas de prós e contras. Os contras vencem de maneira evidente, mas não vou fingir que não existam prós. 

Motivos para ter filhos

1. Porque sou uma pessoa com clara cartilha educacional. Se infelizmente casais sem planos educacionais têm filhos, por que eu que tenho um método e princípios não deveria tê-los?
2. Porque sou intransigente em relação ao respeito, coisa que os pais não exigem mais: uma criança deve cumprimentar os outros, uma criança não deve interromper adultos falando, uma criança não deve ser o centro das atenções, uma criança deve ter rotina e saber que na maior parte do tempo seus progenitores não estarão abertos a suas negociações. E em público uma criança deve entender o que seus pais querem somente pelo olhar. 
3. Porque crianças são divertidas. E crianças educadas são muito bonitinhas. 
4. Porque é maravilhoso ter uma autoridade saudável sobre alguém que você ama.
5. Porque é maravilhoso brincar com crianças de igual para igual, e eu sei fazer isso sem parecer uma adulta constrangida porque está tentando fazer uma girafinha falar com voz fanha. Aliás, brincar pra valer não me causa nenhum constrangimento.
6. Porque famílias bonitas me encantam. Famílias em que os membros são amigos, comem juntos, cozinham juntos, dão suporte uns aos outros, dividem as tarefas domésticas, celebram. Não estou falando de “o grupo da família” no Whatsapp. Estou falando de comunhão presencial.
7. Porque terei quem me acompanhe ao médico quando eu usar bengala. 

Motivos para não ter filhos

1. Porque gosto muito de mim mesma para ter que dividir minha atenção com outras pessoas.
2. Porque se me meto a fazer, quero fazer bem feito. Isso significa que eu não aceitaria ser uma mãe mais ou menos. Isso significa que a maternidade tomaria muito do meu tempo e da minha energia.
3. Porque eu gosto de silêncio. Gosto de tomar café (descafeinado) na janela e esperar aviões passarem, e eu sempre apreciei poder ouvir um avião passando ao longe e perceber que tudo o mais silencia. Gosto tanto do silêncio que gosto de estar em casa e ficar calada por horas: gosto de não ouvir nada, nem ninguém, inclusive minha própria voz.
4. Porque eu gosto de ir dormir muito tarde e acordar muito tarde. Porque gosto do ar das duas horas da madrugada. Ao mesmo tempo, sempre fiz questão de, por saúde e conforto, dormir minhas 8h diárias.
5. Porque não posso devolver meus filhos caso a experiência seja mais penosa do que gratificante.
6. Porque gosto de ficar por três horas, sem interrupção, lendo um livro.
7. Porque gosto muito de ler. Porque não quero ser uma pessoa do “não tenho tempo para”. 
8. Porque eu evito trazer quaisquer pessoas novas para meu ambiente familiar e também evito entrar em novos ambientes. Porque não preciso e não me farão bem novos relacionamentos íntimos forçados. Porque não quero ter que me envolver com os pais dos colegas dos meus filhos só porque nossos filhos são amigos. Porque me corroem obrigações sociais. 
9. Porque sou ansiosa, e mesmo com as coisas mais banais. Consegui trabalhar minha ansiedade e hoje estou calma. Mas para ela voltar basta um estalo, e um filho é muito mais que um estalo, é quase uma promessa de bomba.
10. Porque com meu senso de “a família é muito importante”, a possibilidade de que meus filhos não se tornassem amigos perenes seria muito ruim para meu coração (é por esse motivo que se eu tivesse filhos minha primeira opção seria dois meninos, a segunda opção seria duas meninas e só por último viriam um menino e uma menina: amizade perene entre irmãos de sexos diferentes são muito raras, tragicamente). 
11. Porque gosto de ser livre.

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Lista de nomes bonitos. Se existisse uma profissão chamada "aconselhadora de nomes", eu gostaria de fazer bicos nela. Acho uma dádiva meus pais terem me dado um nome bonito, pois deve ser horrível não gostar do próprio nome. Só penso que não precisavam ter me dado um nome do meio, já que meu primeiro nome é forte o suficiente e meu sobrenome é incomum. Gosto do meu nome do meio, Raquel, mas o considero desnecessário. Minha lista pessoal de nomes bonitos é formada desde a minha infância (cogitei, em certa época pueril, que um filho meu poderia se chamar Barbaro): 

Barbara, Úrsula, Rosa, Suzana, Ângela, Ângelo, Walter, Wagner, Fausto, Frederico, Francis, Bóris, Glauco, Rubens.

domingo, 2 de abril de 2017

Mente vazia, oficina do diabo; ou Por que o tédio cria pautas delirantes


Se tivesse que descrever este século em uma palavra, ela seria: delírio. Foquemos no Ocidente: é no Ocidente que eu vivo, é do Ocidente que eu sei e são os problemas ocidentais que costumam me preocupar mais amiúde. Não vou me manter o ano inteiro calada sobre a África para somente falar dela e das questões tenebrosas que muitos de seus países vivem – problemas que a Acadêmicos do Tatuapé e o movimento de mentalidade coletiva “África Linda” parecem desconhecer – quando algum colega manifestar seu horror por atentados que afetam “gente branca do Ocidente”. Estou explicando tudo isso para que não se levantem para expressar que “isso que você está falando não se aplica ao Oriente Médio”, como se meus pontos tivessem que ser como o imperativo categórico e ter abrangência universal. Defini, mal e humanamente, um determinado espaço sobre o qual expressar uma opinião. Já espanto por um momentinho quem merecia ter osso na língua. 

Machismo existe. Mas o Ocidente nunca foi tão pouco machista quanto hoje. Os esforços feministas não se voltam somente ao que resta de machismo, mas a uma fantasia de mentes desocupadas que passam à doença da paranoia: tudo é machismo. Se tudo é machismo, nada é machismo, e a existência deveria seguir como se navegássemos numa fluida maionese relativista – isso aí que aconteceu com você pode ser machismo, pode não ser, siga. Não é a experiência que vivemos, todavia. Impedida de seguir porque cada microagressão merece celeuma, a feminista padrão fará, diariamente, inúmeras paradas em sua jornada para apontar vestígios de violência masculina. É caso clínico: o paranoico não consegue ser feliz. Livre como é e filha da geração menos machista que já existiu, a feminista da terceira onda, que criou um efeito – sua fúria – e agora precisa encontrar as causas para seu novo entretenimento “político”, manterá uma cartilha. A cartilha da mulher revoltada entediada do século XXI: 

1. Nada melhor para afastar o tédio do que uma adversidade, que pode ser um câncer ou uma revolta. Na falta de um câncer por enquanto, revolte-se. O primeiro passo para um bom processo de revolta é buscar um inimigo específico. O problema é ele. Seu problema é ele. Se as coisas dão errado, é por causa dele. Esse inimigo é o homem. Aprenda com as grandes figuras que arrastaram multidões: muitas delas tinham um inimigo específico a combater. O povo quer objetividade, quer o nome dos bois, sejam os bois os judeus, os burgueses, os kulaks, os brancos, os negros, os norte-americanos ou os homens. A partir disso, você arranjou uma ocupação. Sua vida vai passar a fazer mais sentido com esse engajamento. Isso sem esquecer de mencionar que é sempre reconfortante para a carência participar de um grupinho. 

2. Se o inimigo fizer contra você ou contra outra mulher qualquer coisa desagradável, exponha-o em sua condição de inimigo. Não proceda ao pensamento lógico do “e alguém do meu lado poderia fazer o mesmo?” ou do “isso é mesmo machista ou apenas humano?” quando o inimigo te interrompe numa reunião, diz que você fica melhor de cabelo comprido ou pede seu telefone e não liga. Empatia é poupar a mulher e massacrar o inimigo quando eles procedem da mesmíssima forma. Um movimento não é nada sem corporativismo. 

3. Mulheres que falham ao expor condutas típicas do inimigo devem ser vítimas de pena, não de ódio, porque não é culpa delas que suas ações tenham sido moldadas por uma sociedade patriarcal. Se uma mulher errar, a culpa é do inimigo também, porque a mulher que erra teve seu arbítrio sequestrado pelo espírito social machista. 

4. Não junte energia para destruir somente o monstro real, como a violência doméstica e o clitóris mutilado. Afinal, você não apanha do seu namorado e seus pais nunca cogitaram arrancar seu clitóris. Se você se ativer somente a esses tópicos, a pauta do movimento ficará enxuta, sem graça e não haverá motivação. Veja, as pessoas gostam de lutar por causas que as atinjam diretamente. Que interesse a universitária classe média terá no feminismo se ele só disser respeito a coisas que não a atingem? Crie demônios. Fale para essa universitária que aquele rapaz que a seduziu numa festa e diante de uma negativa provocou com “então vou ali no banheiro bater uma pensando em você” é machista e precisa ser contestado. Forje estatísticas, como aquela que assegura que mulheres ganham 30% menos que homens, e extrapole pesquisas, colocando “agressão verbal” no grande balaio da “agressão” e insinuando que esse é um problema feminista em vez de ser um problema comportamental sobre agressores verbais de modo geral. 

5. Critique a sexualização exagerada da mulher. Critique a exposição de nudez sedutora na Playboy. Critique as posições que heroínas padronizadas fazem em quadrinhos e filmes, numa clara analogia sexual e vontade de ser desejada. Depois disso, publique suas próprias fotos seminua, com bumbum empinado, seios à mostra abaixo de um batom vermelhíssimo borrado. Se alguém perguntar se isso que você faz também não é um tipo de esperança de aprovação sexual, diga que está “empoderando sexualmente belezas diferentes”. Não tenha medo da contradição. Não tenha medo de parecer que você só criticava a exposição de outras mulheres porque esse doutrinamento sexual impedia que você fosse o tipo de mulher desejada. Não tenha medo de parecer invejosa. 

6. Muitas de nós, feministas da terceira onda, entramos para o movimento após problemas pequenos com homens: eles não compareciam, não se interessavam por nós, deixaram-nos por outra, faziam-nos de trouxa. O feminismo foi nosso divã terapêutico, foi a almofada que amorteceu nossa queda. Aproveite para aliciar outras mulheres com esse perfil.

7. Por outro lado, não podemos montar um movimento que seja conhecido como clube das fracassadas ou das feias. Por isso, atente: a bonita, a padrão, a que está feliz no casamento precisam descobrir que vivem num mundo muito machista. O inimigo vai ficar louco quando souber que as belas que ele explorava até pouco tempo agora estão politizadas e indisponíveis. Toda mulher precisa de feminismo porque toda mulher é vítima de machismo. 

8. Você tem a liberdade de continuar se torturando para ficar bonita. Caso questionem seu ritual e seu salto altíssimo, responda: “eu me produzo para mim mesma”. Se o engraçadinho retrucar com um “então você deve ficar assim dentro de casa também”, aponte o machismo da fala e diga “eu é que não vou bater palma para homem dançar”.

9. Não há espaço para a desocupação quando você adentra esse movimento, porque na falta de buracos para tapar nós mesmas cavamos a terra e depois repomos o que for necessário. Os publicitários não falam tanto sobre “criar a demanda por um produto”? Nós criamos demandas por problemas. É por isso que em países tidos como “os mais igualitários do mundo”, como a Noruega e a Suécia, há feminismo combatendo o patriarcado local todos os dias. Um problema conhecido que o feminismo de lá criou para combater? Homens que urinam em pé. Ora, se mulheres não podem urinar em pé, por que homens fazem isso? É um tipo de humilhação. Outro: homens sem camisa. Enquanto mulheres não puderem andar sem camisa, #freethenipple, homens não devem poder. Se alguém disser que “mulheres de busto pelado não são a mesma coisa que homens de busto pelado assim como tocar no busto de um homem não gera nada mas tocar no busto de uma mulher é assédio”, aponte o machismo da fala. Não somos obrigadas a ter respostas coerentes para tudo. Se não souber desclassificar o argumento do adversário, desclassifique o adversário. A menos que seja uma mulher. Só desclassifique uma mulher se você for negra e ela for branca.

10. É uma pena que nem metade das mulheres é engajada. Como falar e lutar por elas se somos poucas no movimento? Fazendo muito barulho, um barulho tão grande que faça meia dúzia parecer oitenta. Obrigando, pelo aviltamento, colunistas, jornalistas e artistas a pedirem perdão quando disserem coisas que não se aplicam a nossa visão de mundo. Vamos gritar, vamos nos reunir para depreciar uma figura pública ou página por micromotivos. Há machismo em tudo. Quem não vê precisa de uma troca de lentes.

11. E lembre-se: quem não dramatiza não coopta. É preciso fazer com que as mulheres se sintam numa Idade Média no que diz respeito a direitos. 

*

Nunca consegui respeitar os entediados. Considero o tédio uma forma de desrespeito com a vida. Se eu pudesse, compraria o tempo das pessoas – há tantos entediados acumuladores de dinheiro sob o colchão que o preço por hora seria, suspeito, barato – porque não há vida que chegue para que eu possa conhecer tudo o que me excita. Acho que é pelo mesmo motivo que nunca tive paciência para depressivos, já que em muitos casos a depressão é apenas uma extensão ou fase avançada do tédio, um “aprimoramento” de quem não conseguiu se interessar por muitos assuntos num universo com milhões de possibilidades. Mas fico em dúvida se desprezo mais os entediados perenes ou os entediados que criaram sarna para se coçar visando à fuga de uma vida vazia. Esse é o caso do movimento feminista moderno. Parte da gritaria começou nos EUA. Mesmo os autoproclamados maiores esquerdistas acabam, sem perceber, importando pautas americanas a cada temporada. O feminismo ocidental deixou de ser sobre direitos reprodutivos, violência doméstica e imposição comportamental de gênero para passar a versar sobre o euzinho de cada mulher que gostaria de mais visibilidade. Práticas que podiam ser erradas no âmbito comum – você de qualquer sexo impedir seu interlocutor de terminar uma sentença porque acha que o que tem para falar é melhor e mais importante – se tornaram erradas na guerra contra o machismo. O que era problema de todos se tornou um problema feminista, piorado e amesquinhado. No clube onde meninos não entram, as reuniões são sobre detalhes, minúcias, tons de fala e interpretação de entrelinhas. Poderia ser o clube do bordado psicanalítico, mas não é assim gracioso porque gera mal-estar e ódio despropositado. Na geração mais calma que o lado de cá deste planeta já viu, pautas revoltosas apareceram para espantar o tédio de não se ter mais que fugir de predadores, escapar de assassinos, procurar o que comer e remoer guerras entre nações. Nunca as mulheres tiveram tanta liberdade e nunca as mulheres reivindicaram tanta liberdade e denunciaram tanta opressão sobre si. O feminismo não é sobre mulheres sofredoras, mas sobre todas as mulheres, mesmo as mais privilegiadas, que se consideram vítimas de machismo. A importância da causa se dilui quando ela deixa de ser sobre quem necessita para atender a todas, já que todas se pensam necessitadas. O entediado é desrespeitoso com a vida. O entediado que procura sarna para se coçar é desrespeitoso com quem de fato sofre de sarna. 

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Mas os movimentos delirantes brotados do tédio não se encerram no feminismo. Quem acompanha as barbaridades que o movimento negro anda dizendo e defendendo sabe quão longe pode ir a vontade de arranjar um bode expiatório para encher de culpa e combater. 

Racismo existe. E é claro que não aparece só pela autodeclaração “sou racista”. Há, inclusive, o racismo bem-intencionado, que na minha opinião não deixa de ser racismo só porque está no inconsciente, mas não merece linchamento como a Ku Klux Klan, pois tudo na vida precisa de avaliação graduada. Gisele Bündchen publicou uma foto meditativa com a cabeça encostada na cabeça de uma modelo negra (desconheço o nome). A legenda: “é hora de acabar com todas as formas de discriminação”. Nessa hora me lembrei de uma cena excelente do filme Jackie Brown (1997), do Tarantino, em que Ordell (Samuel L. Jackson), negro, vai ao escritório de Max (Robert Forster), branco, vê uma foto na parede em que Max está abraçado simpaticamente a um negão e pergunta, sardonicamente: “aposto que foi você que sugeriu que tirassem essa foto, huh?”. Porque é lindo mostrar que não se é racista, é lindo o fetiche de aparecer numa foto abraçado a um negro. Negro é o novo Mickey: todo mundo quer abraçar e tirar foto com ele para mostrar aos outros. Estamos no meio de uma campanha abolicionista para Gisele fazer uma foto com uma legenda dessas? Não estamos. Então a legenda é patética e é o que qualquer negro pode chamar de “branquice”. Não sei muito bem, ao mesmo tempo, qual é a nobreza real de você pedir para tirar uma foto com uma pessoa de que goste e na legenda ressaltar a vulnerabilidade dela diante da sociedade. Você chamaria para uma foto seu colega de trabalho que usa cadeira de rodas por causa de uma deficiência nas pernas e depois colocaria na legenda “vamos respeitar pessoas com deficiência”? Que situação tola para você e que situação vexatória para seu colega. Se peço para minha mãe, negra, uma foto dessas e depois escrevo na legenda o mesmo que Gisele, só vejo dois cenários de reação: bronca ou desapontamento. Não porque minha mãe seja uma ativista (nunca participou de movimento nenhum, aliás), mas porque ela entende como soa uma frase afetada dessas. Soa como “eu sendo bacana com esse coitado aqui, ó”, soa como propaganda política. Nossa relação é natural; passei a infância vendo minha mãe defender a expressão “preta”, comprar bonecas pretas para mim e corrigir qualquer um que chamasse um preto de “moreno”. Não tenho que usá-la para posar de defensora dos negros ou plural à United Colors of Benetton. 

Existe racismo quando negros são pagos para fazer papéis costumeiramente atribuídos a negros. É fácil um negro ser chamado para fazer papel de escravo num dos inúmeros filmes sobre escravidão feitos nos EUA ou ser escalado para uma película sobre pobreza. Novidade seria um negro no papel principal de um filme do Nolan, do Scorsese ou interpretando um herói – um personagem que não esteja obrigatoriamente vinculado à cor de sua pele. Novidade foi quando Will Smith começou a protagonizar filmes em que sua cor, naturalizada, não foi mencionada na trama. Com isso não estou defendendo o apelo “Oscar's so white”, que gerou dúvida sobre os premiados deste ano: foram premiados porque os avaliadores consideraram que mereceram de fato a estatueta ou porque tiveram medo de uma nova onda de boicote ao Oscar depois da reivindicação do ano anterior? Não é uma baita coincidência que no ano seguinte ao apelo metade dos atores vencedores fossem negros e que o filme premiado seja uma história cheia de personagens negros? É o tipo de pulga que ficará atrás da orelha de quem solicitou cotas em premiações cinematográficas. 

Também é prova de racismo, mesmo que inconsciente, quando alguém que dirige uma publicidade com pessoas pede para que arranjem um negro em nome da pluralidade da propaganda. Se a negritude estivesse naturalizada, você poderia encontrar comerciais com cinco pessoas brancas escolhidas aleatoriamente e outro comercial somente com pessoas negras, ou com três pessoas negras e duas brancas. Não, o padrão dos comerciais é: muita gente branca, algum negro, se der algum oriental. Ou família negra, como é comum em comerciais vinculados ao governo, empresas públicas, etc. Em suma: enquanto você tiver que se esforçar para colocar um negro na sua produção, enquanto você tiver que teorizar a frase “precisamos de negros aqui para pluralizar”, estamos diante de um sintoma de uma sociedade racista que ainda não naturalizou essa cor de pele. 

Naturalizemos, eu digo. A voz delirante do movimento negro diz “segreguemos”. Anos de miscigenação nas principais regiões do país, anos de ouvido de penico nas regiões afastadas com imigração branca preconceituosa e agora o movimento negro quer ser como esses colonos: “segreguem, criemos nossa cultura particular bem delimitada, separemo-nos dos brancos, miscigenação uma ova”. Não basta que esses teóricos do absurdo, que devem execrar Mandela e o demasiadamente bonzinho Martin Luther King Jr., queiram determinar com quem negros devem casar, o que devem comer, livros de quem devem ler, que tipo de tratamento reservar a um branco: agora é necessário criar uma cultura negra arrogante que decide quem entra e quem não entra no círculo dos ornamentos. O caso “turbante na cabeça de uma branca com câncer” foi o ápice da presunção. As culturas são intercambiáveis desde sempre – religiões se copiam, alimentos daqui permutam com os de lá, indumentárias evoluem baseadas no que se viu nas vestes do vizinho, idiomas se cruzam, pessoas de diferentes culturas se cruzam –, mas o movimento negro decidiu que o turbante é dos negros. Há povos negros na África que não usam turbante: se sua ascendência for desse povo e você usar turbante, está praticando apropriação cultural? Há povos não-negros que usam turbante. O turbante é adereço de inúmeras culturas não-negras há séculos. Que birra é essa que faz com que negros no Brasil pensem que têm o direito de apontar alguém na rua e dizer que essa pessoa não pode usar um pano na cabeça por causa da cor de pele dela? Esse revanchismo que imita estratégias passadas de brancos que discriminavam negros – apropriação de uma cultura discriminatória? – só pode ser chamado de retrocesso. “Mas teve o texto da Eliane Brum...” Sim, um texto que não apela à lógica, mas ao sentimentalismo, com ar de professora querida que explica à criança raivosa por que ela está errada e precisa se acalmar e entender que os negros foram explorados e agora têm adereços que representam sua identidade. Um texto de quem se sente culpada por ser branca e admite que tudo que pode fazer para se redimir pelos crimes que não cometeu – pior do que negros culparem brancos de hoje pela escravidão é brancos de hoje se sentirem responsáveis pela escravidão – é “ouvir o que as negras têm a dizer”. Estamos ouvindo. Temos que acatar? Por que eu deveria tratar esse item em particular como sagrado enquanto quase todos os outros adereços das outras culturas permanecem intercambiáveis? Atitudes comigo-ninguém-pode não são razoáveis. Apelo ao sentimento puro e simples não é razoável. Machado de Assis escreveu: “lágrimas não são argumentos”. 

Enquanto isso, no mundo onde “às minorias tudo é permitido e elas criam as regras”, quando negros se “apropriam” de elementos culturais e até biológicos da “cultura branca” há passe livre. Se uma mulher negra alisa e pinta de loiro o próprio cabelo, isso é o quê? Por que a regra de não intercambiar com outros clubinhos não se aplica aqui? “O que é nosso é nosso, mas o que é de vocês também é nosso”? Sejam pelo menos coerentes; ou vocês protegem essa pretensa cultura pura negra de qualquer mácula de opressores ou entram no jogo com todo mundo, sem usar a conversa sobre escravidão como moeda de troca para tudo, como um persistente trauma, como uma insistente apelação. Nem que me esforçasse num banana exercício de alteridade eu conseguiria me emocionar com o texto da Eliane Brum, justamente porque sei que quem teve a audácia de abordar a moça branca de turbante não fez isso por “amor à África”, mas por arrogância, mesquinhez e vaidade. É claro que no mundo dos ornamentos há disputas e risadinhas pelas costas de quem está usando um item “do jeito errado” ou “sem poder”, mas essa postura se restringia à fútil esfera dos cochichos e das lamentáveis rodas de mulher. Agora a coisa é institucionalizada, vira artigo de jornal em defesa e logo vai ser tema de doutorado em uma das dezenas de especializações sobre minorias disponíveis em universidades públicas. Na era do tédio, qualquer firula vira caso. E delírios paranoides de movimentos desenvolvidos para espantar o marasmo são vistos como “convicção de ideias sobre microassuntos”. 

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Eu me pergunto: se vivêssemos numa época com mais o que fazer, utilizaríamos nosso pouco tempo somente para o essencial? Nessa hipótese, talvez o feminismo se ocupasse em resgatar mulheres que sofrem em vez de almofadar a sala de terapia para mimadas egocêntricas, e talvez o movimento negro tentasse enriquecer seus irmãos na periferia em vez de se preocupar em problematizar o pedaço de pano que Simone de Beauvoir usava em sua cabeça branca. Há sutilezas no mundo, e há disfunções sutis, mas essa sociedade não está sabendo diferenciar sutileza de delírio, problema real de paranoia. Como será viver sob a constante pressão imaginária de um entorno opressor? Como será se sentir num completo desânimo em meio a facilidades e ansiar criar uma realidade paralela onde há centenas de questões que me atingem e precisam ser resolvidas? Rosa Luxemburgo dizia que quem não se mexe não percebe os grilhões que o prendem, mas há pessoas que caminham maratonas para tentar provar que em algum momento seus pés ficarão presos pelos grilhões que acreditam possuir. Perde-se tempo e vigor com questões abstratas sobre si enquanto questões reais sobre os outros oprimem e matam. Culpa de três dos quatro pecados principais deste século: tédio, carência e vaidade (o quarto é a inveja). Pecados que, não é megalomania dizer, explicam quase tudo. É uma pena. Tínhamos tudo para dar certo, mas parece que a tranquilidade enjoa. O diabo faz a festa. 

domingo, 5 de março de 2017

Separar a arte do artista


A notícia do momento é que uma carta assinada por 400 intelectuais pede que Lula considere, “desde já”, a possibilidade de se candidatar à Presidência da República para 2018. Tássia Camargo é uma das que assinam o documento. Não sabia da produção intelectual da atriz, assim como desconheço a imensa maioria dos nomes da intelligentsia brasileira que ratificam o conteúdo da carta. Pode ser apenas muita ignorância minha, já que ignoro tantas coisas. Se nunca ouvi falar dos intelectuais “Flávia Moura Caldas, comerciária”, “Deolinda de Almeida Pantoja, dona de casa” ou “Claudio de Oliveira Ribeiro, pastor evangélico” deve ser porque ando lendo os livros e jornais errados. Pago a assinatura da Folha de S. Paulo para estar bem informada e passo esse vexame ao me deparar com uma lista de nomes alienígenas. Talvez devesse ler o Brasil 247, que tem Renan Calheiros como colunista. 

Dentre os assinantes óbvios está Chico Buarque, que enxerga o mundo com os óculos de um taxista: dicotômico, eterno bandidos versus moços. Diante disso, pergunto-me: 

1. De que serve o conhecimento se ele não puder alterar nossa leitura das coisas? Chico não é nenhum iletrado, mas age como um ao querer salvar Lula de “perseguição política” em nome do combate a figuras da suposta direita brasileira. Seguindo o mesmo jeito de operar estão os que alegam defender entusiastas de torturadores a fim de formar uma forte oposição ao PT. Resumo: existem apenas dois lados, e ou você está aqui, ou está ali, não existe acolá ou outro lugar. O que é, convenhamos, o retrato certo de boa parte dos taxistas. Quando trabalhei com educação infantil, alarmei-me ao ver que muitas pedagogas, formadas pedagogas e pagas com salário de pedagogas, queriam apenas “cuidar” de crianças, levando-as para brincar livremente no parque, deixando que desenhassem o que bem entendessem e interagissem à vontade “desde que não se machucassem”. Para que servia a formação delas se o trabalho que realizavam podia ser feito por uma costureira analfabeta? Deixar crianças passando horas em frente à TV ou correndo pelo parque não exige nenhum conhecimento de Freinet ou Vygotsky: qualquer adulto sem cursos consegue tomar essa responsabilidade e ainda ser menos oneroso à instituição que o emprega. Se o conhecimento não for usado, repito, para que serve? Chico Buarque viveu em lar cheio de livros, com pai erudito, entorno intelectual, escreveu canções primorosas e a lista continua. Isso, infelizmente, não o ensinou nada sobre ponderação política. Suas opiniões nesse campo são primárias, e o bordão “é claro que o PT errou em algumas coisas” – presente na fala de muitos contemporizadores – só serve para que não passe uma imagem de cego completo tomando chuva ao som de Like a fool, do Robin Gibb. Depois do bordão vem um esperado “mas”, e depois da justificativa fajuta vem um “não troco o certo pelo duvidoso, quero Lula de novo”. No fim, o sujeito que quis parecer um analítico minucioso pesando valores na balança estava desde o começo convicto e cimentado em que lado apoiar.

2. A questão principal deste texto: O artista como pessoa deve se confundir com a sua obra? Não sei responder. Certa vez Rodrigo Constantino, perdido em assuntos que não dizem respeito à área econômica, bradou contra a obra de célebres como Chico Buarque por causa de suas opiniões políticas. Disse aos seus leitores que artistas ligados ao PT deveriam ser boicotados. Discordo, mas com ressalvas. Discordo porque apesar de achar aberrante que, em plena era da informação, alguém defenda um claro demagogo como Lula, ignorância e canalhice, não sendo crimes, acabam não sendo tão graves para o boicote de um artista de qualidade. Não me parece justo com o meu coração ter que deixar de ouvir Você vai me seguir porque seu compositor é lulista, e nesse momento separo o Chico opinador do Chico compositor. A ressalva quanto à minha discordância à ideia de Constantino: qual é o limite da separação entre o artista e sua obra? Devo tolerar a obra de um assassino por motivo fútil porque é muito refinada? Devo poder colocar uma das pinturas de Hitler na parede da minha sala porque uma coisa é o homem e outra coisa é a obra? Até agora dei exemplos dos extremos de aceitação “muito fácil” e “muito difícil” – Chico e Hitler –, mas vamos ao meio-termo que gerará alguns “não sei” e “aí você me pegou”: como proceder diante da obra de Roman Polanski, que drogou e estuprou uma adolescente nos anos 70? Eu não lembro de não ter gostado de nenhum filme dirigido por ele. Gostaria que pudesse fazer mais trabalhos como Deus da carnificina (Carnage, 2011), cheio de diálogos, tensão e toques de humor, e O inquilino (Le locataire, 1976), hipnotizante, sombrio e que se assemelha, agradável e estranhamente, a uma experiência literária (que ocorre quando você está vendo um filme e parece estar lendo um livro; o contrário também é possível). Devo negar essas boas obras porque foram pensadas por um estuprador? Outra pergunta pertinente seria: devo julgar uma pessoa inteira por causa de um fato isolado? Também não tenho resposta, porque dependendo do caso a ideia é descabida ou justa. Talvez Polanski não mereça ser condenado a vida inteira por causa de um estupro ocorrido há décadas – talvez deva. E merecerá condenação um autor como Gabriel García Márquez, que foi amigo próximo de Fidel Castro? É possível que alguém advogue em seu benefício dizendo que “não são de nossa carga os crimes que nossos amigos cometem” ou, os mais delirantes, que “mas Fidel só fuzilava para salvar a revolução”. Só que Márquez não apertava mãos e dava tapinhas nas costas no escuro. Enquanto a população vivia somente com o básico racionado, Márquez, na qualidade de amicíssimo, frequentava os paraísos escondidos de Fidel. Márquez via que Fidel nadava em fartura e futilidade enquanto o povo cubano pensava que o comandante só possuía uma casinha simples onde fazia refeições frugais. Perdoamos o escritor colombiano por aceitar tamanha conduta imoral de seu amigo – e por aceitar receber benefícios como uma bela casa em Cuba – ou paramos de ler sua obra para honrar nossos princípios? Eu nem tenho muito o que pensar de Gabo, já que só li um livrinho dele (e não gostei), mas sei que muitas pessoas o veneram pelo que fez em Cem anos de solidão. Se algum leitor brasileiro se espantar com o fato de ele ser íntimo de um ditador e resolver parar de ler e propagar suas obras, isso seria inusitado – atitude que não espero tão incomum para alguém que tivesse fugido de Cuba para os EUA e execrasse o regime socialista no qual vivera até então.

John Lennon batia em sua primeira esposa. James Brown batia em suas esposas. Edmund O. Wilson batia em Mary McCarthy. O que fazemos com suas obras? Se estou num baile de super flashback e depois de Good times, do Chic, tocarem Papa's got a brand new bag, devo me retirar da pista balançando a cabeça e doutrinando “a música desse agressor eu não danço”? Seria fácil fazer isso e ser acompanhada se o agressor tivesse acabado de ser televisionado ou se seu caso estivesse marcado na memória coletiva, mas parar de dançar a música de um homem violento que teve seu auge há muitos anos, está morto e ninguém se lembra que causava problemas domésticos pode ser visto como o ato de “alguém que não está pronta para separar homem e obra”. Nós desculpamos uns, nós punimos em definitivo outros. Que régua mede quem merece estar separado da carreira e quem merece ser arrastado para a vala com ela? Na dúvida, admito, acabo separando o artista da obra. E tento defender minha escolha me convencendo de que não possuo nenhuma garantia de que outros ilustres sentimentais ou renomados literatos não tiveram, na vida privada e secreta, condutas altamente condenáveis. O poeta é um fingidor, e encarando uma magnífica poesia dá-se um jeito de livrar a pele de seu farsante para poder continuar a fruir sua farsa. Também tento me defender dizendo que as pessoas são mais complexas do que suas imperfeições pontuais, mas essa é uma opinião bem flexível e oportunista, pois eu jamais teria em minha cabeceira a grande obra de alguém que tivesse feito mal a um membro da minha família, e eu sei que algum bocado do meu desgosto pelo legado de Hemingway se deve ao fato de ele ser tão devoto do sofrimento animal, seja por meio de touradas ou caçadas por diversão. Já de Almodóvar não consigo não gostar e digo que é ótimo apesar das touradas. Fale com ela (Hable com ella, 2002) só não é um filme perfeito porque o sofrimento do touro e o louvor à cultura da tourada são reais. É fácil dispensar a obra de um imoral que não nos cativa tanto. Quem nos cativa nos tem não obstante muitas coisas, inclusive crimes. 

Admirarei qualquer nobre espírito que, sem querer holofotes e elogios, educadamente saia da pista quando tocarem James Brown. Já alguém parar de sambar porque começou uma música do petista Chico Buarque seria radicalismo. Se um compositor for boicotado por causa de uma opinião partidária infeliz, que meia dúzia de artistas restarão para condizer com nossas expectativas de forma plena? Não separar os homens de suas obras por motivos contornáveis e recusá-los inteiramente por isso só faria aumentar o comércio de arte feita por freiras. Boicotes artísticos inconscientes e rigorosos só servem bem na cabeça de autoritários que se pensam deus. Eu prefiro arte feita por seres humanos que falham.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O pecado mais cruel e nada divertido - "Inveja", de Joseph Epstein

Costuma-se dizer que o único pecado que ninguém confessa é a inveja. Muita gente nega sentir, o que é mentira. Muita gente finge não estar sentindo, o que talvez seja pior do que entregar a fraqueza de forma franca. E eu não me lembro de ter conhecido qualquer pessoa que admitisse sentir inveja do próximo. Inveja dos ricos e famosos, inveja da blogueira que brinca de Amélie Poulain morando na Bélgica, inveja do estranho que acabou de ganhar na loteria, inveja da modelo holandesa que faz ensaios na Harper's – isso é fácil aceitar, trabalhar e até externar. Mas a inveja daquela pessoa que está logo ali e parece se amar mais do que eu me amo, que parece ter um casamento melhor que o meu, filhos mais educados, vida sexual ativa, que recebeu uma promoção, que recebe o dobro do meu salário, que é mais bonita do que eu, que faz coisas que eu nunca consegui fazer por medo, que tem uma personalidade incrível, que é segura de si e não me dá muita importância – essa inveja ninguém admite. E precisaríamos admitir? Não, porque não existe nenhuma norma social que determine que devamos ser livros escancarados. Já negar a inveja em vez de consertá-la na medida do possível – sendo um tanto biológica e com sentido evolucionário, torna-se mais dificultoso extirpá-la de vez – parece coisa de quem erra duas vezes: erra ao sentir inveja por expor o próprio fracasso para si mesmo e erra ao teatralizar sentimentos. A falsidade é bela e necessária no palco. Na vida cotidiana costuma trazer um tipo de ranço que se denuncia em gargalhadas forçadas, olhares furtivos, falas cheias de meandros competitivos, ironia fora de hora e gestos feios. O invejoso é rico em atos falhos facilmente reconhecíveis por qualquer um que tenha aplicado a psicanálise ao exame dos outros. Que propósito existe nesse tipo de conduta analítica dos subtextos e dos símbolos que nossos pares deitam sobre nós sem perceber? Poupamos tempo, energia e impedimos intimidade com quem não agrega nada. Os únicos que reconhecem invejosos e gostam de tê-los sob louvor são os que vivem à procura de causar inveja. Os dois sujeitos tristes se merecem e dependem um do outro para esse projeto de vida vazia. 

A Oxford University Press estava para lançar uma coleção sobre os sete pecados capitais, sendo cada pecado abordado por um autor diferente. Ao escritor Joseph Epstein restaram ira, preguiça, luxúria e inveja para escolher. Ele escolheu a inveja, que é um dos pecados mais delicados, e, segundo ele, o único que não tem lado engraçado. Descobri esse livrinho por meio de uma coluna do João Pereira Coutinho na Folha – se suas opiniões fossem tão sérias quanto suas recomendações de leitura, seria um colunista perfeito; a coluna de 14/02, por exemplo, me parece apenas mais uma de suas vontades de barbarizar – e logo o comprei. Encanta-me entender todos os pecados e a inveja é, como é para todo mundo, o pecado que mais me causa mal-estar. Obviamente não gosto de sentir inveja. Ao mesmo tempo, não sinto inveja pelos objetos tradicionalmente fonte de inveja para outras pessoas. Mas nos campos em que sinto, sinto. E de fato não há nada de divertido nisso.

Falando sobre a inveja no terreno das ideias mais altas, Epstein cita Kierkegaard, Kant, Nietzsche e, é claro, Schopenhauer. Diz o último que “sentindo-se infelizes, os homens não conseguem suportar a visão de alguém que julguem estar feliz” e “o ódio sempre acompanha a inveja”. Nos cadernos bobos de colegas ginasiais sempre se escreviam frases de tom moralista ao estilo “para meninas”. Uma das mais comuns ressaltava que o verdadeiro amigo não é aquele que está com você para celebrar seus momentos felizes, mas aquele que está lá para enxugar suas lágrimas. Pura abobrinha. A prova maior de uma grande amizade ocorre quando seu amigo vê que você está bem, está melhor que ele, que está alcançando coisas que ele mesmo não alcançou – e está feliz por isso. Não é fácil admirar com honestidade alguém que está ao nosso lado obtendo privilégios que nós não obtemos. As celebridades que são inundadas todos os dias com juras de amor de “eu te admiro e quero ser como você” devem sempre pensar que estão a salvo somente porque estão longe. Se estivessem perto de seus fãs, continuariam causando inveja, mas misturada com ódio. A vizinhança não é ruim apenas porque invade sua privacidade, mas porque torna você “um dos nossos, mas que não é família”, ou seja, alvo do que o Oxford English Dictionary define como “o sentimento de mortificação e má vontade provocado pela contemplação de vantagens superiores possuídas por outrem”. Se seu próximo for invejoso e você estiver melhor que ele, você será tácita e amargamente cozido em uma panelinha de rancor. Se seu próximo for esnobe, idem. E se seu próximo for esnobe e você estiver pior que ele, você será considerado um coitado, um reles. Competições sociais podem atingir níveis muito doentios, e isso não vale só para quem toma medicação, vai ao psiquiatra e é um espalhafato de problemas. As águas paradas que aparecem podem ser profundas. Exceções sobre essa rivalidade são abertas para nossos pais, cônjuges e filhos: quando eles progridem, sentimos que progredimos junto, e a explicação mais coerente para esse fato deve estar associada à biologia. Isso é tão notório que qualquer um que demonstre invejar o próprio filho porque ele conseguiu ir para uma universidade melhor que a sua será visto com estranhamento.

Quando confrontados com um sério revés ou uma desgraça irreversível na vida, sentimo-nos inclinados a fazer uma pergunta óbvia: Por que eu? Mas para a pessoa invejosa, a pergunta, ao ver alguém que teve mais sorte, é: Por que não eu? Por que esta mulher deve ser mais bonita do que eu? Por que este homem é mais rico e mais poderoso? Por que estas pessoas têm talentos e dons naturais que me faltam? Lord Chesterfield declarou que 'as pessoas odeiam aqueles que as fazem sentir a própria inferioridade'. Sem dúvida, isto nos faz perguntar: 'Por que fui deixado de fora? Por que não eu?'

Após esse trecho, Epstein sugere que algumas profissões são mais propensas à inveja do que outras e que o ramo da literatura deve ser o pior. Ele próprio, no pensamento seguinte, diz que isso pode ser um julgamento errado de sua parte, já que é apenas o círculo literário e acadêmico que ele conhece bem. Já trabalhei em lugares variados, conheço pessoas que trabalharam em lugares variados e posso dizer com alguma segurança: mesmo entre as faxineiras do seu prédio pode haver um grau elevado de inveja contaminando relações. Há inveja nos lugares mais estúpidos e entre as pessoas mais estudadas: nenhuma classe ou profissão está imune a ela. Há inveja entre freiras e entre membros de ONGs. Entre pessoas que fazem trabalho voluntário. Entre feministas ativistas. Entre amigos de infância. Há inveja entre amigas que saem juntas para comprar toalhas – “olha a Lúcia esbanjando dinheiro só para ter toalhas de maior qualidade que as minhas; também, com esse emprego fácil de salário imerecido...” –, entre viajantes, entre bebedores de vinho, e no grande roteiro de restaurantes de São Paulo há até competição para ver quem vai aos melhores lugares, resultando num grupo de almas sujas e verruguentas tomadas pelo esnobismo, pela inveja ou, horror dos horrores, por ambos. Atribuem a Sócrates uma bela fala proferida após ver inúmeros itens num mercado: “tantas são as coisas de que não preciso para ser feliz!” Podemos trocar a palavra “coisas” por “companhias” quando frequentamos um desses ambientes.

Na distinção que Epstein faz entre ciúme e inveja no capítulo primeiro, uma frase sua basta: “sente-se ciúme do que se tem e inveja do que as outras pessoas têm”.

A inveja possui uma espécie de amor à justiça, mas de forma macabra. Uma de suas maiores vontades é a de nivelar, mas não pelo alto para que todos sejamos felizes, e sim para que todos sejamos medíocres. Quem se atreve a fugir da felicidade medíocre é visado, e não é à toa que Epstein compara certos anseios comunistas e socialistas a uma vontade invejosa. Nesse ponto, discordo um pouco dele. Sei que muitos esquerdistas só são esquerdistas por inveja – tivemos várias provas disso quando esquerdistas pobres, ao alcançar o poder, passaram a tratar seus iguais como súditos, realizando o que Bakunin previa para a até agora fracassada ditadura do proletariado – e que no fundo eles gostariam de ter o poder e a pompa que seus alvos têm – lembremo-nos das vidas absurdamente luxuosas de Mao, Fidel, Stálin e da dinastia Kim –, mas reduzir toda vontade de justiça a motivação invejosa é perverso. Se o dono de uma indústria enriquece rapidamente enquanto seus funcionários trabalham por salários de miséria, reivindicar melhores condições de pagamento não é “invejoso”. É apenas justo. Claro, nem sempre é fácil distinguir a justiça da pura inveja. Quando uma mulher feia pleiteia “a quebra dos padrões de beleza” para que seus traços possam ser considerados bonitos, às vezes tenho minhas dúvidas se estou diante de uma advogada de uma causa interessante ou de uma invejosa que anseia nivelar todos os modelos para que ela não fique por baixo. Essa hesitação de minha parte surge principalmente quando aquele que requer pede coisas que o beneficiem, como é o caso da vertente narcisista do feminismo. E é por isso que considero o veganismo como uma das causas mais nobres: quando se pleiteia algo para o outro, como poderá a inveja sequestrar essa preocupação? A relação entre veganos uns com os outros é outra história muito diferente. No que concerne a veganos e animais, a inveja some. Para fechar esse ponto sobre sistemas sociais falsamente igualitários, um trechinho muito bom do capítulo oitavo:

E é claro que nenhuma sociedade foi mais cheia de inveja do que a falecida (e nem um pouco lamentada) União Soviética, onde dedurar seus vizinhos devido às suas vantagens fez da inveja um meio de vida e uma forma da ascensão.

No primeiro parágrafo escrevi que o invejoso dá sinais. Não cabe a mim palestrar sobre esses sinais: observem, estudem e aprendam. Confesso que me acho bastante “leitora das mensagens ocultas alheias”, mas só falo a sério sobre isso (a sério = coisas não exatamente inofensivas) com pessoas realmente íntimas. Essas pessoas íntimas não são leitoras de mensagens ocultas. Graça das graças, costumo não gostar de outros arrogados leitores dessas psicopatologias da vida cotidiana (um texto bom de Freud, apesar de considerá-lo exagerado porque ninguém mais pregará os olhos à noite ao tentar se debruçar sobre a questão: “por que José escolheu o número 34 quando pedi que escolhesse aleatoriamente qualquer número até 100?”), pois sempre acho que eles estão lendo errado. Ou entregando seu próprio modus operandi em vez de arreganhar o do outro. Por exemplo, sempre desconfiei das meninas/moças/mulheres/senhoras que chegaram para mim apontando suas análises minuciosas sobre uma outra “que dá em cima dos meninos/moços/homens/senhores”. Essa acusação não costuma vir com um tom encantado como se uma senhorinha de cabelo branco preso num coque tivesse acabado de sair de um campo florido com uma cestinha de palha, olhasse para a prostituta simpática que é sua vizinha e dissesse, com as bochechas rosadas pelo sol e pelo rubor: “dando em cima de todos os homens da vila, hein, Dafne?” A delação costuma ser venenosa. É uma leitura, e é uma leitura que costuma ser venenosa. O que penso? Geralmente penso que quem está acusando é que “dá em cima” – seja rindo mais alto para homens ou se abaixando para pegar um lápis, não sei, mulheres têm formas bem bizarras de seduzir às vezes – e está quase se incriminando como o bom caso da raposa e das uvas. Nessas leituras erradas, uma pessoa má se entrega (a que se finge de dama mas que é a vagabunda para a qual aponta o narizinho) ou põe em maus lençóis uma pessoa boa (quem não conhece uma mulher que era agradável com todos e foi chamada de vagabunda porque o “todos” incluía “homens que estão sendo vigiados por intrometidas que não sossegam o facho"?). Ressalto que isso não é regra: às vezes a analista é mesmo uma dama e está certa em sua leitura sobre as outras, e aí a única questão que fica é se a animação das outras é da conta dela e por que diabos ela se importa tanto. Assim, minhas leituras são um lazer muito pessoal: passá-las por completo pode levar ao equívoco (cadê o juiz para escolher qual é a leitura correta?) e à exposição desnecessária. Nenhum detetive fica revelando seus métodos. Mas Epstein, que é centenas de vezes mais cuidadoso e razoável do que eu, tenta mostrar um tipo de ajuda para o reconhecimento do invejoso:

Um manual para identificar os invejosos seria de grande utilidade. O invejoso muitas vezes lança mão da ironia, a arte de dizer uma coisa, mas querendo dizer outra. Cuidado, também, com o desdém excessivo, mesmo quando usado por si próprio, porque, nas palavras de Paul Valéry, 'a um exame mais cuidadoso descobrimos que o desdém inclui uma pitada de inveja'. A tendência da maioria das pessoas é desdenhar do que não consegue fazer ou ter. O invejoso também tende a elogiar excessivamente. […] Moral da história: observe os olhos de quem se curva mais.

Conselhos simples e práticos para viver num terreno tão pantanoso. Quem não conhece gente que se mascara sob desdém e ironia? Aqui, dou minha opinião mais uma vez. Ironia, aquela ironia que vivo criticando (aquela que digo ser tão comum na fala de professores de história, que no meio de História Contemporânea III devem ter recebido muitas aulas subliminares de ironia para terem saído da faculdade com aquela imensa expressão de pato sabido), não deve se confundir com graça. O debochado, o “palhaço da turma”, não tira sarro da sua cara para te fazer mal. Ele quer ser engraçado, seja falando que suas orelhas são grandes (você achar isso engraçado ou não é outro assunto) ou que você tem um bordão pegajoso. Sua intenção é: ser engraçado. É o Chandler Bing da vida real. Já o irônico não quer ser engraçado, tanto é que ele ri sozinho ou muitas vezes ri acompanhado de sorrisos amarelos constrangidos. O irônico quer provocar, ofender, menosprezar, diminuir. Muitas vezes ele precisa disso para fingir que é superior aos outros (se se achasse mesmo superior, não precisaria fazer esse papel patético de mascarar complexo de inferioridade com ironias que desequilibram o emocional alheio), portanto é digno de pena. A ironia que você deve aceitar como recurso justo é a ironia de um inimigo, porque faz parte do inimigo querer te provocar e diminuir. Se um pretenso amigo ou colega faz isso, algo está muito errado. Afaste-se e limpe os pés antes de entrar em casa.

Que outros conselhos Epstein compila para que reconheçamos um invejoso de meter medo? Não há quase nada mais. Por a inveja ter um grande “talento para o disfarce”, na expressão de Leslie Farber, poucos estudos são feitos sobre o tema. Um desses poucos mostrou que muitas pessoas estão dispostas a ganhar menos dinheiro desde que ganhem mais do que seus colegas: para elas, é preferível ganhar 85 mil por ano se ninguém mais ganhasse acima de 75 mil a ganhar 100 mil num contexto onde todos os outros ganham 125 mil. Se acha que isso parece absurdo, pense bem. É comum que se avalie a própria vida tomando como parâmetro a vida dos outros, e é por isso que muitas vezes o faxineiro com o salário mais alto da equipe pode estar mais feliz que o procurador com o salário mais baixo da classe. Epstein cita uma máxima de Josh Billings: “a melhor situação na vida é não ser tão rico a ponto de ser invejado, nem tão pobre a ponto de ser execrado”.

No capítulo sexto, Malditos jovens, fala-se sobre a inveja da juventude. Vocês devem saber do que se trata, mas vou declarar que considero esta uma das invejas mais injustas e sem sentido. Por quê? Porque o quarentão, cinquentão, sessentão que inveja a juventude de seu colega ou subordinado já teve a sua vez como jovem. E precisa pensar que a tendência é que esse jovem à sua frente terá a oportunidade de ficar velho como ele mesmo ficou. É um ciclo, e não faz sentido invejá-lo: você já esteve no lugar dele, ele um dia estará no seu (não precisa esfregar as mãos maleficamente e sussurrar entredentes “hehe, um dia ele estará no meu lugar”, não é de revanche que estou falando). Quanto ao jovem que com 20 anos já conseguiu o que você só alcançou aos 40, candura. Cada um tem um estilo de vida para conseguir as coisas e essas comparações não vão levar ninguém a lugar algum. Se levarem, será com uma dose muito ruim de hormônios prejudiciais perambulando pelo organismo. Epstein conta uma história engraçada (com a qual me identifico):

Minha inveja só ganhou particularidade quando decidi que queria ser escritor. Isto me pôs imediatamente na situação de invejar outros escritores da minha geração que, da maneira como o mundo media essas coisas, haviam avançado mais rápido do que eu. Com vinte e poucos anos, lembro-me de ter lido, nas notas sobre os colaboradores da Poetry Magazine, que uma mulher com três poemas naquela edição havia nascido dois anos depois de mim, o que foi suficiente para me estragar o dia – e eu nem tinha intenção de escrever poesia. Saber que pessoas da minha idade ou ainda mais jovens já haviam escrito livros, alguns até bons, era mais do que perturbador. Eu não queria exatamente que morressem, mas, diante da falta de cortesia por não terem esperado que minhas realizações fossem reconhecidas primeiro, eu queria que, de algum modo, fossem impedidas de escrever. A moral desta historieta, acredito, é que é difícil ser ambicioso sem também sentir inveja.

Essa confissão me lembra algo que aconteceu comigo há muitos anos (leia-se há mais de sete anos). Um amigo e eu pensamos em escrever romances para participar de um concurso literário. Éramos totalmente pretensiosos para achar que de primeira e em dois meses poderíamos escrever algo que prestasse e merecesse prêmios, mas juventude é isso: você acha que sabe tudo e que é um Rimbaud escondido. Começamos a escrever. Quando eu não estava nem com uma trama engatada, esse amigo me envia várias páginas da sua história. Fiquei preocupada. “Eu é que escrevo, eu é que leio Sartre desde os 15, e ele me passa na frente?” Desgostosa e com cara de grumpy cat, fui ler o que ele tinha escrito. Li. Terminei e pensei: “Graças a deus é ruim”. Fiquei feliz por ver que meu amigo não me deixaria para trás num ramo que eu acreditava ser o meu. Para que ele não se sinta humilhado sozinho nessa confissão, o que eu escrevi depois também era bastante ruim. Na época achei que era uma nova Pirandello transportando o conflito entre personagens e autor do palco para a prosa, mas hoje sei que aquilo era apenas o fruto de uma presunção. Ademais, no estilo dei uma de Clarice Lispector e escrevi o que vinha na telha. Não tinha como ser bom, como prova o resultado lá-lá-lá-escrevo-o-que-penso-e-não-retoco do trabalho dela, cujos livros não consigo ler por mais de vinte páginas.

Inveja, de Joseph Epstein, trata ainda do feminismo, do asco aos judeus, das diferentes coisas que homens e mulheres invejam e do famoso Schadenfreude, que é o sentimento de prazer que se sente com o fracasso ou a derrota de outras pessoas. Com 137 páginas de texto num formato pequeno, é um bom livrinho para ler numa tarde calma. Já encomendei, aliás, os livros equivalentes aos outros seis pecados. Finalizo minha seleção com um trecho bonito que está na última página. Gosto muito quando Epstein cita a palavra “auto-análise”, porque isso nos remete à responsabilidade que deveríamos ter conosco e se perdeu num tempo de psicólogos, psiquiatras e médicos para qualquer “desvio” absolutamente humano. Deve ser culpa da era da terceirização, onde até a resolução de emoções simples e trabalháveis são tarefa para outros fazerem por nós. Eis o trecho:

Seja lá o que for, a inveja é, acima de tudo, um grande desperdício de energia mental. Embora não se possa provar que a inveja faça ou não parte da natureza humana, o que se pode provar, acredito, é que quando desencadeada, ela tende a degradar a pessoa de quem se apossa. Sempre que a inveja entra em cena, o julgamento torna-se mais grosseiro e vulgar. Como quer que a mente funcione, a inveja, sabemos, é um de seus excessos, e como tal é preciso identificá-la e combatê-la pelo único meio à nossa disposição: a honestidade consigo mesmo, a auto-análise e um julgamento equilibrado.
 
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Inveja (Coleção sete pecados capitais) – Joseph Epstein, Editora ARX. A coleção está disponível na loja virtual da Saraiva, exceto o exemplar dedicado à preguiça, que só pode ser encontrado na Estante Virtual.